Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 17
O troglodita é meu vizinho!
Não estou acreditando que aquele … aquele … serzinho é meu vizinho! Franzo minha testa e me afundo na cadeira; tento procurar outro assento, mas já estão ocupados. Enquanto fico sentada ao seu lado, ele começa a me fitar com seus olhos castanhos intensos. Por um momento quase acho que ele está me paquerando. Se for isso, ele não faz o meu tipo.
É o típico cara relaxado com sua aparência. Suas feições é de um total desleixo. Barba para fazer, sobrancelhas grossas demais e usa roupas bem largas, para tentar cobrir seu excesso de peso, talvez. Como se não bastasse é um tremendo grosseirão!
Não faz meu tipo mesmo!
─ Era só o que faltava! ─ desvio do seu olhar e mostro a minha cara mais carrancuda.
─ Era só que faltava, digo eu! ─ ele sorri, se diverte com esta infeliz coincidência. Emily está em uma cadeira ao seu lado, assim que me vê, me dá tchauzinho. Retribuo.
─ Silêncio! ─ a velha arrogante volta a olhar para mim.
─ Que andar? ─ o fito de forma desafiadora.
─ Terceiro. ─ responde calmamente e sorrindo. Não estou entendo a alegria deste cara.
─ Qual apartamento? ─ ergo a sobrancelha.
─ 501. ─ ele me encara com os olhos esperando minha reação.
─ Ei! Fica acima do meu! É você que faz um ruído tenebroso de guitarra? Olha, fiquei sem dormir um dia desses, por sua culpa! ─ cruzo os braços e olho de maneira irritada.
─ Olha quem fala! Você tem uma cachorra que fica uivando às duas da manhã e ainda faz festinhas regadas a gritinhos histéricos de mulheres! ─ dá um sorriso debochado.
O encaro com olhos semicerrados. Ele retribui a mesma forma desafiadora.
─ E por fim… ─ a síndica termina a reunião. ─ Gostaria de falar com os devedores de nosso condomínio. ─ seus olhos se voltam para os meus e vejo que um monte de cabeças também. Coloco as mãos no rosto, envergonhada. Permaneço sentada, enquanto os outros levantam-se e saem.
─ Paga as contas, xexeira! ─ ele sai rindo da minha cara e puxa a delicada Emily.
─ Pois bem… ─ depois da saída de todos, ficamos eu e a síndica. Ela organiza alguns papéis que está sobre a mesa, respira fundo como se fosse dizer um assunto delicado a mim. Sei que tudo é teatro desta mulher. Seu sonho é me enxotar a ponta a pés daqui. ─ Senhorita Cleonice, vejo que há taxas de condomínios estão atrasadas há mais de dois meses, as contas de água e luz chegaram ao ponto de serem cortadas.
─ Como é que é?! ─ arregalo os olhos.
─ Isso mesmo. ─ ela sorri satisfeita e estala a língua.
─ Isso foi … agora? ─ pergunto incrédula e ela balança a cabeça confirmando.
Acho superengraçado a companhia de energia e água, quando peço para eles virem resolver certos problemas na minha residência, esse povo demora quase um século para chegar. Mas quando o negócio é corte, ai meu bem, eles vêm nem que esteja acontecendo um apocalipse.
─ Cleonice, sinto muito, contudo, se a situação continuar assim, você terá que liquidar seu apartamento. ─ a frase soa mais como satisfação do que pesar, diante daquele sorriso cínico que conheço bem.
─ Olha dona Luíza, eu vou receber uma grana e juro que assim que estiver em minhas mãos, pago tudo o que devo. ─ baixo a cabeça triste. Não quero me livrar do meu cantinho.
─ ESPERO! Devia pensar duas vezes antes de torrar seu dinheiro com gogo boys. ─ ela baixa os óculos e me fuzila com os olhos.
Meu apê está um tremendo escuro, não sei onde está nada. Me sinto como uma cega, tateando os objetos da casa para saber onde estou indo. Derrubo algumas coisas e temo me deparar com algo indesejado a qualquer momento, como se não bastasse, Miúcha me estranha e começa a latir sem parar, chega até a me morder!
─ Ei! ─ mais um rosnado. ─ Miúcha, sou eu! Sua dona! ─ ela para os latidos e começa a me lamber. Finalmente me reconhece e dou graças a Deus por isso. Escuto um ruído, alguma coisa vibra em algum lugar, sigo o barulho e noto uma luz que clareia a sala. Vindo do meu celular, que toca a música de Mamonas em alto e bom som. Atendo apressada, quase derrubando o aparelho no chão.
─ É a senhora Cleonice Fernandes? ─ uma voz masculina e desconhecida me questiona.
─ Sim. ─ respondo desconfiada. Que não seja mais um cobrador de dívidas, por favor!
─ Boa noite, senhora. Queria informar que o senhor Eduardo passa bem, está mantido sob medicamentos. Daqui a dois dias ele terá alta. Se for do seu desejo visitá-lo amanhã, já será possível. ─ fico aliviada que o assunto a se tratar seja este.
─ Sim, irei. Em que horário, por favor? ─ busco uma caneta na escuridão e indo em direção ao meu sofá, tateio a poltrona e encontro uma jogada entre as almofadas. Coloco a luz no meu braço e ouço o atendente me dizer que às 15:00 horas já é possível vê-lo. Anoto no meu braço e agradeço a informação e desligo o aparelho.
Me agarro ao celular como se fosse minha salvação neste lugar sem energia. A claridade é fraca, porém serve para alguma coisa. Desejo que Eduardo fique bem. Por mais que o odeio radicalmente, não sou uma pessoa ruim. Só queria que eu ficasse doente para atrasar os planos da minha prima perturbada. Mas o tiro saiu pela culatra.
Falando no diabo…
─ Oi, Soraya. ─ atendo o telefone.
─ Como combinado, está na sua conta-corrente o valor de três mil reais. Saiba que não suportarei outra audácia sua! Sei muito bem que fez aquilo tudo para destruir o encontro, e essa não era ideia. Está no nosso acordo que…
─ … eu devo sair com ele, como a mesma Cléo de sempre. Serão 3 encontros, que serão solicitados por você, da maneira que bem entender. Sei disso após você repetir mil vezes e ainda ficar soletrando pelo telefone tarde da noite.
─ Ótimo! Assim que ele melhorar, terá mais dois. ─ tum.tum.tum. Desliga.
***
Tento pela luz do celular localizar minha gaveta, que fica perto do sofá. Ah! Consegui! Pego o círio ali dentro. A coitada já está uma nanica de tanto uso. Faz séculos que guardo naquele lugar. Só usava na época que tinha uns apagões aqui em Recife e que muitas vezes duravam o dia todo. Depois disso, nunca mais fiz questão de comprar mais nenhuma. Mesmo estando no fim, acho que dará para o gasto.
Pela iluminação do meu aparelho, consigo chegar à cozinha. Pego o fósforo que está em uma das bocas do fogão. Acendo a lume e coloco em uma xícara em cima da mesa. Quando me dirijo à sala, minha cachorra acha que a vela é um lindo sorvete de cera e desatina a puxar a toalha. Sei que segundos depois, sinto um cheiro de churrasquinhos e no final é uma gritaria sem tamanho.