Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 20
Penúltimo dia do ano
─ Bitch! Vamos logo!
Mariane me convence que preciso sair. Nessa loucura toda que virou minha vida, não estou tendo tempo nem para curtir minha solteirice. Apesar que isso é o menor dos meus problemas. Visto que, preciso arrumar um emprego, dar um jeito de conseguir aquele vídeo da minha prima surtada e também quero minha casa de volta! Mais motivos para tentar esquecer minhas aflições, pelo menos por uma noite.
Estamos na porta de uma boate animada. O lugar parece ser muito frequentado, ao notar pela quantidade de gente que aguarda em uma fila de dar voltas pelo quarteirão. Observo os refletores com cores bem chamativas na entrada do local. Sua decoração fica apenas com seu letreiro enorme e chamativo. As luzes neon contornam cada palavra da boate. “Love dance”. Este é o nome do local.
A música meio abafada pelas portas da boate, consegue penetrar em nossos ouvidos e nos contagiar com o som da batida. Mari e eu já estamos perto de entrar. Percorremos pela fila e aguardamos passar dois casais e um grupo de rapazes que estão na nossa frente e finalmente chega nossa vez. Minha amiga dá a um segurança, alto, moreno e com uma expressão carrancuda, nossos ingressos. Ele nos revista e deixa entrar. Noto sua expressão boquiaberta para Mariane. Também! Modesta à parte, a Mari está linda. Com um vestidinho tomara que caia, curto, na cor champanhe. Os cabelos negros com babyliss e uma maquiagem muito bacana, por sinal. Eu estou de vestido curto, de mangas longas, na cor branca.
No interior da Love dance, minha amiga e eu procuramos uma mesa para podermos nos acomodar. Encontramos uma lá no fundo, quase escondida. Sentamos nos bancos que tem um formato de círculo que rodam o mármore daquele local.
As pessoas dançam eufóricas no meio da pista. A boate é dividida em duas partes: a pista, que fica na parte de baixo do local, onde Mari e eu estamos. E a de cima, onde há uma imensa escada que leva ao primeiro andar. Lá, ficam provavelmente os camarotes, pode-se ver poucas pessoas no andar superior, umas sentadas em sofás acolchoados e outras em pé, segurando taças de champanhe e sendo paparicados por um garçom particular.
─ Amiga! Quer dizer que o Edu está caindo na sua de novo? ─ Mari pede dois drinques ao garçom que circula para lá e para cá na pista. Com a caneta e caderneta em mãos, ele anota o pedido e se prontifica em trazer o mais breve possível. Ela entra em um assunto que não desejo, mas a respondo explicando de vez minha intenção que parece nunca convencê-la.
─ Pois é. O que está parecendo. Mas só tô fazendo essas coisas pelo acordo com a Soraya. Não há NENHUMA CHANCE SE ELE QUER VOLTAR. ─ falo furiosa com sua falta de confiança neste assunto.
─ Tô com medo. ─ me encara.
─ De quê? ─ O funcionário chega próximo a nós e retira de sua bandeja, nossas bebidas. Ficamos impressionadas com sua rapidez e agradecemos sorridentes. Mari silencia um pouco sobre a sua resposta. Assim que ele sai, ela me responde.
─ Que você se apaixone de novo. ─ olho para ela desacreditada.
─ Ainda essa história, Mari? ─ ela faz uma careta.
Eu sei que o verdadeiro medo dela é de perder sua companheira de baladas. Conheço minha amiga e sei que ela não tem outras companhias femininas, pois a grande maioria das garotas morrem de medo de terem algum laço de amizade com a Mari, com receio do seu jeito independente e livre, justifica ela dar em cima de todos os homens incluindo os comprometidos. Mas isso não é verdade. Quando a Mari é amiga de alguém, ela deixa logo claro que namorado de amiga é mesmo que ser mulher. Contudo, as pessoas preferem julgá-la sem ao menos conhecê-la.
─ Se tem uma pessoa que nunca voltaria… é Eduardo do Vale. ─ digo com convicção. Beberico um pouco do líquido da taça e volto a olhar para ela.
─ Espero.─ bebe seu drinque rápido e para encerrar a conversa, me levanto e termino o restante de minha bebida.
─ Vamos para pista! ─ coloco o copo na mesa e Mari faz o mesmo com dela e vamos para o meio do salão.
A música eletrônica toca a todo vapor. Nos remexemos como se não houvesse amanhã. Balançando os braços para cima e para baixo. Fazendo coreografias sensuais, que pelo visto chama a atenção de dois rapazes. Um alto e um baixo. O baixinho é loiro, com piercing no nariz e tatuagens nos braços. Ele segura minha mão e faz eu dar uma voltinha.
─ Nunca pensei que fosse encontrar, aqui, a mais bela das mulheres! ─ murmura pausadamente e me lança uma piscada de olho atrevido.
O alto é careca, forte e com um sorriso muito bonito. Branco e com os dentes alinhados. Ele já está no maior clima de pegação com a Mari. Que o deixa envolver em seus braços e tocar seu cabelo e falar palavras secretas em seu ouvido. Logo, logo, sai um beijo, se bem a conheço, ela gostou dele e quando minha amiga quer alguém, ela não faz rodeios e parte logo para cima, fazendo o que bem desejar.
Outra música dançante toca. Não fico parada e chamo o baixinho para dançar. Tinha ido ali com a intenção de esquecer meus problemas, porém se um novo gatinho apareceu, é sinal que estou no lucro. Deixo rolar. Se ele fizer algo errado, dou um chute bem no meio de suas pernas.
Porém, ele até que está se comportando. Não ousa chegar muito perto de mim. Se mantém em uma distância que considero permitida. O rapaz sorri e murmura o quanto eu sou linda. Aos poucos, permito que ele chegue mais próximo. O baixinho segue o mesmo ritmo que eu na dança. Solto, alegre e desinibido. Pulamos, cantamos e fazemos gracinhas um para outro até que a canção para e entra uma calma em seguida. Ele beija minha mão e pergunta se pode se aproximar mais de mim. Deixo. Ficamos com nossos rostos bem colados, fazendo charminho.
─ Quantos anos você tem? ─ cochicha no meu ouvido.
─ 22. E você? ─ me aproximo do seu e respondo.
─ 22 também. Já temos algo incomum. ─ sorri. A dança continua tranquila. Coloco meu rosto em seu peito e chego a escutar as batidas de seu coração; fortes e aceleradas.
─ O que você faz, ruivinha? ─ sua voz arrepia os pelos da minha nuca.
─ Desempregada. Agora é a parte que você cai fora? ─ brinco.
─ De jeito nenhum. ─ dá um enorme sorriso.
Ele ajeita meu cabelão ruivo, jogando as mechas para trás. Uma música romântica e mais leve embala a pista. O rapaz me puxa para um beijo, vacilo. Continuo com meu rosto em seu peito. Abro a boca para perguntar seu nome, mas sou interrompida por uma voz grossa que chega próximo a nós.
─ Com licença! ─ sinto que alguém toca o ombro do meu acompanhante e levo um susto ao me deparar com aqueles olhos que nos encaram.
─ Larga minha namorada! ─ fala furioso. O rapaz franze a testa. O Mascarado conversa algo no ouvido do meu parceiro, que sai pedindo desculpas; nos deixando a sós.
Ele está vestido de terno preto e calças da mesma cor. Só não entendo por que continua com aquela máscara, escondendo seu rosto. Na minha festa até fazia sentido, mas aqui, agora, em um dia comum não faz mais. Não entendo esse mistério que o ronda, porém espero logo descobrir o porquê de todo aquele suspense.
Algumas pessoas nos olham curiosas, encaram e apontam para nós. Como se ele fosse alguém famoso e só a anta aqui não soubesse. Escuto até alguns gritinhos de mulheres. Porém ele não se incomoda com aquela chuva de olhares que repousam sobre a gente e parece que a única coisa que o importa sou eu bem à sua frente. Pelo modo como ele escolhe as palavras antes de falar e abre e fecha a boca até tomar uma atitude e se dirigir a mim.
─ Me concede a honra? ─ ele estende sua mão.
Balanço a cabeça afirmativamente. Ele pega minha mão delicado e me puxa próximo a seu corpo. Dançamos conforme a melodia da música. Sem pressa e aproveitando nossos corpos juntos para termos mais intimidade, sentindo o cheiro um do outro e nos fitando com intensidade e reconhecimento.
O mascarado em nenhum momento pisa no pé e parece entender de dança melhor que eu, me conduzindo a passos que nem sabia ser capaz de dar, tudo acontecendo de forma espontânea e leve como se flutuássemos na pista.
─ O que fez com o menino? Ele se assustou! ─ estava curiosa.
─ Falei umas coisas no ouvido dele. E também ele sabe quem eu sou. ─ dá um sorriso. ─ Acho que ele entendeu o recado.
Ele sabe quem eu sou… ─ a frase soa no cérebro como um alerta. Será que o senhor Joaquim é uma espécie de gangster ou um matador de aluguel, que por onde passa, as pessoas temem sua presença? Se for, eu me candidato ao Guiness Book como a namorada mais azarada de todos os tempos!
─ E você acha que é só chegar assim, dispensando meus pretendentes? ─ tento não pensar nas possibilidades negativas que meu cérebro está me dando. Emendo logo em um assunto, antes que peça o CPF dele para fazer consulta na polícia federal.
Ele cora. Talvez não espera por essa atitude da minha parte.
─ Se incomodo… ─ faz um gesto que vai se retirar.
─ Ei! Não. Estava brincando! ─ sorrio e o puxo pela mão para nos embalarmos na dança novamente.
─ Se acha o senhor tatuado melhor que eu, pode falar. O trago de volta. ─ fala magoado.
─ Deixa de ser bobo! Sua companhia é bem melhor. ─ ele sorri satisfeito.
Nos aproximamos de novo e ele aperta minha cintura. O contato de suas mãos faz com que o meu corpo reaja de forma acalorada. Respiro fundo, encostando minha cabeça em seu ombro e comento um assunto que me deixa intrigada, deixando de lado a atmosfera de atração que nos cerca.
─ Namorada, é? ─ murmuro sorrindo, entrando em um assunto que não posso deixar para trás, quando ele enxotou o pobre rapaz que dançava comigo.
─ Se você quiser… ─ me fita com seus olhos castanhos.
─ Ainda é cedo. Para começar a namorar com alguém tenho que conhecê-lo bem primeiro. Não quero me enganar de novo. ─ abaixo a cabeça.
─ De novo? ─ ele me analisa.
─ Longa história. ─ tento deixar essa conversa de lado. Não quero falar do Edu. A única coisa que me importa no momento é ele. ─ Por que continua com esta máscara? ─ desconverso.
─ Talvez eu não seja quem você queira. ─ o assunto o entristece.
─ Não gosto de mistérios. ─ resmungo.
─ Por que não? Mistérios nos fazem ativar a parte de raciocínio do seu nosso cérebro. Nos tornando mais inteligentes. ─ diz de forma sábia.
─ Como sabia que eu estava aqui? ─ questiono o fato dele saber da minha presença no local.
─ Digamos… que uma certa pessoa me disse! ─ aponta para Mari, que afirma com a mão e ainda faz um coraçãozinho lá de longe com seu paquera.
─ Deve ter feito alguma coisa a ela. Minha melhor amiga não quer contar quem é você! ─ ele sorri.
─ Digamos que prometi uma recompensa, caso me ajudasse com você. ─ diz misterioso.
─ Recompensa? Se tratando da Mari tem homem nesse meio. ─ Ele dá um sorriso acalorado. Acho lindo o som da sua sonora gargalhada. ─ Tem ou não tem? ─ insisto. Estou curiosa para saber quem é o cara que Mari deseja tanto.
─ Espera aqui; eu volto rapidinho. ─ o mascarado apenas olha para o palco, sorri e depois estreita os olhos, como se lembrasse de alguma coisa. Fica parado por alguns instantes como se planejasse algo. Deixando a minha pergunta sem resposta e indo para onde o DJ está.
Fico pensando por que tanto suspense em responder uma simples pergunta? Quando eu e Mari estivermos sozinhas, terei uma conversinha entre amigas para saber desse segredo todo e de como este homem a calou. Bem que desconfiei de todo aquele mistério, minha amiga sempre me conta tudo!
Ele fala com DJ, enquanto ele tira o LP e coloca outro no lugar em seu equipamento. Os dois comentam algo um no ouvido do outro, vejo o DJ confirmando com a cabeça o que o meu acompanhante fala e os dois se despedem com um abraço meio de lado, por conta de que o profissional coloca o fone de ouvido e remixa a música na aparelhagem.
Poucos segundos depois, retorna para local onde me deixou esperando com um sorriso de orelha em orelha.
O DJ pega o microfone:
─ Pessoal, não me matem! Mas tem uma pessoa especial que manda essa música em dedicação à Cléo. ─ ouço gritos histéricos e aplausos. Aos poucos escuto uma canção, que me deixa arrepiada.
“No deserto que atravessei. Ninguém me viu passar. Estranho e só. Nem pude ver. Que o céu é maior…”
Minha boca abre e fecha inúmeras vezes. Como ele sabe tanto dos meus gostos assim? Esta música mexe comigo de uma forma tão linda que não encontro nem adjetivos capazes de descrever o momento sublime quando a escuto.
─ Leandro e Leonardo. ─ respondo admirada. Ele parece nervoso. Começa a coçar o pescoço. Tem um olhar brilhante pousando sobre mim. Talvez esteja tentando adivinhar minha reação.
─ Eu faço isso quando estou tensa. ─ sorrio ao constatar que temos mais uma coisa em comum.
─ Eu também! ─ ele me dá um olhar intenso que sinto como se estivesse vendo minha alma.
“Tentei dizer. Mas vi você, tão longe de chegar.
Mas perto de algum lugar…
─ Permite? ─ estende a mão novamente. Balanço a cabeça concordando. Ele se aproxima, encostamos nossos rostos e corpos.
“É deserto onde eu te encontrei.
Você me viu passar.