Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 23 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 23

O ano começa mal!

“Mister M agitou o réveillon da praia de Boa Viagem. Mas saiu antes do previsto por motivos que ainda não sabemos.”

Está na primeira página do jornal de Pernambuco.

O jogo no chão. Me dirijo à varanda e me agacho, sentando, com a cabeça encostada na porta. Reflito tudo que aconteceu nos últimos tempos e principalmente na noite passada.

Entre meus devaneios, observo pela varanda que algumas pessoas passeam no meio da rua, garotas com os sapatos nas mãos, sorrindo como se não houvesse amanhã, meninos comemorando o ano que se chegou, com carro de som tocando músicas altas dos gêneros mais variados.

Sinto um pouco de inveja deles. Estão felizes, com certeza esperam que o ano novo lhe traga mais coisas boas, planos, um futuro. Já eu … Bem, não sei o que me aguarda, a não ser vergonha, mais humilhação e decadência. Ao constatar isso, solto um longo suspiro. Miúcha chega próximo de mim. Simplesmente colocando sua cabecinha no meu ombro, talvez na tentativa de me animar.

─ Oi, lindinha. Feliz ano novo! ─ digo tristonha.

A noite passada foi um fiasco total. Não cheguei nem a esperar a contagem regressiva. Edu tinha acabado com tudo; se não fosse aquele maldito acordo com minha prima endiabrada, teria dado um soco nele! Saí de lá bufando e me tranquei no quarto e dormir. Escutei batidas na porta, enfurecidas, mas a vontade de ficar deitada era maior, provavelmente foi o meu ex ou Mari.

Assim que acordei, as imagens surgiram na minha mente como um pesadelo. A mensagem do Mascarado, sua cara ao me ver beijando outro homem e minha fuga da praia direto para casa. A noite que poderia ter sido perfeita, foi estragada. Achei que iniciaria algo sério com alguém. Mas enganei. Esquecia do meu dedo podre e de como meu azar para tudo na minha vida me persegue, assim que ele encontra um indício de felicidade, dá um jeito de tirá-la de mim!

Desperto das minhas lembranças ao escutar um barulho do chat do facebook. Deixo o computador na mesinha da sala. Levanto-me e vou em direção ao som. Miúcha me acompanha como certifica-se que não estou indo pegar uma faca para me matar.

“Filha! Feliz ano novo! Cadê você aqui?” ─ é mamãe. Observo a foto de dona Drica sorridente junto com o meu “padrasto” no perfil da rede social.

Argh!

“Meu ano começou péssimo, como sempre. Não tô afim, mãe. Me perdoa?”─ digito.

“Justamente por seu ano está péssimo que você devia vir aqui. Eu tive um sonho com você, na verdade é uma previsão, preciso de contar.”

“Não quero saber mais de romance, mãe.”

“O que houve?”

“Nada. Só acabou uma coisa que nem tinha começado”

Alguns segundos depois.

“Enteada! Deixa de moleza, vem para cá! Minha gostosona está cheia de novidades para você, vem Mina!”

Reviro os olhos. Odeio a linguagem daquele menino. E não gosto como ele me trata. Com uma intimidade que não temos. Não sei onde mamãe está com a cabeça.

“Hum-hum. Olha, deixa a mamãe falar, é um assunto de MÃE E FILHA” ─ enfatizo.

Segundos depois.

“Filha, tem tanta comida aqui. Vem, logo! Tia Lio está até colocando tudo em uma bolsinha”

Sorrio.

“Tá bom. Me espera”

Troco de roupa, colocando um short jeans claro e uma blusinha de renda azul. Penteio os meus cabelos e confiro no espelho se está tudo certo. Saio do quarto e vou em direção à minha cadela, faço cafuné na sua cabeça, deixando água e comida, para caso eu não voltar antes do previsto.

Abro a porta e quando a fecho, sem querer a chave do meu apê dá uma escorregada e cai longe. Uma certa pessoa com seus sapatos pretos e cafonas a esmaga.

─ Po.de. por.fa.vor. me devolver? ─ cruzo os braços.

─ Que foi ruivinha? Noite agitada? Deve ter ficado com muitos caras por aí.─ pisa mais no fecho.

─ Não estou para brincadeira. Meu dia foi péssimo! Me devolve essa tranca ou vai se ver comigo e aviso sei dar chutes em lugares bem apropriados! ─ resmungo e levanto o queixo mostrando superioridade.

─ Uh! ─ sai de cima do objeto e a pega com a mão. Me fuzila com aqueles olhos castanhos e me devolve. ─ Toma.─ sorri sarcástico.

─ Não acho um pingo de graça. Você não sabe nada sobre minha vida, seu idiota! Pare de agir como imbecil. Nem te conheço! ─ ele olha irritado para mim e antes que possa responder minhas provocações, Emily chega quebrando o clima.

─ Papai! Papai! ─ ela aparenta ter algo muito importante para falar com ele. Mas antes disso, me encara. ─ Feliz ano novo, Cléo.

─ Feliz ano novo, lindinha. ─ a abraço e em seguida ela encara seu pai.

─ Papai, não vai desejar feliz ano novo para Cléo? ─ ele fita furioso a pequena. ─ Hein, papai? Que coisa feia da sua parte! ─ Emily dá um sermão cruzando os braços, indignada.

─ Seu pai está mais preocupado em me desejar um péssimo ano novo, do que um feliz. ─ bagunço os seus cabelos cacheados e saio de cena. Ele fica paralisado me encarando.

Cara estranho!

***

Mamãe adora me encher de comida. O prato que ela faz para mim serve direitinho para um batalhão e não para uma única pessoa, contudo, ela não se importa e deseja alimentar até minhas lombrigas se depender de suas vontades.

A mesa grande de sua casa mais uma vez nos reúne. Vovó, tia Lio e meu “padrasto” estão se enfartando das iguarias de Dona Drica, a ceia do Ano Novo deve ser o almoço desta casa por longos dias, pois parece que quando diminui um prato de algum alimento, aparecem mais escondidos entre outros.

─ Come mais um pedacinho de lasanha, Cléo. Está tão magrinha! ─ fala horrorizada. Não se contentando com a montanha de refeição que me pôs.

─ Não precisa, mãe. Estou satisfeita. ─ largo o garfo no prato, não aguentando mais comer.

─ Se não quiser, eu quero. ─ sorrio ao ouvir aquela voz já esperada. ─ Pode pegar tia, Lio. ─ sem cerimônias, minha parente não demora para pegar meu prato e juntar ao seu, formando uma avalanche de comida que esborra pelas bordas, todos sorrimos com sua atitude.

Me levanto, e assim que mamãe percebe que saio, ela me puxa e explica que quer ter uma conversa particular comigo. Subimos as escadas e vamos para o meu antigo quarto. Assim que entramos, ela tranca bem a porta e começa a falar sem parar.

─ Filha! Tive uma previsão. Na verdade, foi um sonho, porém tenho certeza que foi uma previsão! Você estava linda, vestida como está agora. Ai, meu, Deus! É hoje! ─ fala sem conseguir parar seu raciocínio.

─ Mãe! ─ sorrio. Ela acha mesmo que isso pode ser real?

─ Por favor! Me escute! Estava no parque Dona Lindu e ele vinha em sua direção, o rapaz, a sua alma gêmea. Cléo, você precisa sair conosco para lá! ─ insiste com seu papo esotérico.

─ Mãe, já disse que ontem à noite foi fracasso total. Não quero mais saber sobre isso. ─ falo enfurecida.

─ Isso tem a ver com a Soraya? ─ balanço a cabeça confirmando. Mamãe toca em meu ombro, solidária, ela sabe que estou sem saída. Diz palavras de baixo calão para minha prima, característica típica da dona Drica quando fica com raiva. Me dá um abraço apertado e promete que dará um jeito nessa situação. Nosso momento mãe e filha dura pouco. Logo o cover de “Justin Biber” bate à porta e mamãe atende toda sorridente.

─ E aí, gostosona? Vamos todos para o parque? ─ ele sorri e direciona seu olhar para mim.

Bufo.

─ E, aí enteadinha ─ bagunça meus cabelos. ─ Vamos também? ─ ajeito minhas mechas furiosas.

─ Não. Fico por aqui com a vovó. ─ desvio de seus chamegos.

─ Com a velha maluca? Boa sorte! Ela só sabe falar de fim dos tempos e que ela será a salvadora ─ mais risadas. Detesto o jeito que ele fala da minha vó. Já o odeio amargamente.

─ Minha vó não é louca. Ela só gosta de histórias. ─ a defendo.

─ Se é o que você acha… ─ dá de ombros. Se aproxima de mamãe, agarrando sua cintura e lhe tascando um beijo. Dona Drica fica toda derretida.

─ Tem certeza? ─ ela olha para mim com a esperança que eu ainda vá com eles. ─ Ainda pode mudar de ideia, ele estará lá, eu sinto.

─ Tenho.

Fecha a porta.