Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 24
O terceiro encontro
Vovó me chama pelos quatro cantos da casa em alto e bom tom. Não entendo esse alvoroço todo. Porém, mesmo assim tento me apressar; vestindo rápido um vestido branco, de alças.
Saio do meu quarto e desço as escadas rapidamente, pode ser importante. Contudo, ao me deparar cara a cara com aquele ser à minha frente, entendo o porquê de tanta gritaria da Divina.
─ Feliz ano novo, priminha. ─ diz com um sorrisinho diabólico.
─ Antes do mundo acabar, sempre aparecem os demônios. ─ bufa vovó, indo para cozinha.
─ O que quer? ─ me aproximo dela lentamente e digo na defensiva.
─ Vim te dar o pagamento pessoalmente. ─ estende um envelope, que contém o restante do dinheiro.
─ Agora, quero que peças desculpas para o Eduardo pelo seu chilique e volte a namorar com ele. ─ é incrível como mesmo longe, Soraya sabe de cada passo meu. Nem conto a ela o que houve naquela noite e minha prima já parece saber.
Csi do mal!
─ Isso não está no acordo! ─ reclamo.
─ Não! Mas… não sou uma pessoa de palavra. ─ sorri cinicamente; se aproxima de mim e estende seu celular, apertando em uma tecla da tela, surgindo um vídeo.
Em poucos segundos, um homem, na faixa dos quarenta anos, está sendo torturado com diversas armas brancas para revelar o nome de quem tem denunciado o deputado Sílvio. Sem revelar a informação, em seguida um grupo de homens de terno cinza se aproximam dele. Um do grupo, saca uma arma e atira bem na sua testa e a pessoa cai estirada no chão.
─ Isso é só uma prévia do que meu marido e seus amigos podem fazer. Sabe, Cléo… ─ para por instantes e anda pela sala da minha mãe, me causando arrepios. ─ Sou muito mais maldosa que meu esposo. ─ chega próxima a mim. Quase tenho um ataque do coração. Realmente estou nas mãos de uma louca.
─ Marque encontro com o Edu, hoje, agora! ─ ameaça.
Não tenho escolha.
***
Meu ex está em frente à Galeria Janete Costa, do parque de Dona Lindu. Veste uma blusa polo, na cor verde limão e está com as mãos no bolso, de sua bermuda branca. Olha para seu relógio de pulso, com certeza analisando a minha demora, se encosta na parede e olho para os lados, assim que me observa à frente, ele dá um sorriso ao me ver e dá um solavanco para chegar até mim.
─ Oiiii. ─ fala com entusiasmo.
─ Oi. ─ respondo sem emoção.
─ Então? ─ espera a minha resposta.
Olho um pouco para o céu e seu tom azul-escuro com nuvens espessas, tornando o dia ainda mais lindo. Fito por uns bons instantes a paisagem, como se buscasse uma ajuda divina para me tirar desta situação. Como não obtenho, respiro fundo e começo a falar.
─ Me desculpe por ontem. Fiquei um pouco esquisita. ─ minto.
─ Eu te entendo, Cléo. Te fiz passar por muitas coisas, é uma reação altamente normal. ─ toca no meu ombro, solidário.
─ Eu andei pensando… ─ Soraya passa por ali, em seguida me envia um SMS.
“Peça ele em namoro e o beije!”
─ Eu aceito. ─ não consigo olhar em seus olhos.
─ O quê?! ─ ele me olha ansioso. Ficamos frente a frente sentindo a nossa respiração.
─ Ficar com você. ─ digo com dificuldades.
─ Sério?! ─ ele se mostra surpreso.
─ Sim. Percebi que ainda gosto de você. ─ murmuro triste.
─ Ah, Cléo.─ me dá um beijo suave na boca.
Assim que ele retira seus lábios dos meus, dá um meio sorriso.
Estou me roendo por dentro. Nunca voltaria com Edu. Não sinto um pingo de emoção quando estou ao seu lado. Não fico arrepiada e muito menos me sinto conectada a ele. Meu coração não bate no ritmo de uma escola de samba e nós nem temos coisas em comum. Meses atrás desejei que isso acontecesse para dar o troco, como toda mulher magoada gostaria de dar e agora cá estou aqui sem conseguir nem reagir ao que falo e faço. Nem meu lado negativo entra em ação planejando algo, porque sei que não será possível com minha prima me ameaçando. Antes que Edu me beije novamente, tomo uma atitude.
─ Eu vou ao banheiro, é rápido! ─ me desvio dele e Soraya franze a testa.
Ando pelo parque procurando mamãe. Passo por várias crianças correndo, garotos de skate e patins. Mas nada. Será que eles já foram? Caminho para área de brinquedos, onde há gangorra, escorrego e balanços de madeira. Sento em um e fico observando a alegria das crianças estampadas em seus rostos, se divertindo, como se não houvesse amanhã. Quem dera ter a idade delas!
─ Cléo! ─ espanto meus pensamentos e levanto o rosto, me deparando com aquela menininha angelical.
─ Emily? ─ a garotinha me abraça feliz.
─ O que está fazendo aqui? ─ ela olha incrédula para mim e para o balanço que estou sentada. Não deixo de sorrir, ao ver a expressão confusa da garota ao ver um adulto sentado ali.
─ Pensando na vida. ─ ela me observa cautelosa.
─ Não pensa muito, não! Minha vó diz que estoura os miolos. ─ sorrio.
─ Sua vó é sábia. ─ ela senta-se próximo a mim.
─ Posso ser uma boa ouvinte. ─ insiste.
─ Ah, Emily. Você não sabe como é bom ser criança, não ter problemas, não sofrer, se estressar, ser responsável. ─ ela faz uma expressão confusa, provavelmente não entendendo nada. Seu pai chega logo em seguida.
─ Onde você estava? Eu… ─ não termina a frase. Continuo no balanço.
─ Pode brincar com suas amiguinhas, filha. Preciso falar com a Cléo. ─ arregalo os olhos.
─ Comigo?! ─ falo surpresa.
─ Sim. ─ ele faz um meneio com a cabeça.
─ Papai! Papai! Não faça nada de mal a ela. Cléo é minha amiga! ─ ela cruza os bracinhos e olha com uma expressão emburrada, chego até a sorrir.
─ Fique despreocupada, meu amor. Não farei mal algum à Cléo.
Brinque com suas amigas, ali. Está bem? ─ aponta para uns brinquedos e uns adultos. ─ Suas tias ficam de olho em você. ─ a menininha assente e sai.
─ Cléo, queria me desculpar. Ando sendo muito injusto com você. ─ diz envergonhado, talvez por sua atitude de horas atrás.
─ As pessoas adoram fazer isso comigo; a vida também. ─ continuo balançando. Para minha surpresa ele senta-se ao lado.
─ Quanta amargura nesta frase! ─ me fita, como se quisesse decifrar minha expressão.
─ Sabe quando tudo dá errado quando deveria dar certo? ─ o encaro.
─ Sei bem como é. ─ ele fita o gramado verde do parque por uns instantes.
─ Estou apaixonada por um homem que não conheço e antes mesmo de começarmos algo, acabou. ─ desabafo.
─ Não se menospreze tanto. Não sei o que houve, mas o tempo cura muitas coisas, Cléo. Aprendi com a vida que quando a gente menos espera, ela nos surpreende. ─ olho para meu vizinho por um momento pensando em suas palavras. Tenho a impressão que já ouvi em algum lugar aquela sonoridade da sua voz, porém não sei onde.
─ Cléo… ─ ele me encara de forma carinhosa. ─ Eu preciso muito te contar uma coisa. Eu …
─ CLÉO! ─ antes que meu vizinho complete sua frase, Soraya aparece bem na nossa frente com cara de poucos amigos.
─ Por que está aí, sua idiota? Volta lá, senão… ─ balança o celular.
─ Eu vou indo. ─ ele levanta-se e faz uma careta. Provavelmente não quer se meter no assunto. ─ Espero que fique bem, Cléo.─ olha para Soraya e depois para mim. ─ E conte comigo para o que precisar. Qualquer coisa. Eu te devo uma! ─ pisca o olho.
─ Tudo bem. ─ dou um meio sorriso e ele parte.
─ Que é isso? Namorico agora? O Eduardo está lá no banco da praça te esperando feito trouxa e você aqui flertando com outro?
─ Problema é dele. Problema é seu. Estou cansada de tudo isso! ─ tenho tanta raiva que puxo de sua mão o celular e o quebro jogando no chão.
─ Eu tenho cópias, sua vaca! ─ mostra vários CDS na bolsa com o título:
“Plano para fazer a Cléo sofrer”
─ Vem cá, e o que você ganha com tudo isso?
─ Ganho seu sofrimento!