Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 27
Resgatando a Mari
─ Bitch! Me tira daqui! Já levei três socos de umas detentas que reconheceram que peguei o marido delas. Mesmo dizendo que não sabia, elas me bateram mesmo assim. ─ choraminga atrás das grades, mostra uma bela marca roxa no olho direito e suas duas companheiras de cela, que são fortes o suficiente para transformar a Mari em dois ossinhos de galinha daqui para manhã.
Soraya encontrou minha amiga bisbilhotando a casa. Não sei quem permitiu que a altamente perturbada entrasse lá. Mas enfim, descobrirei. A ridícula da minha prima a denunciou por tentativa de roubo. Desde então, a Mari foi presa como se fosse um grande perigo à sociedade.
─ Aguarde um momento, Senhor… ─ olho em sua mesa e está escrito em uma plaquinha Delegado Jeferson. Ele é um homem barbudo, aparentando ter uns cinquenta anos, careca e usa seu distintivo pendurado em um cordão, como se fosse um colar; talvez por orgulho de mandar no pedaço. ─ Jeferson. Vou à minha casa pegar o dinheiro da fiança.
─ Senhorita Cleonice, creio que não lhe disse quanto era a fiança. ─ ele pronuncia de forma debochada; estampado um sorriso de canto.
─ Quanto?
─ Cinco mil reais. ─ estala a língua satisfeito do valor não ser acessível.
─ Quê? Isso é um absurdo! ─ bufo indignada.
─ Absurdo é sua amiga invadir a casa do deputado Sílvio.
Volto para casa sem esperanças. Minha cabeça dói só de pensar que a Mari está naquele lugar minúsculo, com presas loucas para matá-la. Raciocino; pego o envelope do pagamento da Soraya. São três mil reais. Só preciso de mais dois. Tento falar com todas as pessoas da minha lista de amigos, mas elas ou não têm ou não atendem o telefone. Ligo até para mamãe e chega a dar na caixa postal.
Ando de um lado para o outro, pensativa. O que faço? O quê?! Meu cérebro não raciocina e tão pouco me dá respostas. Fico deitada no sofá com a barriga para cima e pensando nas possibilidades de salvar a Mari:
1. Será que terei que vender chicletes no sinal de trânsito?
2. Rodar a bolsinha na praia de Boa Viagem? 3. Cometer um delito?
Mi chega de mansinho e olha para cima, para meu teto. Fito também para tentar entender o que ela está enxergando que a faz latir tanto. Miúcha rosna mais alto e pula feito um canguru olhando para cima. Aos poucos entendo o que ela quer dizer. O vizinho de cima! O Marcos!
─ Você é um gênio, Mi! ─ aliso sua barriga peluda; ela late como se estivesse dizendo um obrigado na linguagem canina.
***
Bato na porta várias vezes. Minhas mãos suam diante de tanto nervosismo. Talvez esteja sendo um pouco precipitada em pedir algo assim ao Marcos, mas… não minto que desde que lhe contei tudo sobre a minha desastrosa vida íntima, andamos um pouco mais ligados. E pelo pouco que vi na sua casa noite passada, acho que dinheiro não seja problema para ele.
Depois de tanto aguardar, Emily aparece de camisola e muito sonolenta abrindo a porta.
─ Emily! Oh! Desculpe lhe acordar.
─ Estava em um sonho tão bom, Cléo.─ cutuca seus olhinhos cansados.
─ Desculpe pequena, seu pai está? ─ abaixo e fico na sua altura.
─ Não. Papai saiu para casa da Jéssica. ─ engulo seco.
─ Sabe onde fica? É um assunto urgente.
─ Sei sim. ─ balança a cabeça confirmando. Ela volta para o apartamento e segundos depois, retorna com um bilhete em mãos, anotado o endereço.
─ Escuta, você está aí sozinha? ─ fico um pouco preocupada.
─ Não. Papai sempre me deixa com minha tia, quando ele sai. ─ me mostra a mesma mulher da noite passada, roncando no sofá.
─ Está bem. Vá dormir lindinha; e não abra a porta para ninguém, ouviu? ─ dou um beijo em sua testa. Tenho um carinho enorme pela pequena.
Desço as escadas apressadamente. Pego o primeiro táxi que aparece. Questão de vida ou morte. Talvez ele posso me ajudar. Afinal, é mais fácil conseguir dois mil, do que cinco. Assim que o táxi chega perto do local, me sinto muito estranha. O lugar tem um gramado na frente com lindas árvores e a casa é bem grande. Há uma imensa janela de vidro, em que o Marcos sorri para uma garota loira, de estatura mediana. Os dois parecem apreciar a companhia um do outro. Olhares envolventes e um beijo no rosto.
─ Ih, moça, vai sair ou não? ─ o taxista está impaciente.
Respiro fundo.
─ Dê o retorno. ─ ele revira os olhos.
Não quero estragar a noite de alguém.
***
São nove da manhã quando a procuro. A mansão do deputado Sílvio é enorme, com direito a um portão na entrada banhado a ouro com as iniciais SS. Sílvio e Soraya.
A moradia assemelha-se de algum governador e lembra muito com a casa branca, dos Estados Unidos. Pelo menos na frente. Tem quatro pilares enormes sustentando a base da entrada e uma extensão bem vasta, inúmeras janelas que, com certeza, são uma imensidão de cômodos lá dentro. No meio do local tem um enorme chafariz de anjo espirrando água. Olho para imagem e não combina nada com Soraya e suas perversidades.
Assim que toco a campainha, ainda do lado de fora do enorme portão de ferro, o mordomo da casa me atende, já explicando o ocorrido do dia anterior.
─ Sinto muito pelo acontecido. Ela apareceu de repente, tentei avisar a senhorita Mariane, mas ela não escutou, até a enrolei por um tempo, mas aquela peste! ─ fala um pouco mais baixo ─ Parece ter adivinhando.
─ Tudo bem, Amadeus. Eu entendo. A culpa não foi sua. ─ caminho em direção à casa.
─ Espero que dê tudo certo. ─ abro a porta e ele espera que eu me acomode e retira-se.
Fico na sala admirando o local espaçoso que é aquele lar. São quatro apartamentos meus, só naquele lugar. Ouro para todos os lados. Nos jarros, objetos, estantes. Uma escada branca de espiral fica próximo à sala, a mesma onde a altamente perturbada desce agora. Ela está com um roupão de seda, cor de pele. E uma camisola de renda branca. Tenho a impressão que ela acordou a pouco tempo, pois sua cara está de quem comeu e não gostou.
─ Se arrependeu do que mandou fazer?
─ Tire ela da cadeia. Essa história está indo longe demais!
─ Hum … ─ faz biquinho e uma cara desdém ─ Não. ─ finaliza com uma gargalhada digna da bruxa má da Branca de neve.
─ Soraya, não existe mais acordo, Eduardo não quer saber de mim. Desista dessa palhaçada.
─ Sei bem. Um dos meus informantes deixou bem claro que ele se mudou. Mas não se esqueça que eu disse que você sairia com seus ex-namorados. Ainda temos outro. ─ me olha maquiavélica.
─ Pela Mari, faço qualquer coisa.
─ Ótimo! Você é uma garota esperta! Me aguarde uns minutos. ─ sobe a escada e retorna quarenta minutos depois.
***
─ BITCH! ─ Mari grita, assim que me vê. Está toda descabelada e vários hematomas em diversas partes do seu corpo.
Após várias papeladas e assinaturas, Soraya retira a queixa. E minha amiga é liberada. Depois de risos e abraços, Mari manca e parece sair de um filme apocalítico.
─ Como você já imagina priminha, a bola da vez é o senhor Bernardo. ─ me olha com ar diabólico de sempre.
─ Ele é gay. O que quer que eu faça? Ele nunca sairia comigo. O cara gosta da mesma fruta que eu.
─ Então faça ele provar do seu sabor, queridinha. ─ chega próxima a mim e sai soltando beijinhos sarcásticos.
Quando penso que as coisas não podem ficar pior. Elas pioram em um nível catastrófico.