Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 30
Uma arma contra Soraya
O lugar é claro. Minha cabeça gira e não sinto meu corpo. Um bonitão de túnica branca se aproxima de mim. Meu. Deus. Do. Céu. Estou no paraíso! Devo ter morrido de traumatismo craniano, devido à tamancada que recebi na cabeça.
O cara lindo desaparece e me dá um sorriso e um beijo na testa. Fala alguma coisa que não entendo, acho que é:
“Resolva-se com ele”
Um senhor parecendo um monge fica próximo a mim. Sua túnica é marrom. Calvo, com poucos cabelos fazendo um círculo em sua cabeça.
Um tapa no meu rosto é disparado.
─ Ai, isso dói! ─ reclamo.
─ Dói? ─ coloca um das suas mãos na cintura, indignado. ─ Sabe o que machuca? Você me deixar afogando naquela vasilha de água há um século. Eu respiro água, como água e ainda sobra espaço para vomitar água também.
O reconheço de imediato:
Santo Antônio.
─ Ah, é? E cadê o namorado que lhe pedi? Não tiro mesmo o senhor de lá! ─ digo resistente.
─ Está vendo só minha situação? ─ ele cospe água em minha direção. E solta um soluço.
─ Que absurdo! Achei que os santos eram mais educados. ─ me limpo.
─ E achei que as donzelas apaixonadas eram menos perturbadas que você. ─ levanta a sobrancelha esquerda.
─ E eu pensei que os santos eram mais fáceis que o senhor. Eu te peço um amor das antigas e você me traz o Eduardo? ─ o encaro por uns instantes. Ele me olha desdém. ─ Pelo senhor fiz uma bendita simpatia da água na fogueira há alguns anos. Coloquei a água na boca e fiquei lá rodeando a fogueira feito saci-pererê e qual foi o primeiro nome que eu ouvi? Juquinha. Um menino de um ano de idade. Só quando estiver uma múmia descascada eu terei alguém, é? ─ outra tosse, mais água no chão e um sorriso enorme de satisfação depois. ─ Que coisa feia Santo Antônio! O senhor devia fazer seu serviço certo!
─ Não tenho culpa se você não tem paciência de esperar. ─ sorri debochado.
─ Quer saber? Eu colocarei mais água naquele copo. ─ ameaço.
─ Não. ─ tosse. ─ Te imploro! Não aguento mais.
─ Trato é trato. ─ bato as pernas.
─ Está bem. Faço o que você quer.
─ Está falando sério?
─ Sim. ─ mais tosse.
─ Ah! Trate de arranjar um emprego para minha também. ─ cruzo os braços.
─ Mas isso é com São José do operário! Ninguém me paga para fazer a função dos outros. ─ reclama.
─ Acho que vou jogá-lo na piscina. ─ retomo a ameaça.
─ Se foi o tempo das donzelas em perigo que só queriam casamento.
─ Santo Antônio, não estamos mais no século XVIII! Hoje em dia as mulheres querem se dar bem profissionalmente e serem felizes cada uma de seu jeito. ─ olho para ele como se estivesse vencendo a disputa.
─ Está bem. Desta vez dará tudo certo. Eu prometo!
***
Abro meus olhos devagar.
─ Bitch! Graça a Deus! ─ Mari me abraça desesperada. ─ olho ao redor e analiso o lugar e entendo aos poucos.
Uma parede branca.
Uma cama da mesma cor.
Toco na minha testa, há um esparadrapo. Tento levantar da cama, mas não consigo, estou em um hospital.
─ Mari, o que houve? ─ não entendo como paro naquele lugar.
─ Bitch! A mulher louca quase te matou. Você levou uma surra daquelas! ─ ela está vestida de calça branca e a blusa da mesma cor.
─ Ah, Mari, estou no seu trabalho. ─ não quero ser um incômodo para ela.
─ Eles ligaram para ambulância daqui. ─ minha amiga me explica, como se adivinhasse meus pensamentos sobre como vim parar justamente ali.
Um médico de bata branca e aparência madura, entra no quarto com uma pasta e uma caneta. Verifica o soro e faz algumas perguntas a mim e anota. Afere minha pressão e solicita à Mari para inserir um medicamento no soro para alívio das dores e retira-se.
Minha amiga sai e retorna em poucos minutos com uma seringa e injeta o conteúdo no soro.
─ Ficará tudo bem. Você sentirá um incômodo quando ele entrar na sua veia. ─ realmente, faço uma careta.
─ Cleozita, direi à sua mãe e o restante do povo que passou a noite aqui que você já pode receber visita. ─ me dá um beijo suave na testa e sai.
Fico pensando: quantas pessoas estão me esperando? Pelo jeito que a Mari fala, parece bastante. Fico um pouco aflita. Não quero dar trabalho a ninguém e agora todos ficaram preocupados comigo. Me ajeito como posso na cama e logo em seguida, mamãe entra no quarto desesperada.
─ Ah, minha filha linda! Quem pode fazer umas coisas dessas com você? ─ se aproxima da minha cama com as mãos trêmulas de nervosismo.
─ Ah, mãe. Resumindo: a culpa é da Soraya.
─ Temos que dar um fim nessa criatura! Ela não pode fazer essas coisas com você. ─ toca meu rosto machucado. Meu padrasto entra em cena.
─ Enteadinha. ─ remexe nos meus cabelos. Odeio quando ele faz isso, como se eu fosse mais nova que ele e sempre que me encontra parece adivinhar que não gosto desta atitude.
Ele está com uma calça jeans, larga, que fica caindo o tempo todo. Para meu desgosto vejo a cueca dele de Piu Piu e Frajola. Eca! Um gorro de lã vermelho na cabeça, escondendo a sua franja à la Biber. E um uniforme da escola, onde ele provavelmente nunca sairá.
Me desvio dos seus grudes.
─ Mas vamos falar de coisas boa. Tire uma carta. ─ mamãe retira de sua bolsa um baralho cigano.
─ Mãe, aqui não é hora. ─ resmungo.
─ Escolha uma carta. ─ insiste. Pego qualquer uma, sem ao menos olhar. Tiro a carta, entregando à dona Drica; que assim que vê do que se trata, fica animada.
─ Filhota! Eu sabia! ─ ela me mostra a carta de um menino nu dormindo nas nuvens. ─ Criança significa felicidade! E muita! Está vendo só, minha menina! Depois da tempestade sempre vem a abundância. ─ me anima. Faço uma careta. Sei que mamãe fala essas coisas para me deixar alegre. A maioria dessas cartomantes dizem as mesmas coisas que ela. Concordo para agradá-la e Dona Drica sai de lá toda contente.
Em seguida, entram minhas tias. Ficam mais reclamando do que dando incentivos de melhoras. O tempo todo falam que minhas excelentíssimas primas nunca se envolvem com brigas, pois estão muito preocupadas em fazer pós-graduação na Europa e desfilando com seus iates recém-comprados.
Argh!
Depois meus tios chegam. Me perguntam o nome da meliante que fez isso, pois ele conhecem um matador de aluguel.
Por último, chega alguém que não espero.
─ Mona! Por que tu fizeste aquilo? Pelo amoooor. Amapô! Enlouquecesse! Quer matar a bicha do coração? ─ chega Bernardo com sua dramatização e falando mais que o Louro José. ─ Sinto muito se a Stephanie fez isso contigo. Olha meu pedido de desculpas. ─ me entrega um embrulho. Levanto devagar com dores na coluna, mas consigo desembrulhar e vejo um lindo exemplar rosa, com desenhos de pílulas espalhadas, caixas de remédio e um alto-falante por perto.
“Chá de sumiço” ─ o título do livro.
─ Magnífico! ─ fico muito empolgada e esqueço que sua companheira me fez ficar assim.
Isso é uma das coisas boas de se ter Bernardo de volta. Ele conhece meus gostos literários como ninguém. Mesmo com o passar dos anos, ele ainda consegue acertar nas minhas preferências. Cara! Nem acredito que estou com esse exemplar nas minhas mãos! Da Marian Keyes!!!!!!!!!!
─ Comprei no lançamento. A Mari me disse que você tem uma nova autora preferida. ─ pisca os olhos e depois continua. ─ Desculpas aceitas, Mona? ─ balança as mãos, agoniado.
─ Tem como ficar com raiva de você, Bernardo? ─ dou um meio sorriso e ele me abraça, aliviado.
─ Mas por que tu fizeste aquilo, hein? ─ rói as unhas, nervoso.
─ Porque eu venho sendo ameaçada pela minha prima, Soraya. ─ vou direto ao assunto, com o Bernardo não consigo mentir.
─ Ih, por quê, hein?
─ Ela tem um vídeo meu pelada. E ameaça jogar na internet, se ela fizer isso, nunca mais minha vida será a mesma.
─ É mesmo. Vi muitas meninas se suicidarem depois disso! ─ diz pensativo.
─ Poxa! Que notícia reconfortante. Muito obrigada. ─ falo de forma cínica.
─ Mas é sério. Às vezes eu detesto a internet. Ela veio para ajudar, mas atrapalha que é uma beleza!
─ Já tentei de tudo. Mari, coitada, tentou recuperar o vídeo e acabou presa. Mas se tivesse alguma coisa contra ela, se soubesse de algum segredo…
─ Vem cá! ─ Bernardo se aproxima da minha cama, franzindo a testa. ─ Essa tal de Soraya é aquela garota de cabelo comprido e franja que estava na boate da noite passada falando com você?
─ Essa mesma! ─ estreito os olhos. Não estou entendendo aonde Bernardo quer chegar.
─ Ih, Mona! ─ bate na testa. ─ Eu sei de um segredo cabeludo dessa garota que descobri ontem à noite! Nós vamos acabar com ela.