Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 35
Sequestrada
Abro os olhos devagar. Consigo enxergar imagens distorcidas, que aos poucos se distingue. Estou em uma cama deitada. Em um local escuro, sem janelas, parece um galpão velho. Com uma cômoda e uma mesinha de centro. Levanto ainda fraca. Uma dor latejante vem da minha cabeça. Vejo minha prima na minha frente com um robe na cor vinho. Parada e me observando.
─ Soraya?! O que aconteceu? ─ digo, desnorteada.
─ Por favor, sente-se! ─ diz tranquila. Nem parecendo a mulher descontrolada que conheço.
─ O que você quer? Que lugar é este? ─ olho para os lados apavorada.
─ Sabe prima, eu tinha um motivo para fazer todas essas maldades com você. Um “bom” motivo! ─ vai à mesinha daquele local e pega uma garrafa de uísque e um copo, que há ali. Despeja o líquido no recipiente e degusta devagar a bebida, enquanto fala.
─ Eu queria que você se decepcionasse. Que odiasse os homens! Que quisesse matá-los. ─ posso perceber uma espuma branca sair de sua boca.
Alguém chama a carrocinha!
─ Eu queria que você gostasse de MIM! ─ se aproxima com os olhos esbugalhados e ainda mais perturbada que antes. Permaneço sentada na cama, sem saber o que fazer. Ela fala que quer que eu goste dela? Ouvi bem? Como assim? O que está acontecendo? Só pode ser um pesadelo, dos ruins.
Para minha surpresa, a maluca liga o som que está em uma cômoda daquele quarto escuro. Olho para os lados para me certificar que isso não é uma daquelas pegadinhas do Faustão.
Aos poucos entendo o que é aquilo, ao ouvir:
“Conga, la conga, conga, conga,conga”
Soraya se vira e aos poucos se aproxima de mim, tirando seu robe, mostrando uma lingerie ousada, de renda, na cor vermelha e fazendo caras e bocas.
Minha prima.
Está.
Fazendo.
Um.
Strip-tease.
Para mim.
“Conga la conga, conga, conga, conga”
Escuto e vejo tudo aterrorizada. Gretchen continua a cantar a melodia, enquanto minha prima rebola, joga os cabelos. Se aproxima de mim insinuante. E eu continuo impassível sentada. O que ela está pensando? Que eu me apaixono depois dessa sedução e imitação barata da rainha do bumbum?
Mais uma jogada de cabelos de um lá para o outro, parece um espanador os seus movimentos capilares. Tenta fazer poli dance com um pobre abajur, mas é impedida, ao cair no chão, com uma lâmpada que quebra em sua cabeça.
─ Você está bem? ─ levanto e me aproximo devagar. Com medo do que essa mulher possa fazer próxima a mim.
─ Diga que você me ama. ─ segura na minha camisa desesperada, nem se importando com o ferimento que agora está na sua cabeça. ─ DIGA CLÉO! ─ os olhos voltam a uma cor que desconheço, minha prima parece uma mistura de Samara do O chamado com a menina do Exorcista. ─ Você me amará! Ah, se vai! ─ dá um sorriso diabólico digno de filme de terror. Levanta-se e fecha a porta, trancando-a.
Eu realmente não estou em uma pegadinha do Faustão, como diz a Mari:
“Bitch, Please!”
Isso não pode está acontecendo. Também não estou em uma daquelas pegadinhas do Sílvio Santos? Meu inconsciente mentalmente fala comigo:
“Não, sua burra! Isso aqui é a vida real. Você foi sequestrada pela sua prima altamente psicopata! Morrerá terrivelmente com um daqueles seus livros de romance policial” Ha. ha.. .ha .ha.
O que Soraya fará? Me manter ali para sempre? Me obrigar a cheirar suas calcinhas?
Eu estou perdida!
***
─ Como está a comida, amor? Boa? Fiz para você! ─ faço uma careta. Os cabelos dela estão desgrenhados e Soraya compete com um zumbi, no quesito figurino.
─ Ah… ótima. ─ respondo meio a contragosto e ela sorri me olhando de um jeito muito esquisito.
Há uma mesa de jantar com cadeiras em uma parte que antes de chegar ali, era vazia. Próximo, tem um fogão com algumas panelas em cima. Os capangas nos observam; sinto um desconforto diante daquela situação.
─ Eu te amo, você me ama? ─ se aproxima da cadeira onde estou sentada.
─ Soraya, você me desculpe, não tenho nada contra sua opção sexual, têm muitas garotas disponíveis por aí, mas comigo não rola.
─ É por conta daquele barrigudo, não é? ─ meus olhos arregalam e me lembro do Marcos. O que será que tinha acontecido com ele? Se Soraya tocou em um fio de cabelo sequer dele ou de alguém que amo, eu a mato!
─ Darei um jeito nele. Assim como fiz com meu marido. ─ meu coração acelera. Ela matou o esposo dela? Ouço bem?
─ O. Que. Você. Fez? ─ pergunto atordoada, levantando-me da cadeira.
─ Amorzinho, não pode existir obstáculos entre nós. Por isso tive que dar um jeito no Sílvio. Matei-o envenenado com vodca. ─ recordo da comida que acabei de degustar e começo a tossir desesperada, imaginando que ela poderia fazer isso comigo também.
─ Não se preocupe, não lhe farei nenhum mal. ─ me dá um beijo na testa.
Coloco as mãos na boca, incrédula como todas essas revelações. Realmente eu estou diante de uma pessoa doente e criminosa.
─ Soraya, não faça nada ao Marcos. Você prometeu, lembra? Nem ele nem ninguém que amo. ─ ela me encara. Depois responde:
─ Se é de sua vontade, mas com eles vivos não podemos ser felizes. ─ respiro fundo e tento entrar no jogo dela. Se aquela psicopata acha que ficaremos juntas, talvez possa pelo menos fazê-la acreditar nisso, para deixar as pessoas que eu amo em paz.
─ Não há nenhum deles aqui. Não precisa fazer nada. Porque só estamos eu e você. ─ toco no seu braço, olhando bem para seus olhos, suplicante.
─ Tudo bem. Tudo para você, meu amor. Por você faço qualquer coisa. ─ dá um beijo na minha bochecha. Levando-me para o quarto e me trancando.
Ficando sozinha, choro muito. Lembro do meu trabalho, meus amigos, minha família, o Marcos… Será que eles sabem que fui sequestrada? Estão me procurando? Será que nunca tenho meu final feliz? Depois de tantas perguntas sem respostas. Adormeço.