Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 2 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 2

Sou dedo ruim para homem

Meu nome é Cleonice Fernandes. Mas, por favor, me chame de Cléo. Possuo uma pele alva, bochechas rosadas e olhos azuis de um oceano infinito. Tenho cabelos na tonalidade de um ruivo abafado, puxei à minha vó Divina. Quando nasci, meus pais se separaram pelas fofocas da vizinhança que achava que eu era “a filha do urso”. Mesmo anos depois sendo constatado por DNA (que foi feito pelo programa do Ratinho. Não entrarei em detalhes no tamanho da baixaria que foi) que tudo passava de uma balela; eles nunca mais se reconciliaram e não tocaram uma palavra sequer um com o outro. Mamãe por ter tido seu orgulho ferido. Papai por vergonha. Hoje ele vive no México com minha madrasta gritando pelos cantos: arriba muchacho!

Sou aquela garota que sonha com o cara certo. Não príncipes encantados; por favor, deixe isso para as princesas de contos de fadas. Mas um cara bacana, que curta “Legião urbana” e “Leandro e Leonardo”. Um homem que goste de ler, um rapaz que diga palavras gentis, eu sei, eu sei, eles estão em extinção, mas não custa sonhar, né?

Amo vestidos florais e curtos. Tenho uma estatura de 1,65. Adoro romances e chick-lits; possuo uma grande admiração pela escritora irlandesa Marian Keyes. Carrego na minha bolsa sempre um novo romance dela. Também gosto de livros de suspense; apesar de quase sempre não acertar o assassino. Aprecio livros de terror, mas quando fico com medo coloco o bichinho lá na geladeira como Joey, o personagem do seriado Friends, fez com “O iluminado” de “Stephen King”.

Outra coisa que não posso esquecer, é como eu sou a pessoa mais azarada do mundo! Do tipo de carregar consigo tudo de mais vergonhoso e desastroso. Exemplos:

1. Sabe aquela garota que ficou a primeira vez menstruada e estava de calça branca e os pirralhos do ginásio saíram gritando:

─ Ei! Acho que você levou um tiro no bumbum!

EU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

2. Sabe aquela garota que viu um cara gato lhe dar mole no meu da rua e tentou dar uma rebolada fenomenal e caiu no chão?

EU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

3. E aquela garota que achou que o gatinho da quinta série estava dando mole e foi sorrir, porém só mais tarde percebeu tinha casquinha de feijão-preto no dente?

EU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Cléo azarada, muito prazer.

Mas vamos lá, tenho um histórico tenebroso de homens com que tentei me relacionar. Os ficantes só duravam duas semanas no máximo, para em seguida descobrir que ou eram casados ou uns tremendos galinhas. Por isso só entrarei em detalhes em dois, que considero relacionamentos sérios.

Primeiro namorado:

Bernardo de Almeida.

Como tudo começou?

Era ensino médio, tinha quinze anos. Minhas amigas já desfilavam com namorados. E, eu? Nada. Os garotos que se interessavam por mim eram tão estranhos. Uma vez, Thiago Mafaiote queria ter um relacionamento comigo e a “cachorra” dele. Uma coisa bem esquisita por sinal.

Mari vivia atacando todos professores gatos e novatos da escola. Minha amiga foi sempre inconsequente e por mais que hoje, com 22 anos, ela não mudou nada.

Estava na fila do almoço alheia a preocupações, quando um garoto derrubou suco no meu uniforme da escola.

─ Ei, tá cego? ─ gritei irritada. ─ E agora o que farei? ─ percebi que a tentativa dele de me limpar, piorou mais ainda a situação.

─ Olha, tenho outra camisa da escola na minha bolsa. Vem comigo? ─ me puxou para sua sala, tirando de sua mochila, o uniforme.

Dentro da sua bolsa, observei uma coisa incomum para um garoto. Ele tinha dois exemplares de Harry Potter perdidos com os outros livros da escola. Li em uma pesquisa na internet que meninos dificilmente leem livros. De acordo com o estudo, entre os dois gêneros, quem mais lê são as mulheres.

─ Ei! Você gosta de ler? ─ meus olhos estavam brilhando.

─ Se eu gosto de ler? Cara, eu adoro. E, Harry Potter? É o melhor livro do mundo!

Minha alma gêmea.

Era a primeira vez que tinha encontrado um menino com o mesmo hobby que eu. Fiquei admirada. Toda a minha raiva havia sumido. Olhei para os seus olhos castanhos, seu topete preto discreto, um queixo fino, bíceps bem avantajados e passei a enxergá-lo com outros olhos.

─ Olha ─ pegou meu braço carinhoso. ─ o novo filme está no cinema, você gostaria de ir comigo? ─ sorri e balancei a cabeça confirmando.

Depois disso, ficamos inseparáveis, dividindo nossas leituras prediletas. Na época J.K. Rowling era nossa referência. Nosso namoro começou tímido, quase como uma amizade. Até um dia irmos assistir Harry Potter e o Prisioneiro de Azskaban. Papo vai, papo vem, no escurinho do cinema acabamos nos beijando. Na saída do local, ficamos nos fitando, como dois bobos, com olhares intensos e falando coisas sem sentido quando se estar perto de alguém que se ama. Meus olhos faiscavam. Cheguei até a bater com a cabeça no poste, por conta da minha distração.

Ele ficou perguntando o tempo todo se eu estava bem. Disse que quando chegasse na minha casa colocaria gelo na minha testa. Quando retornei, tomei o máximo de cuidado para não acordar a mamãe. Fui direto para cozinha. Peguei um saco de gelo e Bernardo tomou-o da minha mão. Para que ele colocasse na minha testa. Começamos a sorrir ao relembrar a cena.

Garotas de quinze anos dificilmente têm senso de direção.

Quando menos esperávamos, mamãe apareceu de camisola, bobes e olhando no relógio da cozinha.

─ Você sabe que horas são, SEU BERNARDO? ─ Dona Drica já o conhecia. Das inúmeras conversas pelo telefone e por algumas vezes eu e Bernardo inventarmos a desculpa de que tínhamos de fazer algum “trabalho” da escola lá em casa.

─ Perdoe. Estou sendo meio abusado. ─ colocou as mãos no bolso de sua calça, constrangido.

─ ESTÁ MESMO! ─ ela tinha um péssimo humor quando era acordada antes da hora.

─ Tá bom ─ murmurou sorrindo. ─ É melhor eu ir mesmo, a senhora com esses bobes estão pior que Voldemort! ─ fez gracinha.

─ ORA… SEU!

Sorrimos.

Desse dia em diante, vi que o que sentíamos era especial, mesmo minha família sendo um bando de loucos, Bernardo continuava achando graça em tudo. Não se importava com o fato da minha mãe ter zilhões de plantas da selva amazônica dentro de casa. O que causava muitos mosquitos e uma possível doença da dengue. Ou como meus tios viviam uma vida para lá de suspeita se metendo com agiotas. Muito menos com o fato de minhas primas sempre se acharem as rainhas da cocada preta.

Supôs que isso era realmente amor.

No dia da nossa formatura, Bernardo ficou um pouco distante. Meio sério. Não soltou nenhuma de suas piadas. Parecia incomodado com alguma coisa. Fiquei triste. Até papai veio lá do México e parecia fazer questão de estar comigo e ele não. Mamãe ficou uma fera com a presença do meu genitor e da sua esposa. Entre caretas, ela só faltava matar os dois com a faca da mesa. Porém, para não ficar para baixo, ela chamou um espanhol de uma balada que conheceu, onde apenas disseram “oi” e nada mais.

A cerimônia tinha começado, a diretora da escola nos saudava com lindas mensagens de agradecimentos, pelas excelentes notas no vestibular. Eu tinha passado em Administração. Mari, Enfermagem.

─ Queridos pais e mestres, uma pequena homenagem aos nossos excelentes alunos. ─ parecia muito orgulhosa.

Uma enxurrada de palmas dos convidados.

Fotos nossas no telão apareceram. O antes e depois de muitos discentes. Surgiu uma minha de índia e depois uma adulta. Bernardo estava do outro lado de cabeça baixa. Rebeca, uma garota nojentinha da sala, começou a sorrir, não entendi o porquê. As imagens do meu namorado começaram a serem exibidas, ele criança, vestido de soldado. Achei uma gracinha. Até sorri para ele, que não retribuiu.

Logo em seguida, levei um susto! Fotografias de Bernardo em um banheiro beijando um garoto emergiram no telão. Meu queixo caiu. Olhei incrédula para o meu namorado. E aí, começou uma sucessão trágica: a mãe do Bernardo começou a discutir com a mãe do outro garoto, supostamente amante do Bernardo.

Outras mães começaram a gritar para que tirassem os retratos.

O rapaz do audiovisual apressadamente começou a tirar as imagens.

Enquanto isso, mamãe começou a brigar com minha madrasta.

A mãe do Bernardo saiu puxando a sua orelha.

A diretora tentava acalmar os ânimos, mas acabou levando um tapa.

Os pais começaram a se enfurecer.

Mamãe foi afastada pelo seu companheiro e por papai.

Neste instante de selvageria, ela percebeu que eu continuava paralisada na cadeira.

Saiu correndo em minha direção, quando bateu em um garçom com uma bandeja de bebidas.

Caindo os líquidos das taças nos cabos de energia que gerou um incêndio.

Meu vestido azul, longo, estava queimado. Muitos alunos choravam e vi gente saindo com faíscas de fogo no cabelo.

Os bombeiros chegaram para apagar o fogo, junto com eles, veio uma equipe de reportagem da Rede Globo que começou a filmar o local. E ainda tinha gente que improvisou um cartaz escrito: filma eu!

Comecei a soluçar dentro do carro. Foram anos difíceis, idas e vindas a psicólogos. Ainda tive que aguentar uma comunidade no falecido Orkut:

“Cleonice Fernandes, a gata é tão ruim que perde até para homem. Kkkkk”