Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 27 de 60

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Nocturnos

O Minuête

Gigantes, balouçae o féretro luctuoso!

Vamos! agora, ao mar!

Cova maior existe? Abysmo assim

grandioso

Difficil é de achar.

Sabeis porque eu desejo um féretro assim largo,

De vastas dimensões?

É que enterro, infeliz, o amôr, o fel amargo

Das minhas illusões.

 

O MINUÊTE

 

Ao dr. Thomaz de Carvalho

 

Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;

Admira-se o lavôr do tecto de páu sancto.

Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias:

Um enorme sophá: largas tapeçarias.

O purpureo tapete aos olhos nos revela

Entre as garras de um tigre anciosa uma

gazella.

Retratos em redor: olhemos o primeiro:

No Tóro as mãos de Affonso o armaram

cavalleiro.

Era Arcebispo aquelle: esta foi açafata...

Que frescura sensual nos labios de

escarlata!

Olhos revendo o azul que sobre a Italia assoma:

Em finos caracóes, a loura e ondada côma:

Collo robusto e nú: cabeça triumphante:

Consta que certo rei... passemos adeante!

Este, que vês, morreu num africano areal

Por vingança cruel do aspero Pombal.

D'esse olhar na expressão infinda e inenarravel

Desabrocha uma dôr profunda e

inconsolavel.

Defronte, uma donzella, o rosto meigo e afflicto,

Num extasis adora o pallido proscripto.

O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,

Tam cedo se desfez, ó misera e mesquinha!

No burel escondeste o viço e a formusura,

E desmaiaste, flôr, no chão de uma

clausura!...

Repara nos desdens do fôfo conselheiro, E vi descer do quadro a languida açafata

Que sorridente aspira a flôr de um

jasmineiro!

Em canones doutor: no Paço foi bemquisto:

Orna-lhe o peito a cruz de um habito de

Christo.

Esse outro combatendo ás portas de Bayona,

Como um bravo, alcançou a rútila dragôna.

Vibra flammas do olhar; cabeça erecta e audaz;

Illumina-lhe o rôsto a gloria de um gilvaz.

Assistímos, ao vêl-o, ás pugnas carniceiras,

E ouvimos o clangôr das musicas

guerreiras...

No antiquissimo espelho, á sombra das cortinas,

Reflecte-se o primôr de argenteas

serpentinas.

Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,

Mimo outrora da casa, e prenda de um

noivado.

Ao lado um cofre encerra, em amoravel ninho,

Antiga partitura em velho pergaminho.

Uma noite extendi a musica na estante,

E o cravo suspirou... naquelle mesmo

instante

Da eburnea pallidez doentia do teclado

Manso e manso evolou-se o arôma do

passado.