Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 34 de 60

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Nocturnos

A Ceia de Tiberio

Que me queres, Esphynge? O que procuras? diz-m'o:

 

Se do poeta o segredo intentas penetrar,

Desce dos annos meus ao tenebroso

abysmo,

Verás o Amôr aos Vinte e aos Sessenta o

Pesar.

Sim, Pesar, não de haver lançado aos quatro ventos

Com prodiga loucura o verbo triumphante,

A ambição, o dinheiro, os risos e os

tormentos,

E as auroras de abril que passam num

instante!

Mas Pesar de sentir dentro em meu peito agora,

Como accêso vulcão em gêlos sepultado,

Do juvenil desejo a flamma que devora,

E de não poder mais, amando, ser amado!

 

A CEIA DE TIBERIO

 

Ao dr. J. Frederico Laranjo

Opulento é o festim: em todo o vasto imperio

 

Outro não houve egual. Caprêa a dissoluta,

O retiro de amôr do perfido Tiberio,

Illuminada ri. Ao longe Roma escuta

O confuso rumôr da tenebrosa orgia:

Assim geme, assim ronca o mar em funda

gruta.

Fascina, attrae, seduz, e os olhos extasia

A imperial vivenda: a sala é deslumbrante:

Ouro e gêmmas sem fim confundem-se á

porfia.

Das lampadas rebrilha o lume coruscante;

Nos triclinios esplende a purpura escarlata,

A fina tartaruga e o sandalo odorante.

Aos angulos da sala, em primorosa prata,

Erotico esculptor grupos fundiu lascivos,

Em cujos membros nús Volupia se retrata.

Resaltam da parede os satyros esquivos

Sob o pampano alegre: as nymphas, em

corêas,

Dançam na riba, em flôr, de arroios fugitivos.

Em marmórea piscina enroscam-se as murêas,

Dos patricios de Roma o pabulo dilecto,

Vezes sem conto, escravo, ali rompeste as

veias!

Pendem verdes festões do primoroso tecto, Ora Tiberio ri... Mas subito um gemido

Pyrrheico ali pintára um matagal folhudo,

E um lago crystallino, encantador, discreto.

Diana ao sol enxuga as tranças de veludo,

Acteon espreita ancioso, e, ó rapida alegria!

Aos poucos se transforma em cervo

ramalhudo.

Em Miléto foi tincta a azul tapeçaria,

Que nas mesas se extende e nos mosaicos

dorme;

Dos velarios se escôa o arôma que inebria.

A festa é no pendor: num áureo prato informe

Eis que entra um javali, formosas gaditanas

Dançam em derredor. Ulula a grita enorme.

Jorra o vinho de Kós purpureas espadanas;

Dos convivas na fronte enlaça-se a verbena,

Preludiam no emtanto as frautas sicilianas.

Adoudada suspira uma canção obscena:

Fervem beijos no ar, os seios pulam,

crescem

E desnudam-se á luz, Tiberio assim o

ordena.

As matronas, ao vêr o duro gesto, obedecem,

E lá passam gentis, deslisam mansamente

Dos marmores á flôr; são nuas,

endoudecem!

Um retiario nervudo, e um gladiador valente

Combatem, são leões; o pallido vencido

Mistura o sangue rubro ao vinho

rescendente.