Nocturnos
Estudantina
A Christovam Ayres
Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos côlmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.
A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos humbraes pintados;
Zumbem á porta insectos variegados
Envolvidos do sol na luz tremente.
Fia á soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho,
Sahiu para os cançaços da lavoura.
A nóra lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm semi-nús, inquietos,
No mar ondeante da seára loura.
ESTUDANTINA
Acorda, minha Thereza,
Descerra a janella tua!
Espalha-se a luz da lua
Pela poetica deveza...
Entre os sinceiros da margem
Murmura o claro Mondego,
A noite corre em socêgo...
Acorda, minha Thereza!
Não dorme quem tem amôres,
E o teu postigo é cerrado!
Deixa o leito perfumado,
E o travesseiro de flôres,
Se queres que eu acredite,
Ó minha pallida amiga,
Nas palavras da cantiga:
«Não dorme quem tem amôres!»
Por isso eu vélo cantando,
E esta guitarra suspira,
E o meu coração delira
Mal vem a lua apontando...
É que, á noite, lirio branco,
Os astros guardam segredo
Dos beijos dados a medo...
Por isso eu vélo cantando...
Quero vêr-te, como outrora
Nesse postigo inclinada,
Conversando enamorada
Até ao raiar da aurora...
Um lenço posto no liso
Dos teus hombros jaspeados,
Os cabellos destrançados...
Quero vêr-te como outrora.
Não te assustes, Julieta,