Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 45 de 60

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Nocturnos

Estudantina

A Christovam Ayres

 

Duas horas da tarde. Um sol ardente

Nos côlmos dardejando, e nos eirados.

Sobreleva aos sussurros abafados

O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente

Treme o loureiro nos humbraes pintados;

Zumbem á porta insectos variegados

Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia á soleira uma velhinha: o filho

No céu mal acordou da aurora o brilho,

Sahiu para os cançaços da lavoura.

A nóra lava na ribeira, e os netos

Ao longe correm semi-nús, inquietos,

No mar ondeante da seára loura.

 

ESTUDANTINA

 

Acorda, minha Thereza,

Descerra a janella tua!

Espalha-se a luz da lua

Pela poetica deveza...

Entre os sinceiros da margem

Murmura o claro Mondego,

A noite corre em socêgo...

Acorda, minha Thereza!

Não dorme quem tem amôres,

E o teu postigo é cerrado!

Deixa o leito perfumado,

E o travesseiro de flôres,

Se queres que eu acredite,

Ó minha pallida amiga,

Nas palavras da cantiga:

«Não dorme quem tem amôres!»

Por isso eu vélo cantando,

E esta guitarra suspira,

E o meu coração delira

Mal vem a lua apontando...

É que, á noite, lirio branco,

Os astros guardam segredo

Dos beijos dados a medo...

Por isso eu vélo cantando...

Quero vêr-te, como outrora

Nesse postigo inclinada,

Conversando enamorada

Até ao raiar da aurora...

Um lenço posto no liso

Dos teus hombros jaspeados,

Os cabellos destrançados...

Quero vêr-te como outrora.

Não te assustes, Julieta,