Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 54 de 60

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Nocturnos

Ao Rabequista Eugenio Degremont

Que ascende e toma o rumo

Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.

Como um cetáceo ingente, encarvoado e feio

Um enorme Vapôr

De outros avulta em meio.

Em seu largo convez a marinhagem canta

E na faina febril as ancoras levanta.

Naquella espessa náu, um velho, um lavradôr

Entre a faina do cáes, fita o dolente olhar...

É que ali dentro vão os bois, o seu amôr...

E áquella magoa intensa

E inenarravel dôr

Responde a descuidosa e gelida

indifferença

Dos Homens, e dos Céus, e do profundo

Mar...

 

AO RABEQUISTA

EUGENIO DEGREMONT

 

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1876

no theatro de S. João do Porto Vêde-o! É tão creança! ó mães, olhae-o!

Como é vivo o fulgor e ardente o raio

Que vibra nesse olhar!

Faz gosto vel-o assim tão pequenino

Enlevado nos sons do violino

A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vae sonhando,

Vão-se ante nossos olhos desdobrando

Quadros a mil e mil.

A rabeca suspira? Assim amenas

São na longinqua roça as cantilenas

Das moças do Brazil.

Vibra rispidos sons? E logo ouvimos

Curvar o vento da floresta os cimos

Com ruidoso fragôr...

E uivam pintadas onças e as araras

Roçam, fugindo, as tremulas taquaras,

E crocita o condôr.

Enterrados nas humidas pastagens

Mugem raivosos bufalos selvagens,

E por entre os sarçaes

Pula a panthera; os jacarés astutos

Choram, fingindo lacrymosos lutos

Nos fulvos areaes.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,

São os negros soltando as lastimosas

Canções do seu paiz;

Sem familia, sem patria, sem amôres,

Ninguem mitiga o fel daquellas dôres,

Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anceio,

Sae da rabeca um languido gorgeio