Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 55 de 60

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Nocturnos

As Velhas Negras

Que enleva o coração.

E a saudade repinta-nos ao vivo

Dos sabiás o cantico lascivo

Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,

Com meu olhar de prantos não enxuto,

Ó creança gentil,

Que em vez de perseguir as borboletas

Vens batalhar no meio dos atletas

E honrar o teu Brazil!

Não presumas, porém, prodigio das creanças!

Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;

É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;

A gloria chamarás, ser-te-ha o appello em

vão.

Pois que! tu cuidarás, creança, porventura

Que sem luctar, soffrer, sem horridos

tormentos

O artista poderia erguer aos quatro ventos

A Epopêa, o Drama, a Estatua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois ó meu precoce artista,

Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal!

Para o profundo azul estende a larga vista.

Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!

 

AS VELHAS NEGRAS

A M. me Aline de Gusmão

 

As velhas negras, coitadas,

Ao longe estam assentadas

Do batuque folgasão.

Pulam creoulas faceiras

Em derredor das fogueiras

E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa

Esparge a lua formosa

A clara luz tropical.

Tremeluzem pyrilampos

No verde-escuro dos campos

E nos concavos do val.

Que noite de paz! que noite!

Não se ouve o estalar do açoite,

Nem as pragas do feitor!

E as pobres negras, coitadas,

Pendem as frontes cançadas

Num lethargico torpôr!

E scismam: outrora, e d'antes

Havia tambem descantes,

E o tempo era tam feliz!

Ai! que profunda saudade

Da vida, da mocidade

Nas mattas do seu paiz!

E ante o seu olhar vazio

De esperanças, frio, frio

Como um véu de viuvez,

Resurge e chora o passado

—Pobre ninho abandonado

Que a neve alagou, desfez...—

E pensam nos seus amôres

Ephemeros como as flôres

Que o sol queima no sertão...

Os filhos, quando crescidos,

Foram levados, vendidos,

E ninguem sabe onde estão.

Conheceram muito dono:

Embalaram tanto somno

De tanta sinhá gentil!

Foram mucambas amadas,

E agora inuteis, curvadas,

Numa velhice imbecil!

No emtanto o luar de prata

Envolve a collina e a matta

E os cafesáes em redor!

E os negros, mostrando os dentes,

Saltam lepidos, contentes,

No batuque estrugidor.

No espaçoso e amplo terreiro

A filha do Fazendeiro,

A sinhá sentimental,

Ouve um primo recem-vindo,

Que lhe narra o poema infindo

Das noites de Portugal.

E ella avista, entre sorrisos,

De uns longinquos paraisos

A tentadôra visão...