Nocturnos
As Velhas Negras
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cantico lascivo
Nas sombras do sertão.
Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó creança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brazil!
Não presumas, porém, prodigio das creanças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A gloria chamarás, ser-te-ha o appello em
vão.
Pois que! tu cuidarás, creança, porventura
Que sem luctar, soffrer, sem horridos
tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopêa, o Drama, a Estatua, a Partitura?
Vamos, trabalha pois ó meu precoce artista,
Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!
AS VELHAS NEGRAS
A M. me Aline de Gusmão
As velhas negras, coitadas,
Ao longe estam assentadas
Do batuque folgasão.
Pulam creoulas faceiras
Em derredor das fogueiras
E das pipas de alcatrão.
Na floresta rumorosa
Esparge a lua formosa
A clara luz tropical.
Tremeluzem pyrilampos
No verde-escuro dos campos
E nos concavos do val.
Que noite de paz! que noite!
Não se ouve o estalar do açoite,
Nem as pragas do feitor!
E as pobres negras, coitadas,
Pendem as frontes cançadas
Num lethargico torpôr!
E scismam: outrora, e d'antes
Havia tambem descantes,
E o tempo era tam feliz!
Ai! que profunda saudade
Da vida, da mocidade
Nas mattas do seu paiz!
E ante o seu olhar vazio
De esperanças, frio, frio
Como um véu de viuvez,
Resurge e chora o passado
—Pobre ninho abandonado
Que a neve alagou, desfez...—
E pensam nos seus amôres
Ephemeros como as flôres
Que o sol queima no sertão...
Os filhos, quando crescidos,
Foram levados, vendidos,
E ninguem sabe onde estão.
Conheceram muito dono:
Embalaram tanto somno
De tanta sinhá gentil!
Foram mucambas amadas,
E agora inuteis, curvadas,
Numa velhice imbecil!
No emtanto o luar de prata
Envolve a collina e a matta
E os cafesáes em redor!
E os negros, mostrando os dentes,
Saltam lepidos, contentes,
No batuque estrugidor.
No espaçoso e amplo terreiro
A filha do Fazendeiro,
A sinhá sentimental,
Ouve um primo recem-vindo,
Que lhe narra o poema infindo
Das noites de Portugal.
E ella avista, entre sorrisos,
De uns longinquos paraisos
A tentadôra visão...