Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 51 de 60

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Nocturnos

As Primeiras Lagrimas de El-Rey

A Rangel de Lima

 

Quando se fez ao largo a nave escura

Na praia essa mulher ficou chorando,

No doloroso aspecto figurando

A lacrymosa estatua da amargura.

Dos céus a curva era tranquilla e pura:

Das gementes alcyones o bando

Via-se ao longe, em circulos, voando

Dos mares sobre a cérula planura.

Nas ondas se atufára o sol radioso,

E a lua succedêra, astro mavioso,

De alvôr banhando os alcantis das fragas...

E aquella pobre mãe, não dando conta

Que o sol morrêra, e que o luar desponta,

A vista embebe na amplidão das vagas...

 

AS PRIMEIRAS LAGRIMAS DE EL-REY

A M. Pinheiro Chagas

 

I

 

O principe morrêra, e logo os cortezãos,

Em prantos derredor do mortuario leito,

Erguem a voz em grita aos ceus levando as

mãos.

 

II

 

El-Rey, João segundo, a fronte sobre o peito,

Contempla dos brandões á luz

ensanguentada

O filho, e a dôr lhe avinca o grave e duro

aspeito.

 

III

 

E eis que, a um gesto do rei, a turba consternada

A pouco e pouco sáe, reina o silencio,

apenas

Cortado pelo uivar longinquo da nortada.

 

IV

Sobre o filho curvado, immerso em cruas penas,

Aquelle rei sinistro, energico e tigrino,

Tinha na frouxa voz modulações serenas.

 

V

E o filho inerte e mudo! então num desatino

Deixou-se El-Rey caír, ao acaso, num

escabêllo

E quedou-se a pensar no seu atroz destino.

 

VI

 

Um enorme, um confuso e bronzeo pesadêlo

Caíu-lhe sobre o enfêrmo espirito enluctado,

E o suor inundou-lhe as barbas e o cabello.

 

VII

 

Talvez que o triste visse, em sonho allucinado,

Do duque de Vizeu o espectro vingativo

Apontando-lhe, a rir, o Infante inanimado.

 

VIII

 

E escutasse a feroz imprecação que altivo

No cadafalso, outróra, o duque de Bragança

Ás faces lhe cuspiu com gesto convulsivo.

 

IX

 

Subito ergue-se o rei, e para o leito avança,

E uma lagrima então, embalde reprimida,

Das barbas lhe cahiu no rosto da creança...