Nocturnos
As Primeiras Lagrimas de El-Rey
A Rangel de Lima
Quando se fez ao largo a nave escura
Na praia essa mulher ficou chorando,
No doloroso aspecto figurando
A lacrymosa estatua da amargura.
Dos céus a curva era tranquilla e pura:
Das gementes alcyones o bando
Via-se ao longe, em circulos, voando
Dos mares sobre a cérula planura.
Nas ondas se atufára o sol radioso,
E a lua succedêra, astro mavioso,
De alvôr banhando os alcantis das fragas...
E aquella pobre mãe, não dando conta
Que o sol morrêra, e que o luar desponta,
A vista embebe na amplidão das vagas...
AS PRIMEIRAS LAGRIMAS DE EL-REY
A M. Pinheiro Chagas
I
O principe morrêra, e logo os cortezãos,
Em prantos derredor do mortuario leito,
Erguem a voz em grita aos ceus levando as
mãos.
II
El-Rey, João segundo, a fronte sobre o peito,
Contempla dos brandões á luz
ensanguentada
O filho, e a dôr lhe avinca o grave e duro
aspeito.
III
E eis que, a um gesto do rei, a turba consternada
A pouco e pouco sáe, reina o silencio,
apenas
Cortado pelo uivar longinquo da nortada.
IV
Sobre o filho curvado, immerso em cruas penas,
Aquelle rei sinistro, energico e tigrino,
Tinha na frouxa voz modulações serenas.
V
E o filho inerte e mudo! então num desatino
Deixou-se El-Rey caír, ao acaso, num
escabêllo
E quedou-se a pensar no seu atroz destino.
VI
Um enorme, um confuso e bronzeo pesadêlo
Caíu-lhe sobre o enfêrmo espirito enluctado,
E o suor inundou-lhe as barbas e o cabello.
VII
Talvez que o triste visse, em sonho allucinado,
Do duque de Vizeu o espectro vingativo
Apontando-lhe, a rir, o Infante inanimado.
VIII
E escutasse a feroz imprecação que altivo
No cadafalso, outróra, o duque de Bragança
Ás faces lhe cuspiu com gesto convulsivo.
IX
Subito ergue-se o rei, e para o leito avança,
E uma lagrima então, embalde reprimida,
Das barbas lhe cahiu no rosto da creança...