Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 52 de 60

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Nocturnos

O Cura Sancta Cruz

X

 

 

A vez primeira foi que El-Rey chorou em vida.

 

O CURA SANCTA CRUZ

 

CONTO DE A. DAUDET

 

Ao dr. Sousa Martins

 

O implacavel carlista, o Cura Sancta Cruz,

Que em nome do seu rei, e em nome de

Jesus,

Da Navarra febril leva do sul ao norte

O odio, a perseguição, o incendio, o

estrago, a morte.

Nessa clara manhã risonha do Natal,

Tendo sobre o uniforme a veste clerical,

Na montanha, ao ar livre, á luz do sol, diz

missa

Á guerrilha que o escuta extatica e

submissa.

Como um rebanho vil, a um lado, os prisioneiros

Ouvem-no, a tiritar, cheios de um medo

atroz:

Olham-se mutuamente os tôrvos

companheiros,

E murmuram: «meu Deus, o que será de

nós?»

Porque emfim toda a vez que o sanguinario Cura

Se volta, e o oremus diz, segundo o ritual,

Da sacra vestimenta avultam na brancura

De pistolas um jogo e a fórma de um

punhal.

Quando afinal chegou o instante, a occasião

Em que a missa termina, o Cura, erguendo

um braço,

Grave traçou no ar e na mudez do espaço

O clemente signal da paz e do perdão.

A missa terminára.

O Cura nesse dia

Como sentisse n'alma uns raios de alegria,

De bondade e de amor, foi-se direito ao

bando

Dos captivos, e assim fallou circumvagando

A vista em derredor: «Hermanos, viva Dios!

«Corre ahi que sou máu, fanatico e feroz...

«Pois em breve ides ver como se engana,

quem

«Diz que eu sou o anti-Christo e que

abomino o bem.

«Como é dia de festa e é dia de Natal,

«Dou-vos a liberdade, e não vos quero mal!

«Mas haveis de primeiro, e isto, prompto e sem custo

De joelhos beijar o pavilhão augusto

De El-Rey nosso senhor...»

E mandou desfraldar

O carlista pendão, branco como o luar...

Todos logo á porfia atiram-se por terra

E um grito: Viva El-Rey! echoou de serra em

serra.

No emtanto um prisioneiro, um moço imberbe ainda,

Firme ficou de pé, e olhava com infinda

Expressão de desdem a extranha vilania...

Braços postos em cruz, e intrepido sorria.

«E tu?» surprezo disse e transtornado o Cura.

—Padre, volveu-lhe o esbelto joven, com

brandura,

—Mata-me! aqui me tens! rio-me d'esse

panno!

—Ao teu rei não me curvo... Eu sou

republicano...—

O Cura um acêno fez; formou-se um pelotão:

«Vamos! inda uma vez, viva D. Carlos!»

—Não!—

E havia nessa voz tamanha heroicidade Nisto viu que inda estava ajoelhado o joven! Pára.

E uma energia tal, que uns longes de

piedade

Scintillaram no olhar do tôrvo guerrilheiro.

«Muito bem, morrerás: mas dize-me primeiro,

«O que desejas tu? Queres beber, fumar?...

—Padre, se vou morrer, quero-me confessar...

«Ouvir-te-hei!» disse o Cura, e, ao acaso,

num granito

Assentou-se.

O captivo, olhos no chão, contrito

Os joelhos dobrou... Nesse fugaz instante

Elle viu, elle viu, num sonho lacrymante,

A sua infancia, o lar, o tecto de seus paes,

Os choupos do seu rio, os placidos casáes:

Viu a noiva gentil, a egreja, os arvoredos

E os parentes e irmãos, socios de seus

brinquedos.

Ah! quem póde esquecer o seu paiz natal! Ah! quem póde esquecer a benção maternal!

Em distancia a guerrilha os dous observa... Então

Emquanto o padre escuta attento o

prisioneiro,

Subito uma descarga estoira na amplidão.

Tremem a serra e o val, treme o

desfiladeiro.

«Ás armas! o inimigo!» a sentinella brada.

De golpe ergue-se o Cura, e á jóldra

amotinada

Vôa, dá ordens, clama, emquanto as balas

chovem.