Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 53 de 60

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Nocturnos

A Venda dos Bois

«Que fazes tu?» indaga em tom severo

—Padre, diz a creança, a absolvição espero

—

E em meio da febril convulsão da batalha,

Emquanto rompe e rasga os ares a

metralha,

Viu-se o Cura depois de abençoar, ligeiro,

A fronte juvenil do heroico prisioneiro,

Pegar de uma clavina, e dando um passo ao

lado,

Varar tranquillamente o craneo do soldado.

 

A VENDA DOS BOIS

 

Ao dr. J. de Vasconcellos Gusmão

 

I

 

O velho entrára triste: ao pé, juncto do lar,

Estava a companheira, absôrta, a meditar.

—Mulher, a fé perdi, fallei a toda a gente,

E ninguem me valeu!—E ella com voz

tremente:

«Dize-me, e o brazileiro?»

—Esse foi o primeiro.

—Batí, fui ter com elle á casa do jantar.

Expliquei-lhe ao que vinha... entrou a

gracejar:

«Com que então você quer livrar o seu

rapaz?...

«Visinho, tão mal faz!

«Deixe-me ir cada qual á sorte e ao seu

destino!

«Seu filho é um mocetão valente e muito

digno

«De servir o paiz...»

—E descascava um fructo...

—Desatei a chorar... «—Homem não seja

bruto!

A farda não é morte...»

—E disse mais e mais

—Cousas de quem não sabe a dôr de uns

tristes paes!

E emquanto o velho punha a vista lacrymosa

Nos brazidos, a voz da mãe afflicta e

anciosa

Perguntou: «e o prior?»

—Negou, negou tambem!—

A angustiada mãe

Retorcia o avental com mão febril, ardente.

No silencio da noite então distinctamente,

Um profundo mugido,

Triste como um gemido,

Longo e longo chorou no lugubre

aposento...

Entreolharam-se os dois...

Nisto acóde á mulher um estranho pensamento...

«Temos ainda os bois!

Vendamol-os!» E ria...

O entristecido olhar

Do velho lavrador de lagrymas nublou-se.

E entrou a suspirar:

—Vender os infelizes!

—Uns pobres animaes, a quem só mingoa a

fala

—Para serem Christãos! Parece que me

estala

—No peito o coração... Vender os

infelizes!...

—Pois seja assim, mulher! Farei o que tu

dizes...

 

II

 

Vinha rompendo a aurora

Risonha, virginal, feliz como um noivado,

Das aves á compita o tremulo trinado

Entre as balsas gorgeava. Era em descanço

a nóra.

No emtanto o lavrador, tremente e vacillante

Como um ladrão nocturno, ou como um

namorado,

Abriu, de par em par, as portas do curral.

Subito nesse instante

Volveram para a entrada os bois o olhar leal,

Bondoso, humano e franco.

Que festiva alegria

O frequente menear das caudas traduzia

Resvalando em seu forte e musculoso

flanco!

O velho antigamente

Tinha sempre, ao chegar, uma palavra

amiga,

Um dicto, uma cantiga,

A que sempre um mugido alegre respondia.

Mas naquella manhã, silenciosamente,

Fatal como o dever

O velho foi buscar, a um canto, uma correia,

E lançou-a a tremer

Dos anafados bois ás pontas recurvadas.

E sahiram os tres.

Nos concavos da aldeia

Choviam as canções das aves namoradas.

 

III

 

No cáes ha o moirejar das fabricas ruidoso;

Feroz e discordante

Juncta-se á voz humana o arfar estrepitante

Dos valentes pulmões das machinas

inglezas.

Em novellos, ancioso,

Golpham as chaminés o denso e o escuro

fumo