Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 1 de 60

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Nocturnos

LISBOA 18, Rua Oriental do Passeio 1882

LISBOA

18, Rua Oriental do Passeio

1882

 

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LISBOA—I N

 

A MINHA MULHER

 

MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO

A ti, ó boa e rara e fiel amiga,

 

A mais sancta e a melhor das

companheiras,

A ti, ó flôr mimosa e alma antiga,

—Doce Premio que ris ao meu cançaço—

A ti, ó meu Conselho, estas ligeiras

Folhas que ponho a medo em teu regaço.

 

CONFIDENZA

 

Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.

Mimosa e eburnea flôr,

Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava...

Ouviste, meu amôr?

Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço

Ficava-me a sorrir

Para os quadros que eu via em luminoso

traço

Nas télas do porvir.

Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,

Os que me lembram mais:

Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida,

Os olhos teus leaes!

Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco,

Uma aurora de abril:

Da larga estrada á beira um campanario

branco,

O céu profundo anil.

De uma casa á janella uma creança loura,

Loura como um trigal:

Fiando á luz do sol que leve a sobredoura

De aureola ideal.

Toda risos e festa a doce creatura

Olhava para mim,

E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura!

Serei feliz emfim!»

De um outro quadro então recordo-me saudoso,

E alongo os olhos meus

Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,

Que me cahiu dos céus!

Fica ao longe da vil poeira das cidades

E do seu vão rumôr,

O palacio esquecido; ás horas das

trindades,

Entremos nelle, flôr!

Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,

E o oloroso pomar;

Subamos essa escada, agora, a furto e a

medo,

Comecemos a olhar.

É vetusto o salão; em flaccida poltrona

Repoisa e scisma alguem:

Alguem que nos recorda a imagem da

Madona,

Grave e sizuda mãe.

D'esse alguem no regaço um anjo se reclina

Confiado e feliz,

Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca

pequenina.

Falla, não sei que diz.

É casta essa creança e pura entre as mais puras,

Que em sonhos vi jámais;

Tem o vago esplendôr das biblicas figuras

Dos antigos missaes.

É moça e é menina: olhar nenhum ainda

De leve a maculou.

Dorme no seio della o amôr, a crença infinda

Que Deus lhe confiou.

Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,

Ficamos a pensar

Nos mysterios do céu, nas cousas

ignoradas

Que descobre esse olhar.

Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,

Cego de tanta luz,

E que tremulo beije o tépido veludo

De seus pésinhos nús!

E não córa, bem vês, a candida creança!

Antes meiga sorri,