Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 57 de 60

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Nocturnos

A Morte de D. Quichote

As nuvens no alto céu fluctuam como

espumas,

Da paizagem no fundo, em lago transparente,

Onde se espelha o azul e o laranjal

frondente,

Um cysne á luz do sol estende as niveas

plumas.

 

A MORTE DE D. QUICHOTE

 

Ao Conde de Sabugosa

 

Rôto o escudo, sem lança, a cóta escalavrada,

Sósinho, abandonado e á tôa como um

cego,

Do crepusculo á luz dolente e immaculada

Entra na sua aldeia o altivo heroe

Manchego.

O tenue fumo sáe do côlmo das herdades,

Riem ao pé da fonte as frescas raparigas,

E á clara vibração sonora das trindades

Junctam-se brandamente as vozes e as

cantigas.

E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte,

Que andára pelo mundo a combater os

máus,

Defendendo a Mulher, desafiando a Morte,

Do paterno casal sentou-se nos degráus.

Nos joelhos fincando o cotovêlo agudo

E no punho cerrado a fronte reclinando,

Quedou-se largo espaço, illacrymavel,

mudo,

Para o inutil passado os olhos alongando...

E ali, na dôce paz da sua alegre aldeia,

Sentiu que o avassallava uma tristeza

infinda,

Quando esta voz se ouviu: «morreu-te a

Dulcinêa,

Missionario do Bem, tua missão é finda!»

E elle a ouvir e a scismar! A trefega sobrinha

Beija-o, falla-lhe, ri, abraça-o, mas o Heróe

Dest'arte lhe volveu «A morte se avisinha,

Levae-me para o leito!» E ouvil-o pena e

dóe.

Do leito á cabeceira o Bacharel e o Cura

Tentam resuscitar-lhe os sonhos e as

chymeras;

Pintam-lhe o negro Mal triumphante, ó

amargura!

O fraco aos pés do forte, o bom lançado ás

féras...

Contam-lhe o frio horror dos carceres sem luz.

Que nas tôrres feudaes pompeava o velho

Crime.

Que os crescentes do Islam tinham vencido

a Cruz,

Que a Injustiça era a Lei... Então feroz,

sublime.

Inquieto, semi-nú, sinistro, o cavalleiro

Bradou como um trovão: «Enverguem-me a

loriga!

«Sellem-me o Rocinante, ó Sancho, ó

escudeiro,

«Traze-me a lança, présto! e a minha

espada amiga!»

Tinha em brazas o olhar, e truculento o aspeito,

E vibrava em redôr a imaginaria lança...

Logo depois cahiu do respaldar do leito,

Morto: tendo no labio um riso de creança!