Nocturnos
As Ondinas
Que a manhã te encontre ainda
Bebendo a canção infinda
Que soluça o teu poeta.
Cantará de entre os loureiros
Uma alegre cotovia,
Mal venha rompendo o dia...
Não te assustes, Julieta!
Mas dorme a branca Thereza,
Cerrada a janella sua;
Espalha-se a luz da lua
Pela poetica deveza...
Entre os sinceiros da margem,
Murmura e corre o Mondego,
Que tristeza e que socêgo!
Ai! dorme, dorme, Thereza!
AS ONDINAS
H. HEINE
Ao Visconde de Castilho II
Na praia tranquilla murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao dôce das aguas murmúrio palreiro,
Na areia dormita gentil cavalleiro
Á luz do luar.
As bellas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Accórrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam devéras dormindo
No argenteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de setim.
E aquella, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do joven formoso
O aureo telim.
Ess'outra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apoia azougada,
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmúra:
«Podésse eu em vida gosar a ventura
Do teu fino amôr!»
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com tremula e dôce esquivança,
Perfuma-lhe a bôcca, formosa creança!
Com beijos subtis...
E o moço, fingindo que dorme tranquillo,
Não quer acordar.