Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 46 de 60

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Nocturnos

As Ondinas

Que a manhã te encontre ainda

Bebendo a canção infinda

Que soluça o teu poeta.

Cantará de entre os loureiros

Uma alegre cotovia,

Mal venha rompendo o dia...

Não te assustes, Julieta!

Mas dorme a branca Thereza,

Cerrada a janella sua;

Espalha-se a luz da lua

Pela poetica deveza...

Entre os sinceiros da margem,

Murmura e corre o Mondego,

Que tristeza e que socêgo!

Ai! dorme, dorme, Thereza!

 

AS ONDINAS

 

H. HEINE

 

Ao Visconde de Castilho II

 

Na praia tranquilla murmuram sonoras

As ondas do mar.

E, ao dôce das aguas murmúrio palreiro,

Na areia dormita gentil cavalleiro

Á luz do luar.

As bellas ondinas emergem das grutas

De vivo coral,

Accórrem ligeiras, e apontam, sorrindo,

O moço que julgam devéras dormindo

No argenteo areal.

Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas

As mãos de setim.

E aquella, com gesto divino, gracioso,

Nos ares levanta do joven formoso

O aureo telim.

Ess'outra, que lavas, que fogo não vibram

Seus olhos de anil!

Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,

Nos copos brilhantes se apoia azougada,

Travessa e gentil.

A quarta, saltando, retouça, lasciva,

Do moço em redor;

Suspira mansinho, de manso murmúra:

«Podésse eu em vida gosar a ventura

Do teu fino amôr!»

A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada

Num sonho feliz,

E a sexta, com tremula e dôce esquivança,

Perfuma-lhe a bôcca, formosa creança!

Com beijos subtis...

E o moço, fingindo que dorme tranquillo,

Não quer acordar.