Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 48 de 60

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Nocturnos

Nunca Eu Te Lêsse, Ballada!

O sexto Affonso applaude: emtanto, maliciosa,

Maria de Nemours, sorrindo, a incestuosa!

No cunhado, subtil, poisa o lascivo olhar...

 

NUNCA EU TE LÊSSE, BALLADA!

 

Suspende a dura sentença

Que de teus labios ouvi.

E ergue do chão os quebrados

Teus negros olhos magoados,

Quando me acerco de ti.

Ergueste-os, encantadôra!

Mas antes do teu perdão,

Attende-me, e ouve, senhora,

Com todo o teu coração.

Escuta:

«A um rei namorado

«Sincera e fiel amante,

«Ao morrer, tinha deixado,

«De antigo affecto em penhor,

«Cinzelada taça de ouro

«Do mais subido valor.

«O rei preferia a tudo

«Aquella doce lembrança

«Que lhe trazia os arômas

«De umas fluctuantes cômas,

«E de uns labios de veludo,

«Que elle beijára em creança.

«Toda a vez que elle bebia

«Por esse vaso sagrado,

«Uma extatica alegria

«Como flôr ideal sorria

«No seu turvo olhar cançado.

«Um dia sentiu-se o pobre

«Mais triste, velho e abatido,

«Abraçou-se commovido

«Á taça, o tremulo amante:

«E as lagrimas, uma a uma,

«eslisaram nesse instante

«Nos rudes flócos de espuma

«Da longa barba fluctuante.

quella hora de agonia,

«Chamou seus filhos e herdeiro,

«Deu-lhes tudo o que possuia,

«Ouro, palacios, riquezas,

«O seu castello roqueiro,

«E as suas largas devezas.

«Dividiu tudo, contente;

«A taça guardou sómente.

«Sentindo fugir-lhe a vida,

«Manda o triste convidar

«Seus pares, filhos e herdeiro

«Para um festim derradeiro

«No castello sobranceiro

«Ás verdes aguas do mar...

«Em meio da festa, o velho

«Ergueu a taça e, sorrindo,

«Embebido o olhar no infindo,

«Um frouxo canto soltou...

«E mal o canto findára,

«No leito da onda amara

«A taça de ouro lançou...»

Eram profundos ciumes

Os d'esse rei namorado,

Que não fosse alguem beber

Por esse vaso sagrado,

E viesse a conhecer

Os cariciosos perfumes

Que o tinham embriagado...

Hontem, á tarde, beijando-a

De teu labio a viva rosa,

Lembrou-me a historia singela

D'essa ballada amorosa;

E dentro em mim de repente

Tam extranha dôr senti,

Que num impeto demente

De teu labio humido e ardente

Com tôrvo aspecto fugi!

Lembrou-me, cabeça louca!

Que se eu acaso morresse,

Talvez um outro sorvesse

Os beijos da tua bôcca...

E no azul indefinido,