Nocturnos
Em Caminho da Guilhotina
Era austero e sizudo; não havia
Frade mais exemplar nesse convento;
No seu cavado rôsto macilento
Um poêma de lagrimas se lia.
Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-no desmaiar, cahir do assento,
Convulso, e tôrvo sobre a lágea fria.
De que morrêra o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguem m'a disse, explique-a quem pudér.
Consta que um bibliophilo comprára
O livro estranho e que, ao abril-o, achára
Uns dourados cabellos de mulher...
EM CAMINHO DA GUILHOTINA
Á Senhora Condessa de Sabugoza
A viuva Capet vae ser guilhotinada.
Ora naquelle dia o povo de Pariz
Formidavel, brutal, colerico, feliz,
Erguera-se ao primeiro alvôr da madrugada.
No caminho traçado ao funebre cortejo
O povo redemoinha;
Que todos sentem n'alma o tragico desejo
De ver como Sansão degolla uma rainha.
Da carreta em redor ondeiam os soldados;
De cima dos telhados
Da rua, dos portaes, dos muros, dos
balcões
Chovem sobre a rainha as vis imprecações.
Ella comtudo altiva erecta e desdenhosa
Olha tranquillamente
Para o revolto mar da plebe tumultuosa.
E emquanto aquelle povo inquieto e repulsivo
Anceia por ouvir o grito convulsivo
E o derradeiro arranco
D'essa mulher, e ri abominavelmente,
Um homem só, o algoz, vae triste e
reverente.
Póde nascer ao pé da forca um lirio branco.
A carreta parou. Desce a rainha. Nisto
Viram-se uns braços nús
Erguerem para o ar, á flôr da multidão,
Uma loura creança, alegre como a luz,
Suave como o Christo,
A quem talvez faltando em casa a enxerga e
o pão,