Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 39 de 60

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Nocturnos

Em Caminho da Guilhotina

Era austero e sizudo; não havia

 

Frade mais exemplar nesse convento;

No seu cavado rôsto macilento

Um poêma de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria

Folheava o triste um livro pardacento,

Viram-no desmaiar, cahir do assento,

Convulso, e tôrvo sobre a lágea fria.

De que morrêra o venerando frade?

Em vão busco as origens da verdade,

Ninguem m'a disse, explique-a quem pudér.

Consta que um bibliophilo comprára

O livro estranho e que, ao abril-o, achára

Uns dourados cabellos de mulher...

 

EM CAMINHO DA GUILHOTINA

 

Á Senhora Condessa de Sabugoza

A viuva Capet vae ser guilhotinada.

Ora naquelle dia o povo de Pariz

Formidavel, brutal, colerico, feliz,

Erguera-se ao primeiro alvôr da madrugada.

No caminho traçado ao funebre cortejo

O povo redemoinha;

Que todos sentem n'alma o tragico desejo

De ver como Sansão degolla uma rainha.

Da carreta em redor ondeiam os soldados;

De cima dos telhados

Da rua, dos portaes, dos muros, dos

balcões

Chovem sobre a rainha as vis imprecações.

Ella comtudo altiva erecta e desdenhosa

Olha tranquillamente

Para o revolto mar da plebe tumultuosa.

E emquanto aquelle povo inquieto e repulsivo

Anceia por ouvir o grito convulsivo

E o derradeiro arranco

D'essa mulher, e ri abominavelmente,

Um homem só, o algoz, vae triste e

reverente.

Póde nascer ao pé da forca um lirio branco.

A carreta parou. Desce a rainha. Nisto

Viram-se uns braços nús

Erguerem para o ar, á flôr da multidão,

Uma loura creança, alegre como a luz,

Suave como o Christo,

A quem talvez faltando em casa a enxerga e

o pão,