Nocturnos
A Resposta do Inquisidôr
A candida Valeria.
Não ha flôr mais suave,
De essencia mais ethérea,
E abriu-lhe a vida a chave
Do Vicio e da Miseria!
Na sua loura côma
Nunca passou o arôma
Dos beijos maternaes.
Ó credula Ignorancia,
Esconde áquella infancia
O nome vil dos paes!
A RESPOSTA DO INQUISIDÔR
A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque
I
A sala em que medita El-Rey é silenciosa,
Apainelada e fria, o largo reposteiro
Ondula brandamente á aragem preguiçosa.
II
Á cathedra real um Christo sobranceiro
Mésto, livido, nú, ferido e ensanguentado
Exhala sobre o seio o alento derradeiro.
III
El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado,
O seu obliquo olhar, o seu olhar de féra,
Vibra irrequieta luz, parece allucinado.
IV
Nisto á porta assomou a calva fronte austera
De um velho, e logo atraz um pagem que
murmura:
«Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza
espera!»
V
Curvára, ao entrar, o monge a tremula estatura:
Mãos dispostas em cruz no largo peito
ancioso, Nunca nos labios seus florira o alegre riso,
E humilhada a cerviz na ascetica postura.
VI
E comtudo esse frade humilde e respeitoso,
De olhos fitos no chão, tão fragil como um
vime,
Na presença de um rei, de um Cesar
poderoso,
VII
É fanatico e audaz; com mão de bronze opprime
O Solio, a Egreja, o Lar, e os corações dos
crentes;
Flagella a sombra e o amôr, condemna a
luz, e o crime!
VIII
Quando elle vae passando, as timoratas gentes
Benzem-se com pavôr e param de
improviso
As canções juvenis nas aleas rescendentes.
IX
Tem cem annos, jamais beijára uma
creança,
E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!
X
Na Hespanha, no Perú, em Napoles, na França
Paira como o sinistro espirito do Mal,
O negro inquisidôr, feroz como a Vingança.
XI
Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal,
E a Hespanha pôde ver com assombroso
espanto
Juncto do rei-panthera o inquisidôr-chacal.
XII
E Philippe dizia ao monge no entretanto:
«Sentinella da Lei, piedoso inquisidôr,
«Tu que fallas com Deus e és padre, e és
bom, e és sancto
XIII
«Arranca-me este pezo, afasta-me este horrôr!