Nocturnos

Gonçalves Crespo · Capítulo 42 de 60

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Nocturnos

A Resposta do Inquisidôr

A candida Valeria.

Não ha flôr mais suave,

De essencia mais ethérea,

E abriu-lhe a vida a chave

Do Vicio e da Miseria!

Na sua loura côma

Nunca passou o arôma

Dos beijos maternaes.

Ó credula Ignorancia,

Esconde áquella infancia

O nome vil dos paes!

 

A RESPOSTA DO INQUISIDÔR

 

A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque

 

I

 

A sala em que medita El-Rey é silenciosa,

Apainelada e fria, o largo reposteiro

Ondula brandamente á aragem preguiçosa.

 

II

 

Á cathedra real um Christo sobranceiro

Mésto, livido, nú, ferido e ensanguentado

Exhala sobre o seio o alento derradeiro.

 

III

 

El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado,

O seu obliquo olhar, o seu olhar de féra,

Vibra irrequieta luz, parece allucinado.

 

IV

 

Nisto á porta assomou a calva fronte austera

De um velho, e logo atraz um pagem que

murmura:

«Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza

espera!»

 

V

 

Curvára, ao entrar, o monge a tremula estatura:

Mãos dispostas em cruz no largo peito

ancioso, Nunca nos labios seus florira o alegre riso,

E humilhada a cerviz na ascetica postura.

 

VI

 

E comtudo esse frade humilde e respeitoso,

De olhos fitos no chão, tão fragil como um

vime,

Na presença de um rei, de um Cesar

poderoso,

 

VII

 

É fanatico e audaz; com mão de bronze opprime

O Solio, a Egreja, o Lar, e os corações dos

crentes;

Flagella a sombra e o amôr, condemna a

luz, e o crime!

 

VIII

 

Quando elle vae passando, as timoratas gentes

Benzem-se com pavôr e param de

improviso

As canções juvenis nas aleas rescendentes.

 

IX

Tem cem annos, jamais beijára uma

creança,

E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!

 

X

 

Na Hespanha, no Perú, em Napoles, na França

Paira como o sinistro espirito do Mal,

O negro inquisidôr, feroz como a Vingança.

 

XI

 

Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal,

E a Hespanha pôde ver com assombroso

espanto

Juncto do rei-panthera o inquisidôr-chacal.

 

XII

 

E Philippe dizia ao monge no entretanto:

«Sentinella da Lei, piedoso inquisidôr,

«Tu que fallas com Deus e és padre, e és

bom, e és sancto

 

XIII

 

«Arranca-me este pezo, afasta-me este horrôr!