O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 9 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 4

Narrativa de Mark Easterbrook

 

I

 

Hermia Redcliffe e eu fomos ao teatro assistir a Macbeth.

Quando saímos, chovia a cântaros. Hermia comentou, sem razão, que sempre que íamos ao teatro chovia.

— Você nunca reparou? — perguntou ela.

Discordei, comentando que ela invariavelmente só lembrava às vezes que chovia quando ia ao teatro.

— Nos festivais de música de Glyndebourne — disse Hermia, quando entramos no carro, — dou muita sorte. Tudo perfeito! A música, os jardins em flor, principalmente os canteiros de cravos brancos...

Falamos sobre o Festival por uns momentos.

— Vamos tomar café no Canal?

— Por quê? Que ideia! Pensei que íamos ao Fantasie. Depois de ver tanto sangue, precisamos comer bem. Shakespeare me dá sempre multa fome.

— Wagner também. Os sanduíches de salmão defumado que servem nos intervalos não dão para o gasto. Perguntei se íamos ao Canal porque você está tomando a estrada de Dover.

— Mas precisamos dar a volta — protestei.

— Mas você já deu duas voltas. Já estamos na estrada de Kent.

Examinei bem as indicações da estrada e percebi que, como sempre, Hermia estava com a razão.

— Sempre me perco por aqui — disse eu.

— É confuso mesmo — disse Hermia. — Temos que dar a volta pela Ponte de Waterloo.

Assim que tomamos o rumo certo, continuamos a discutir sobre a peça. Minha amiga Hermia Redcliffe era uma bonita moça de vinte e oito anos, de uma beleza clássica, perfil grego, cabelos castanhos. Minha irmã a chamava de “A Garota de Marte”, enfatizando as aspas num tom que me irritava sobremaneira.

No restaurante, fomos recebidos com a costumeira hospitalidade; o Fantasie é um restaurante bastante popular, onde as mesas são colocadas bem perto umas das outras. Assim que sentamos fomos cumprimentados efusivamente por David Ardingly, um professor de História da Universidade de Oxford, que, em seguida, nos apresentou sua acompanhante, uma moça muito bonita que exibia um complicadíssimo penteado e um simplíssimo decote. Tinha uns enormes olhos azuis, uma boca sensual, eternamente entreaberta e, como todas as namoradas de David, a mentalidade e a inteligência de uma garota de 8 anos.

David, um jovem brilhante, só conseguia relaxar em companhia de mulheres quase débeis mentais.

— Minha namorada favorita, Poppy — disse ele. — Poppy, este é Mark Easterbrook e Hermia Redcliffe, um casal muito sério e intelectual. Preste muita atenção no que eles dizem. Acabamos de ver uma revista chamada: Agora a Coisa Vai! Uma beleza!

Aposto que vocês foram ver Shakespeare ou Ibsen.

— Macbeth.

— O que achou da direção de Batterson?

— Gostei — respondeu Hermia. — A iluminação é muito interessante e a cena do banquete é especialmente bem montada.

— E o que dizem das bruxas?

— Como sempre horríveis — respondeu Hermia.

David concordou.

— É inevitável o elemento pantomímico nestas cenas — disse David. — As três bruxas, pulando e se comportando como o Rei Mau de uma peça infantil. A gente fica esperando que a Fada Boa apareça e quebre o encanto com sua varinha de condão.

Rimos, mas David, sempre muito observador, perguntou: — Em que você está pensando?

— Nada — respondi. — É que outro dia estava refletindo sobre a pantomima, pensando no Rei Mau e na Fada Boa...

— A propos de quoi?

— Num bar em Chelsea...

— Como estamos para frente! Você em Chelsea... é lá que Poppy devia ir. Dizem que as milionárias casam com os gigolôs...

— Mas eu detesto Chelsea — protestou Poppy. — Gosto do Fantasie, adoro a comida.

— Viva Poppy! Além do mais você não é suficientemente rica para morar em Chelsea. Fale mais sobre Macbeth e sobre as bruxas, Mark. Se eu fosse dirigir esta peça, sei como apresentaria as bruxas.

David, nos tempos de estudante, tinha feito sucesso no teatro universitário.

— Como seria?

— Eu as apresentaria como três velhinhas comuns. Como as feiticeiras das cidades do interior.

— Como, se hoje em dia não existem mais feiticeiras? — perguntou Poppy.

— Você diz isto porque mora em Londres. Em qualquer cidade do interior da Inglaterra existe uma feiticeira. Há sempre uma Sra. Black a quem os meninos não devem incomodar e que recebe ovos e bolos da vizinhança. Sabem por quê? — perguntou David, sacudindo o indicador, num gesto de ameaça. — Porque se ela se zanga com alguém, a vaca deixa de dar leite, a praga invade o pomar ou o filho da Sra. Smith torce o pé. É tacitamente aceito que não se deve contrariar a Sra. Black.

— Você está brincando! — disse Poppy.

— Não estou não. Diga, Mark, se eu não tenho razão?

— Hoje em dia estas superstições já acabaram— declarou Hermia, incrédula.

— Não na zona rural. O que você acha, Mark?

— Creio que tem razão — respondi embora nunca tenha morado no interior.

— Não vejo como, em Macbeth, seria possível apresentar as bruxas como se fossem velhas de um asilo. A feitiçaria é cercada de uma atmosfera sobrenatural — disse Hermia.

— Pense bem — insistiu David. — O problema é igual ao da loucura. Se aparece em cena um ator fazendo-se de louco, com os cabelos desgrenhados, gritando, ninguém fica com medo. Uma vez, fui entregar uma carta a um médico, num asilo de loucos.

Pediram que eu esperasse pela resposta numa sala de visitas onde encontrei uma velhinha muito simpática, tomando um copo de leite. Ela puxou prosa comigo, fazendo alguns comentários bastante banais. De repente ela debruçou-se para frente e perguntou: É sua a criança que está enterrada nesta lareira? Em seguida sacudiu a cabeça e concluiu: Doze e dez em ponto!

Sempre a mesma coisa a esta hora. Faça de conta que não percebe o sangue. O que mais me apavorou foi o tom natural do comentário!

— E tinha mesmo uma criança enterrada na lareira? — perguntou Poppy.

David fingiu não ouvir.

— Veja as médiuns, por exemplo. Passam do transe, em salas escuras, batidas na mesa, transformando-se em senhoras distintas, arrumadas que ouvem novela, cozinham para os maridos.

— Então, para você as bruxas — disse eu — seriam três velhas escocesas que praticam suas seitas em segredo, murmurando maldições em torno de um caldeirão, conjurando espíritos, mas aparentando ser boas donas de casa. Acho que poderia causar um bom efeito!

— Se é que você conseguiria que algum ator representasse desta forma — disse Hermia.

— Você tem razão — disse David. — Qualquer sugestão de loucura em uma peça e imediatamente o ator resolve dar tudo o que tem. Já viram algum ator morrer de repente em cena? Nunca!

Eles caem, se esgoelam, viram os olhos, apertam o coração, se descabelam! Que você achou da interpretação de Fielding como Macbeth? A opinião dos críticos parece bastante dividida.

— Eu achei sensacional! — disse Hermia. — Acho que ele representou divinamente a luta entre o medo e o amor. Suas inflexões me pareceram perfeitas.

— Shakespeare ia levar um susto se visse suas peças representadas hoje em dia — comentei.

— Os autores sempre se surpreendem com as interpretações das suas peças — disse Hermia.

— Não foi um tal de Bacon que realmente escreveu as peças de Shakespeare? — perguntou Poppy.

— Esta teoria já saiu de moda — disse David, carinhosamente. — Onde você ouviu falar em Bacon?

— Foi o inventor da pólvora, ora essa! — exclamou Poppy num tom de triunfo.

David olhou para nós.

— Compreendem agora por que amo esta mulher? — perguntou. — Sempre sai com uma novidade. Não confunda Francis com Roger Bacon, meu bem!

— Achei interessante — prosseguiu Hermia — que Fielding representasse também o papel do terceiro assassino. Já tinham feito isso antes?

— Creio que sim — respondeu David. — No tempo de Macbeth é que devia ser bom. Se a gente queria se ver livre de alguém bastava chamar um sicário. Pena que não possamos mais fazer isso.

— Quem disse? — perguntou Poppy. — E os gângsteres, os capangas, o pessoal de Chicago?

— Não estou me referindo a quadrilhas organizadas — disse David. — Estou me referindo a gente comum que gostaria de se ver livre de algum... um sócio incômodo, uma tia rica e centenária, um marido onipresente. Imaginem se a gente pudesse telefonar para uma loja e pedir: Quer mandar dois bons assassinos, por favor?

Rimos com a piada.