O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 34 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 19

 

Narrativa de Mark Easterbrook

I

Quando saí da casa de Venables já era noite. Encaminhei-me, tateante, pela longa alameda, voltando-me para trás para examinar a bela casa iluminada. De repente, tropecei numa pessoa que vinha na direção oposta. Era um homem baixo, encorpado, que falava com um sotaque pedante.

— Desculpe.

— Não há de que, a culpa foi minha — protestou ele.

— Eu nunca estive aqui antes — expliquei — por isso estou meio perdido. Deveria ter trazido um isqueiro.

— Com licença — disse o estranho, tirando um isqueiro do bolso.

Quando o acendi, notei que o estranho era um homem de meia-idade, de rosto redondo, bigodes negros e óculos de aro de tartaruga. Usava uma capa de boa qualidade e todo seu aspecto transmitia uma imagem de respeito e integridade. Mesmo assim, eu me perguntei por que ele não havia usado o isqueiro, já que estava tão escuro.

— Ah! — disse eu, num tom idiota. — Saí da estrada. Agora já posso achar o caminho — acrescentei, devolvendo-lhe o isqueiro.

— Pode ficar com ele até chegar ao portão.

— Mas... o senhor não vai entrar?

— Não, não. Eu vou tomar a estrada também. Vou até o ponto do ônibus de Bournemouth.

— Sei, sei.

Caminhamos juntos. Meu companheiro parecia incomodado com algo; perguntou se eu também ia tomar o ônibus; respondi que estava hospedado por perto. Outra pausa. O embaraço do homem crescia. Devia ser do tipo que não gosta de situações escusas.

— O senhor esteve visitando o Sr. Venables? — perguntou, pigarreando.

Respondi que sim, acrescentando: — Pensei que o senhor estivesse indo para lá.

— Não — respondeu ele, — não. Eu moro em Bournemouth, isto é, perto da cidade. Tenho uma casinha lá.

Por um instante fiquei me perguntando onde ouvira falar de uma pessoa que tinha uma casinha perto de Bournemouth...

— O senhor deve achar muito estranho encontrar uma pessoa rondando uma casa. É realmente difícil de explicar, embora eu possua razões para isso. Apesar de morar há pouco em Bournemouth, existem pessoas que estariam prontas a afiançar que sou um homem honesto e cumpridor dos meus deveres. Sou um farmacêutico aposentado que resolvi mudar para esta região.

Fez-se a luz. Imediatamente associei quem era aquele homem.

— Sou Zachariah Osborne. Tinha uma farmácia em Londres, perto da estação. No tempo do meu pai era um ótimo bairro, mas atualmente decaiu muito.

Suspirou.

— Esta é a casa do Sr. Venables, não é? É seu amigo?

— Não diria que sim — respondi, deliberadamente. — Só o encontrei uma vez, quando almocei com ele.

— Ah! Sei, sei...

Chegamos ao portão. O Sr. Osborne parou. Devolvi-lhe o isqueiro.

— Obrigado.

— Não tem de quê. Eu não... — as palavras pareciam jorrar — não gostaria de que o senhor interpretasse mal minha presença aqui. Asseguro que não se trata de mera curiosidade. Gostaria de poder esclarecer melhor minha atitude.

Fiquei parado, esperando. O Sr. Osborne calou-se um instante.

— Gostaria de explicar, Sr....

— Easterbrook.

— Sr. Easterbrook, meu estranho comportamento. Pode me dispensar alguns minutos? Podemos tomar um café no posto de gasolina, que fica aqui perto. Meu ônibus só passa daqui a uns vinte minutos. Aceita?

Aceitei o convite. Em pouco tempo estávamos no bar do posto. Pedimos um café com biscoitos. Em seguida, Osborne desabafou.

— Tudo começou com um caso que o senhor deve ter lido nos jornais; não foi propriamente manchete mas foi bastante comentado. Trata-se do assassinato de um padre católico, perto do lugar onde eu tinha minha farmácia. Infelizmente esses casos acontecem com frequência hoje em dia. Embora eu não seja católico, ouvi grandes elogios sobre a bondade do padre. Mas vamos ao que interessa. A polícia notificou que estava interessada em entrevistar todas as pessoas que viram o padre na noite do crime. Por acaso, naquela noite eu estava parado na porta da farmácia e vi o padre Gorman passar. A poucos metros de distância, notei um homem estranho, que obviamente parecia seguir o padre. É claro que na hora não dei maior atenção ao fato, mas como sou um excelente fisionomista, gravei as feições do desconhecido e as descrevi para a polícia. Aí, então, começa a espantosa segunda parte da história. Há uns dez dias fui à quermesse de uma igreja e fiquei admirado de encontrar o mesmo estranho. Como ele estava numa cadeira de rodas, imaginei que tivesse tido um acidente. Andei perguntando quem era e disseram que se tratava de um milionário chamado Venables. Depois de certa hesitação, escrevi à polícia. O Inspetor Lejeune, com quem eu tivera uma primeira entrevista, me informou que o Sr. Venables era paralítico, há anos, vítima de pólio, e que portanto eu devia ter me enganado.

O Sr. Osborne calou-se. Tomei um gole de café, enquanto ele punha açúcar em sua xícara.

— É, parece que não há mais saída — comentei.

— É o que parece — concordou Osborne. — Creio que devo suplementar este relato. Quando criança — continuou Osborne, apoiando os cotovelos sobre a mesa, — um amigo de meu pai, um farmacêutico, foi chamado como testemunha do caso de Jean Paul Marigot, o tal que envenenou a mulher com um preparado de arsênico. O amigo de meu pai identificou-o como o comprador que havia dado um nome falso. Fiquei impressionado, devia ter uns nove ou dez anos, e creio que, daquele dia em diante, decidi que tomaria parte numa cause célèbre e que ajudaria a Justiça na batalha contra o crime. Foi por essa época que comecei a guardar fisionomias, talvez na esperança de que um homem entrasse na farmácia e comprasse arsênico para matar a esposa.

— Ah! Uma história como Madeleine Smith?*

*Famosa envenenadora inglesa do Século XIX.

— Exatamente — Osborne deu um suspiro. — Infelizmente isso nunca aconteceu mas agora surgiu a possibilidade de eu testemunhar num processo!

O rosto de Osborne iluminou-se como o de uma criança.

— Mas parece que estão tirando suas esperanças — comentei.

— É... mas eu sou um homem teimoso, Sr. Easterbrook.

Com o passar do tempo, cada dia me convenço mais de que estou com a razão. O homem que eu vi era Venables.

— Sei, sei — disse ele, levantando a mão, quando tentei falar — que era uma noite de nevoeiro e que eu não estava ao lado do suspeito, mas sei também que tenho prática em guardar fisionomias. Embora digam que eu estou enganado, não consigo me convencer. A polícia insiste que é impossível, mas eu pergunto: Será mesmo?

— Mas, certamente, sendo paralítico...

Ele me interrompeu com a mão.

— Ouça, sou farmacêutico e conheço a classe médica. Sei do que é capaz quando o dinheiro está em jogo. Existem drogas que induzem à paralisia, às febres, às irritações de pele...

— Mas uma atrofia dos membros?

— Mas quem disse que o Sr. Venables tem os membros atrofiados?

— Ora, o médico.

— Exatamente. Procurei informações sobre o médico de Venables, um figurão que mora em Londres. O médico daqui, que atendia Venables, aposentou-se e mudou para o estrangeiro. O novo médico nunca esteve com Venables.

Olhei para Osborne com curiosidade.

— Mas até aí, não vejo má-fé alguma — protestei.

— O senhor não sabe o que eu sei — disse Osborne. — Como exemplo posso citar o caso da Sra. H., que vive dos seguros da própria morte, recebendo polpudos dividendos de três companhias como se fosse uma irmã mais nova.

— Não entendo...

— Pois então imagine — continuou Osborne, excitado, — que o Sr. Venables conheça um homem pobre vitimado pela paralisia. O homem é abordado por Venables e, por acaso, até parece fisicamente com ele. Por uma certa quantia, vai procurar um especialista, dando o nome de Venables. O verdadeiro Venables aluga uma casa no campo, traz toda a falsa documentação médica e apresenta-se ao médico local. Como este deseja aposentar-se, nada como uma polpuda soma para fechar os olhos sobre a “suposta” paralisia e partir para o estrangeiro.

— Mas os criados não saberiam?

— E se fossem parte da quadrilha, isso teria importância?

— E para que todo esse trabalho?

— Não vou revelar minha teoria, pois não quero ser ridicularizado pelo senhor. O que não se pode negar é que Venables possui um álibi perfeito. Pode ser visto andando em qualquer lugar, mas obviamente não é ele, uma vez que é paralítico!

Osborne deu uma olhada no relógio.

— Meu ônibus está para chegar, por isso serei breve. Pois bem, como tenho muito tempo disponível (sinto falta da farmácia) resolvi vir até aqui fazer algumas investigações. Sei que não é direito, mas afinal estou agindo assim para ajudar a lei. Imagine se eu visse o Sr. Venables dando uma voltinha pelo terraço depois do jantar?

— Mas por que tem tanta certeza de que o homem que viu naquela noite é Venables?

— Porque sei que é.

Osborne levantou-se.

Meu ônibus chegou. Prazer em conhecê-lo, Sr. Easterbrook, e obrigado por ter-me ouvido. No fundo eu acho que é loucura, mas que posso fazer?

— Talvez não seja — disse eu. — O senhor só não disse o que acha que Venables pretende.

O Sr. Osborne corou.

— O senhor vai achar graça: todos dizem que ele é rico, porém não sabem como ganhou tanto dinheiro. Pois bem, vou dar meu palpite: acho que ele é um desses gênios do crime do tipo que planeja os golpes para a quadrilha. Pode parecer uma besteira mas...

O ônibus parou e Osborne correu.

Voltei para casa, pensando na teoria de Osborne, que era fantástica, mas tive que concordar que talvez não fosse de todo improvável.