O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 42 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 24

 

Narrativa de Mark Easterbrook

I

 

— Quero uma explicação!

Depois das formalidades policiais, consegui agarrar Lejeune e levá-lo a um bar.

— Pois não, Sr. Easterbrook. Creio que ficou bastante surpreso.

— Fiquei nervoso... estava convencido de que o culpado era Venables. Você não me deu pista alguma...

— Não podia fazer isto. Tinha que agarrar todos os fios da meada para não perder um ponto sequer. Com a colaboração de Venables conseguimos enganar Osborne e pegá-lo desprevenido.

— É um louco?

— A esta altura já está completamente incoerente. O ato de matar pessoas dá uma sensação de poder. O indivíduo sente-se Deus, porém, quando confrontado com a realidade, recorre à loucura, aos gritos. Você viu como ele ficou.

— Então Venables tomou parte do espetáculo? Ele achou divertido?

— Acho que sim — respondeu Lejeune. — Além do mais, foi bastante impertinente a ponto de pedir um favor em troca.

— Qual seria este favor?

— Não sei se devo dizer — respondeu Lejeune. — Peço portanto sua discrição. Há oito anos, houve uma série de assaltos em bancos, sempre com a mesma técnica. Os ladrões escaparam.

Os roubos foram planejados por uma pessoa que não tomava parte neles; e embora nós suspeitássemos quem fosse, nunca pudemos agarrá-lo. O homem era um gênio, especialmente do ponto de vista econômico, e além do mais era tão esperto que nunca mais cometeu outro assalto. Tratava-se de um grande ladrão e não de um assassino.

— Você sempre suspeitou de Osborne? Desde o começo?

— O fato de ele chamar atenção sobre si mesmo me pareceu suspeito. Se ele se contentasse em ficar quieto, nunca desconfiaríamos de um respeitável farmacêutico. Mas, geralmente, os criminosos não ficam calados, não sei porquê.

— O desejo de morte — sugeri. — Uma variante da teoria de Thyrza Grey.

— É melhor esquecer esta senhora e os conceitos que ela emitia — aconselhou Lejeune. — Acho que no fundo os assassinos se sentem sós. Não adianta ser um gênio do crime se não se tem com quem comentar as próprias proezas.

— Você ainda não disse quando começou a suspeitar dele — insisti.

— Desde o princípio ele mentiu. Pedimos informação às pessoas que tivessem visto o padre Gorman na noite do crime. O testemunho dele era obviamente falso. Ele disse que vira um homem seguindo o padre; descreveu o suspeito nos mínimos detalhes, quando seria impossível identificar uma pessoa numa noite de nevoeiro como foi aquela. O fato de ele mentir não me pareceu muito importante; afinal, ele poderia estar querendo se vangloriar. Tem tanta gente assim! Quando voltei a atenção sobre ele é que foi fatal. Imediatamente Osborne começou a falar de si e ai está o seu erro. Ele descreveu um homem que sempre quis ser mais importante do que era na realidade, um homem insatisfeito em ser como o pai. Parece que esteve no teatro por algum tempo, mas obviamente não fez grande sucesso. A razão talvez tenha sido a rebeldia natural dos paranóicos... pois creio que ninguém poderia ensiná-lo como representar um papel! É claro que ele gostaria de ser testemunha de um crime, identificando o assassino que comprou veneno na sua farmácia. Sei que a descrição que Osborne fez me pareceu interessante, pois é muito difícil descrevermos uma pessoa que nunca vimos. Tente descrever um desconhecido e verá como é difícil. Imediatamente começamos a descrever traços e características de alguém que já vimos em algum lugar. Osborne descreveu uma pessoa bastante invulgar.

Acontece que ele deve ter visto Venables sentado no carro em Bournemouth e ficou impressionado com a fisionomia do milionário. O que ele não podia saber é que o homem era paralítico.

“Outro detalhe que me chamou a atenção foi o fato de Osborne ser farmacêutico. Achei que aquela lista do padre tinha alguma relação com uma quadrilha de narcóticos e se não fosse Osborne eu teria enveredado por esse caminho. Aí ele manda uma carta, dizendo que viu Venables na quermesse, ignorando ainda que o falso acusado fosse paralítico. Quando soube, não se calou por vaidade; aliás, vaidade típica de um louco, pois para ele seria impossível admitir que tivesse errado. Tive uma reunião muito interessante na casa dele, em Bournemouth. O bangalô chama-se Everest, pois ele é um grande admirador dos escaladores do Himalaia.

“Por outro lado, a firma funcionava com a precisão de um relógio; Bradley em Birmingham, Thyrza Grey em Much Deeping.

Pois bem, quem suspeitaria de que Osborne tivesse alguma conexão com Thyrza Grey ou com Bradley ou com alguma vítima?

Uma verdadeira peça de teatro que duraria muitos anos em cartaz, se ele tivesse ficado quieto.

— O que será que ele fazia com o dinheiro? Afinal, era pelo dinheiro que ele matava?

— Claro que sim. Certamente se imaginava viajando, recebendo, sendo convidado para grandes recepções. Naturalmente ele não era a pessoa que gostaria de ser, mas o fato de poder matar impunemente lhe dava uma sensação de força.

Quando for julgado, é claro que vai se divertir muito. Imaginem só, todo o mundo olhando para ele.

— Mas, o que fazia ele do dinheiro?

— Fácil — respondeu Lejeune, — apesar de ele ser um grande sovina! É o típico avaro que gosta de guardar dinheiro para vê-lo amontoado.

— Guardava todo num banco?

— Não, provavelmente encontraremos debaixo de um colchão...

Calamo-nos por um instante, recordando a estranha figura de Zachariah Osborne.

— Segundo Corrigan — disse Lejeune, pensativo — tudo isso seria atribuído à atrofia ou hipertrofia de uma glândula qualquer. Eu, como sou um sujeito simples, acho que Osborne não passa de um louco. O que me impressiona é a estranha combinação de burrice com inteligência.

— Quando se fala num gênio do crime, sempre se imagina uma figura sinistra e onipotente...

— Quando na realidade não é nada disso — interveio Lejeune. — A maldade não é sobre-humana, é até subumana. Um assassino quer sempre ser importante, mas nunca o será porque não é um homem completo.