O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 28 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 15

 

Narrativa de Mark Easterbrook

I

Eu tinha simpatizado com o Inspetor Lejeune desde que o conhecera, não só pelo seu ar eficiente como também por parecer um homem de imaginação; ele me dava a impressão de ser capaz de considerar as possibilidades menos ortodoxas.

— Dr. Corrigan me contou que esteve com o senhor — disse ele. — No começo parece que ele se interessou muito pelo caso: o padre Gorman era muito respeitado e conhecido naquela zona. O

senhor parece que tem alguma informação para nos fornecer.

— Uma informação relacionada com o Cavalo Amarelo — expliquei.

— Aquela casa situada em Much Deeping?

— Sim.

— O que o senhor gostaria de me informar?

Relatei a conversa com Poppy no Fantasie, descrevi a visita com Rhoda e finalmente a entrevista com Thyrza Grey.

— O que ela disse o impressionou?

Fiquei embaraçado com a pergunta.

— Não propriamente... é claro que não acreditei.

— Não, mesmo, Sr. Easterbrook? Tenho a impressão de que acreditou.

— O senhor tem razão. É desagradável admitir que acreditamos em crendices.

Lejeune sorriu.

— Mas o senhor já estava interessado no Cavalo Amarelo quando foi lá a primeira vez. Por quê?

— Creio que intrigado pelo ar de pavor de Poppy.

— A moça da loja de flores?

— Sim. Ela falou sobre o Cavalo Amarelo casualmente; depois, quando se apavorou realmente fundamentou minhas suspeitas. Depois encontrei o Dr. Corrigan e ele me mostrou a lista, da qual dois nomes eu conhecia, pois eram pessoas recentemente falecidas de quem eu ouvira falar. Além de uma terceira que mais tarde descobri que havia morrido.

— A Sra. Delafontaine?

— Sim.

— Continue.

— Decidi investigar a fundo esta história.

— Por onde começou?

Falei sobre a Sra. Tuckerton e depois sobre a entrevista com o Sr. Bradley em Birmingham. A esta altura tinha conseguido captar o interesse de Lejeune.

— Bradley? — repetiu ele. — Então Bradley está metido nisso?

— O senhor o conhece?

— Claro que a polícia conhece todos os tipos indesejáveis; ele não é nada burro e consegue se manter no limiar da justiça. Sabe todos os truques e meandros legais de maneira que ainda não conseguimos apanhá-lo. Bradley devia escrever um livro chamado: Cem maneiras práticas de burlar a lei. Não sabíamos que havia enveredado para o crime.

— Com o que eu lhe contei o senhor poderia prendê-lo?

Lejeune sacudiu a cabeça.

— Não, não poderia. Para começar não houve testemunhas e ele simplesmente negaria qualquer acusação. Além do mais, não há lei que proíba um sujeito de fazer apostas sobre a vida de outra pessoa. Não há ilegalidade alguma nisso. Se não conseguirmos ligar Bradley com algum desses crimes não poderemos agarrá-lo. Aqui entre nós, não vai ser fácil.

Depois de uma pequena pausa, Lejeune sorriu para mim.

— Por acaso o senhor, quando esteve em Much Deeping, conheceu um homem chamado Venables?

— Sim — respondi. — Almocei com ele.

— Ah! E que impressão teve dele?

— Um homem de forte personalidade. É um inválido.

— Sim, vítima da paralisia infantil.

— Vive numa cadeira de rodas, mas parece que a invalidez aguçou sua determinação de gozar a vida.

— Fale-me mais sobre ele.

Descrevi a casa de Venables, os tesouros de arte as coleções raríssimas.

— Que pena! — comentou Lejeune.

— O que é uma pena?

— Que Venables seja paralítico — respondeu Lejeune, secamente.

— Quem sabe ele finge ser inválido? — arrisquei.

— Temos certeza de que não. O médico dele Sir William Dougal, um profissional acima de qualquer suspeita. Um tal de Osborne, porém, insiste que o viu, andando atrás de Gorman, na noite do crime. Mas, está enganado, é claro.

— Compreendo.

— Digo que é uma pena porque, se realmente existe esta organização criminosa, Venables seria o homem capaz de dirigi-la.

— Certamente.

Lejeune distraidamente traçou umas linhas com o indicador.

— Vamos reunir os fatos, isto é, juntar o que o senhor sabe com o que nós sabemos. Parece que existe uma organização particular criminosa dedicada à remoção de pessoas ricas. É uma firma que não emprega assassinos profissionais, uma vez que suas vítimas morrem de “doença”. Além dos três casos que o senhor conhece temos algumas informações sobre as outras vítimas — todas falecidas de causas naturais, embora sempre deixem sobreviventes que lucram com isso.

— Trata-se, portanto, de uma organização diabólica, Sr. Easterbrook — continuou Lejeune. — Quem elaborou esse negócio é um gênio. Pense bem, até agora só temos uma lista de nomes e a confissão de uma mulher em agonia. Nem ao menos sabemos quantas vítimas essa organização já fez.

Lejeune sacudiu a cabeça furioso.

— Essa Thyrza Grey tem razão de se gabar dos seus feitos.

Possui imunidades. Se a acusarmos de ser uma assassina estaria em liberdade em uma semana. Sabemos que ela não teve o menor contato com as vitimas e nem enviou sequer chocolate envenenado para os pobres. Segundo ela, basta sentar numa cadeira e empregar a telepatia! O tribunal iria dar risada de um promotor que se atrevesse a acusá-la.

— A esta altura Lúcifer deve estar às gargalhadas — murmurei.

— Realmente é um negócio diabólico, Sr. Easterbrook.

— Quem diria que no século XX empregaríamos este adjetivo para definir uma organização!

— Só vejo uma possibilidade — continuei depois de uma ligeira pausa: — eu e uma amiga bolamos um plano que talvez lhe pareça pueril...

— Vamos ver...

— Primeiro vamos partir do princípio de que esta organização existe e funciona.

— Muito bem, e daí?

— Mas não sabemos como funciona. Só sabemos que o cliente ouve falar numa organização, pede mais informações e acaba indo a Birmingham ao encontro do Sr. Bradley. Se chega a um acordo o cliente deve ser levado até o Cavalo Amarelo, mas daí em diante não sabemos o que acontece. Este é o ponto crucial. O que acontece no Cavalo Amarelo? Alguém tem que descobrir...

— Muito bem...

— Pois se não descobrirmos o que Thyrza Grey faz não podemos ir adiante. Segundo Jim Corrigan isto não passa de uma xaropada, mas eu lhe pergunto, será mesmo?

Lejeune suspirou.

— O senhor sabe minha resposta, isto é, a resposta de qualquer homem normal. É realmente uma xaropada estúpida.

Porém extra-oficialmente muitas coisas estranhas acontecem.

Quem diria, cem anos atrás, que seria possível falar daqui com um homem em Nova York, através de um fio? E assim milhares de outras coisas...

— Em outras palavras, tudo é possível?

— Exatamente, portanto, se o senhor me diz que Thyrza Grey é capaz de matar uma pessoa, enrolando os olhos ou caindo em transe, eu não devo duvidar, pois talvez ela tenha descoberto algo...

— Entendo — intervi. — O sobrenatural parece sobrenatural, mas a ciência do futuro é o sobrenatural da atualidade.

— Nossa conversa não é oficial — enfatizou Lejeune.

— O que pretendo fazer é ver de perto o que acontece. Esta é minha proposta.

Lejeune olhou para mim espantado.

— Já dei o primeiro passo — disse eu.

Contei em detalhes o nosso plano. Lejeune não pareceu muito satisfeito.

— Sr. Easterbrook, vejo aonde quer chegar. O acaso o conduziu a uma descoberta, mas quero que saiba que os ricos são grandes, pois o senhor e sua “esposa” estarão lidando com gente perigosa...

— Sei muito bem — protestei. — E ela também sabe, mas não há nada que a demova.

— O senhor disse que ela é ruiva?

— Sim — respondi espantado.

— Não discuta com as ruivas — disse Lejeune. — Vá por mim!

Fiquei me perguntando se a mulher dele seria ruiva.