O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 39 de 43

Páginas do PDF

O Cavalo Amarelo

Capítulo 22

 

Narrativa de Mark Easterbrook

I

— Dá tempo? Ela vai viver?

Eu não podia ficar quieto, um minuto sequer. Lejeune me observava com impaciência.

— Estamos fazendo o possível!

Não era uma resposta muito satisfatória.

— Mas será que eles sabem tratar deste tipo de envenenamento?

— Sei que não é comum. Estão tentando o impossível. Acho que ela tem grandes chances.

Olhei para ele sem saber se realmente dizia a verdade ou queria me consolar.

— De qualquer maneira verificaram se era tálio mesmo?

— Sim.

— Eis a verdade sobre o Cavalo Amarelo! Veneno. Nada de magia negra, hipnotismo ou raios científicos. Veneno! E ela me atirou na cara seus grandes poderes, morrendo de rir com certeza.

— De que você está falando?

— De Thyrza Grey. Lembra-se quando eu fui tomar chá na casa dela? Toda aquela conversa sobre os Borgias, dos venenos que não deixam vestígios, das luvas envenenadas etc. Puro arsênico, disse ela. Continuam fazendo o mesmo, só que caem em transe, matam galos, desenham pentagramas no chão, colocam crucifixos de cabeça para baixo. E para quê? Para enganar os supersticiosos. A caixa eletrônica é para os materialistas racionais como nós, por exemplo, que não acreditamos em bruxas ou pragas, mas não negamos a existência e a eficácia dos raios, das ondas e dos fenômenos psicológicos. O Cavalo Amarelo não passa de um cavalo de pau. Tudo feito para desviar a atenção sobre o envenenamento das vítimas. O melhor é que elas não corriam risco algum, podiam até, como no caso de Thyrza, gabar-se dos seus poderes ocultos. Caso fosse levada a um tribunal bastaria mostrar a caixa cheia de válvulas inúteis e seria absolvida.

— Elas três estão metidas nisso?

— Acho que não — respondi. — Bella deve acreditar piamente em bruxaria, o mesmo acontecendo com Sybil, que realmente possui o dom da mediunidade. É uma coitada que acredita cegamente em Thyrza.

— Então Thyrza é a chefe?

— Pelo menos do Cavalo Amarelo. Mas, não creio que seja a cabeça de tudo; o verdadeiro líder deve trabalhar escondido, organizando, planejando. Tudo é feito com um verdadeiro senso de equipe, cada um ocupando uma função: Bradley, a parte legal e financeira; Thyrza, encarregada da magia negra. Certamente os dois são muito bem pagos...

— Pelo visto você já descobriu tudo — comentou Lejeune, secamente.

— Ainda não. Sabemos somente os fatos básicos. Trata-se de envenenamento.

— Quem lhe deu a ideia do tálio?

— Uma série de coisas. Tudo começou com aquela briga em Chelsea; estranhei o comentário da moça de quem haviam arrancado o cabelo: — Não doeu nada! Ela não estava se fazendo de forte. Realmente não sentiu dor alguma. Há alguns anos, quando estive nos Estados Unidos, li um artigo sobre envenenamento por tálio. Uma porção de operários de uma mesma fábrica morreu em consequência de várias causas como: apoplexia, nevrite alcoólica, paralisia, epilepsia, gastrenterite etc.

Os sintomas variavam. Na mesma época uma mulher envenenou sete pessoas; os diagnósticos atestaram tumor cerebral, encefalite e pneumonia. O estranho é a variedade de sintomas que podem ser diarreia, vômito ou intoxicação, dor nos membros etc.

— Você parece um dicionário médico.

— É claro que andei fazendo umas pesquisas. Um sintoma porém sempre aparece: a queda dos cabelos. O tálio já foi inclusive usado como depilatório, mas acabou sendo desaconselhado. Quando usado como remédio a dosagem varia de acordo com o peso do doente. Hoje em dia é usado como veneno contra ratos por ser uma substância solúvel e sem gosto. Você percebe como é difícil num caso desses suspeitar-se de envenenamento.

Lejeune concordou.

— Exatamente — disse Lejeune. — Por isso a insistência do pessoal do Cavalo Amarelo de afastar o cliente da vítima. Para evitar suspeitas. O trabalho é feito por alguém que não tem a menor ligação com a vítima. Uma pequena visita é o bastante. Não acha?

— Creio que tem razão. O único fator comum é a visita de uma agradável senhora com um questionário sobre utilidades domésticas.

— Será que esta senhora é quem dá o veneno? Como se fosse uma amostra por exemplo?

— Não creio que seja tão simples assim — respondi. — Para mim essas entrevistadoras são verdadeiras e participam da história sem saberem coisa alguma. Acho que descobrirei qualquer coisa depois de conversar com uma mulher chamada Eillen Brandon.