O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 31 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo II

— Que tal se viesse mais cedo e fizesse um lanche conosco. Nunca comemos nada pesado antes de uma sessão. Podemos esperá-lo às sete?

Concordei e ela se despediu, sorrindo.

Por uns instantes não ouvi o que Rhoda dizia.

— O que você disse?

— Você tem andado muito esquisito ultimamente, Mark. O que há?

— Nada, por quê?

— Está preocupado com o livro? Qual é o problema?

— Livro? — por uns minutos não consegui me lembrar a que livro ela se referia. — Ah! sim, o livro. Não, até que está indo bem.

— Já sei! Está apaixonado — disse Rhoda, num tom acusador. — É isso mesmo. Sempre que um homem se apaixona fica com este ar abobalhado. As mulheres, porém, parece que florescem, tornam-se vibrantes, mais belas. Por que será que isto acontece? As mulheres ficam mais jovens e os homens ficam parecendo uns bodes doentes.

— Obrigado — respondi.

— Não se zangue comigo, Mark. Estou achando ótimo e estou encantada... ela é maravilhosa.

— Quem é maravilhosa?

— Hermia Redcliffe, é lógico. Ou acha que não sei com quem você anda? Há anos que espero por isso. Vai ser perfeito porque ela é a mulher ideal para você: inteligente e bonita.

— Típico comentário venenoso.

Rhoda olhou para mim.

— De certa forma — disse ela.

Retirou-se pretextando uma visita ao açougueiro, com quem precisava conversar. Eu disse que ia até a casa do vigário.

— Mas não para marcar a data do casamento — acrescentei.

II

 

Entrei na casa do pastor como quem entra em casa.

Encontrei a porta hospitaleiramente aberta e ao cruzar o umbral senti como se tirasse um peso dos ombros.

A Sra. Dane Calthrop vinha entrando por outra porta, carregando, não sei por que, um enorme balde plástico verde.

— Ah! é você. Já o esperava.

Entregou-me o balde. Fiquei parado sem saber o que fazer.

— Coloque-o na porta do lado de fora — disse ela impaciente.

Obedeci, em seguida fomos para a sala de visitas. A Sra. Calthrop avivou a chama da lareira e jogou uma tora de lenha ao fogo. Com um gesto convidou-me a sentar e colocando-se ao meu lado esperou ansiosamente pelas notícias.

— Bem? — perguntou. — O que tem feito?

Julgando pela intensidade da boa senhora, parecia que estávamos prestes a perder um trem.

— Estou seguindo seus conselhos.

— Ótimo. E daí?

Contei tudo.

— Hoje à noite? — murmurou a Sra. Dane Calthrop.

— Sim.

Ela ficou calada, pensando.

— Não gosto disso! Meu Deus, não gosto disso! — explodi.

— Mas não é para gostar.

— Tenho medo do que possa acontecer com Ginger.

Ela olhou para mim com um ar bondoso.

— A senhora não imagina como ela é corajosa. Se eles conseguirem de certa forma prejudicá-la...

— Não vejo como vão conseguir — disse ela vagarosamente.

— Como?

— Mas eles já fizeram mal a outras pessoas.

— É o que parece — disse ela duvidosa.

— Tomamos todas as precauções. Ela não poderá sofrer dano algum...

— Exatamente o que elas dizem que são capazes de fazer — disse a Sra. Calthrop. — Dizem que podem atingir o corpo através da mente por doença. No fundo é interessante mas horrível demais para ser verdade. Temos que pôr um fim nessa história.

— Mas é ela que está correndo o risco — resmunguei.

— Bem, alguém teria que correr este risco — disse a Sra. Calthrop, calmamente. — Você está com o orgulho ferido por não ter servido de cobaia. Ginger encaixou-se perfeitamente no esquema. É uma mulher controlada e inteligente. Tenho certeza de que ela não irá nos desapontar.

— Não estou preocupado com isso!

— Não se preocupe com o resto. Não adianta coisa alguma.

Além do mais, se ela morrer terá sida por uma boa causa.

— Que horror!

— Sempre espere o pior — aconselhou a Sra. Calthrop. — É o melhor calmante. Possui o dom de amenizar qualquer golpe.

— Talvez — murmurei.