O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 27 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo II

— É fácil inventar uma esposa, mas eles vão querer saber outros detalhes: onde ela mora, como se chama etc. Quando eu tentar desconversar...

— Você não vai desconversar. Para que a coisa seja bem feita, na hora H você vai mostrar uma esposa.

Ginger fez uma ligeira pausa.

— Segure-se bem. A esposa serei eu!

II

 

Fiquei tão espantado que não consegui dizer coisa alguma.

Só me admirei de Ginger não ter rido da minha expressão.

Quando comecei a recobrar a fala, Ginger interveio: — Não precisa ficar tão espantado. Não estou lhe pedindo em casamento.

— Você não sabe o que diz!

— Claro que sei! Estou sugerindo uma ação prática que possui a vantagem de não ameaçar uma pessoa inocente.

— Mas vai pôr sua vida em perigo.

— É problema meu.

— Não é. Além do mais quem iria acreditar nisso?

— Todo o mundo, ora essa! Alugo um apartamento para onde me mudo, dando o nome de Sra. Easterbrook... quem é que pode negar que eu seja a Sra. Easterbrook?

— Todas as pessoas que a conhecem.

— Quem me conhece não vai me encontrar pois vou inventar uma viagem. Tinjo o cabelo... sua mulher era loura ou morena?

— Morena — respondi mecanicamente.

— Ótimo! Visto-me com outras roupas, carrego na maquilagem e nem meu melhor amigo me reconhecerá. Como você não está casado há quinze anos, não vejo muita possibilidade de duvidarem da minha identidade. Por que no Cavalo Amarelo duvidariam de uma mulher que diz ser sua esposa? Se você que é o maior interessado está disposto a apostar que eu sou sua mulher, não são eles que vão questionar esta assertiva. Você não tem ligações com a polícia, disso eles sabem. Se quiserem ter certeza podem verificar no Cartório de Somerset o registro civil; podem também verificar facilmente se existe uma noiva chamada Hermia etc.... Não vejo por que duvidem.

— Você parece não querer ver os riscos, as dificuldades ...

— Que risco, que nada! — gritou Ginger. — Quero ver se você ganha esta aposta.

Olhei para Ginger com carinho. Examinei encantado as sardas, os cabelos ruivos, o espírito empreendedor. Mas, não podia deixá-la correr este risco.

— Não posso concordar, Ginger. Imagine se acontece alguma coisa?

— A mim?

— Sim.

— Mas já disse que é problema meu.

— Não. Eu a envolvi na história.

Ela sacudiu a cabeça num gesto afirmativo.

— Talvez tenha sido você, mas não creio que isto tenha tanta importância. Nós dois estamos metidos nisso e temos que deslindar esta enrascada. Estou falando sério, Mark. Não estou mais brincando. Se é verdade o que nós sabemos não podemos ficar parados. Não se trata de crimes passionais e sim da profissionalização de uma indústria odiosa que nem sequer sabe quem é a vítima. Caso tudo isto seja verdade...

— É verdade — respondi. — Por isso estou com medo.

Ginger colocou os cotovelos sobre a mesa, e começamos a discutir os prós e os contras do nosso empreendimento.

Finalmente Ginger fez o arrazoado da situação.

— Um homem prevenido vale por dois. Sei o que querem fazer contra mim e não acredito que ela consiga ir muito longe comigo. Meu desejo de morte não está bastante desenvolvido!

Tenho ótima saúde e não creio que vá sofrer de meningite ou pedras na bexiga só porque Thyrza resolveu fazer um desenho cabalístico no chão.

— Bella deve matar um galo branco em sua homenagem — disse eu.

— Você há de convir que é muita palhaçada junta — protestou Ginger.

— Nós não sabemos como elas agem.

— Por isso nossa aventura é importante. O que é inacreditável é elas pretenderem assassinar uma pessoa por telepatia.

— Realmente é duro de acreditar — concordei. — Mas eu acredito.

— Por isso estamos fazendo esta experiência.

— E que tal — sugeri eu — se nós trocássemos? Eu ficaria aqui e você seria a cliente. Poderíamos inventar...

Ginger sacudiu a cabeça com vigor.

— Não, Mark — disse ela, — não iria dar certo por vários motivos. Para começar sou conhecida no Cavalo Amarelo como Ginger. Você está bem situado: para eles não passa de um cliente nervoso que ainda não se decidiu. Temos que seguir avante desta forma.

— Não gosto de deixar você, só, num lugar, com um nome falso sem alguém para protegê-la. Primeiro acho que deveríamos ir à polícia...

— Concordo — disse Ginger, — aliás desde o começo penso assim. Você acha que alguém nos acreditaria?

— Não — disse eu, — mas poderemos tentar o Inspetor Lejeune.