O Cavalo Amarelo
Capítulo 16
Narrativa de Mark Easterbrook
I
Quando fui procurar Bradley, novamente não senti o mínimo nervoso. Achei até divertido.
— Imagine o que um homem nestas condições sentiria — disse Ginger.
Segui o conselho.
O Sr. Bradley recebeu-me com um sorriso.
— Que prazer revê-lo — disse ele, estendendo a mão. — Com que então esteve pensando no problema? Felizmente não temos pressa...
— Infelizmente eu tenho pressa. Trata-se de um caso urgente.
Bradley olhou-me com espanto, notando meu nervosismo.
— Vamos ver então o que podemos fazer pelo senhor. Quer fazer uma aposta, não é mesmo? Nada como uma aposta para distrair as ideias...
— O caso é o seguinte — disse eu, interrompendo a frase no ar.
Deixei o campo livre para Bradley agir.
— Noto que está nervoso. O senhor é um homem cauteloso, e eu aprecio a cautela. Não confia na própria mãe! O senhor não desconfia de que eu tenha um microfone escondido aqui nesta sala?
Olhei para ele como se tivesse lido meus pensamentos.
— Posso lhe garantir que não tenho aparelhagem alguma nesta sala e nossa conversa não será gravada. Caso não acredite, aliás tem todo o direito de duvidar, estou disposto a procurá-lo num outro lugar para podermos discutir...
Afiancei que não haveria necessidade.
— Muito bem. Além do mais nenhum de nós lucraria com uma chantagem desse tipo. Procuraremos, no entanto, evitar no nosso colóquio o emprego de termos que poderiam legalmente ser usados contra nós. Por exemplo, o senhor está preocupado com algo, resolve desabafar comigo, sabe que sou um homem experiente e capaz de lhe dar bons conselhos... Que lhe parece?
Gaguejei minha história.
O Sr. Bradley foi bastante solícito. Sempre que me via em dificuldades, ajudava-me com palavras ou expressões ou sorrisos encorajadores. Não levei muito tempo para descrever meu casamento desastroso com Doreen.
— Acontece frequentemente — comentou Bradley, sacudindo a cabeça. — Tão frequentemente. Um jovem inexperiente, cheio de vida, uma garota bonita e pronto! Casamento e depois...
Contei o resultado. Fui propositadamente vago em relação aos detalhes pois o tipo de homem que eu pretendia representar não entraria em detalhes sórdidos. Apresentei somente o retrato de um jovem tolo e desiludido; insinuei uma briga de casal e não neguei nem afirmei que ela tivesse outros amantes.
— Embora ela não fosse a mulher que eu imaginei, não esperava que viesse a se comportar dessa forma...
— Que forma?
— Que... ela fosse reaparecer... enfim.
— O que o senhor pensou que tivesse acontecido com ela?
— Por incrível que pareça achei que ela tinha desaparecido da minha vida.
— Por um passe de mágica? — perguntou Bradley, delicadamente. — E por quê?
— Bem, ela nunca escreveu ou mandou notícias.
— Na verdade o senhor queria esquecer-se dela...
Bradley era um fino psicólogo.
— Sim — respondi, agradecido. — Além do mais não tinha intenção de casar outra vez...
— Mas, agora tem?
— Bem.
— Fale francamente.
Admiti que queria casar de novo, recusando-me obstinadamente a dar detalhes sobre minha noiva. Minha tática pareceu acertada pois ele não insistiu.
— Compreendo. O senhor encontrou uma pessoa que poderá compreendê-lo melhor.
Uma mulher que tem os mesmos gostos e os mesmos interesses.
Percebi que ele sabia da existência de Hermia. Aliás qualquer investigação a meu respeito revelaria o fato de ela ser minha companhia constante. Certamente quando Bradley recebeu minha carta, marcando uma entrevista, imediatamente fez algumas investigações a meu respeito.
— Por que não tenta o divórcio? Não seria a solução natural?
— Fora de cogitação. Minha mulher recusa-se terminantemente a me dar o divórcio.
— Que pena! Qual a atitude dela em relação ao senhor?
— Quer voltar para mim... quer viver comigo. Não... ela sabe que eu estou apaixonado por outra e...
— E resolveu criar caso. É, realmente não vejo outra saída, a não ser que... ela é jovem?
— Muito. Ainda viverá anos!
— Isso não se sabe, Sr. Easterbrook. Ela morou no estrangeiro?
— Foi o que me disse. Não sei bem onde esteve...
— Quem sabe ela não andou pela Ásia e apanhou um germe qualquer, desses que ficam adormecidos e um dia reaparecem. Conheço alguns casos; assim, pode ser que também aconteça com sua esposa. Creio que podemos fazer uma aposta!
Sacudi a cabeça.
— Ela viverá eternamente.
— O senhor está levando uma grande vantagem, mas quero apostar mesmo assim. Aposto 150.000 libras contra uma que ela embarca antes do Natal.
— Não posso esperar tanto... — balbuciei incoerente. Quis propositadamente dar a Bradley a ideia de que estava sendo ameaçado por minha esposa.
— Então podemos modificar a aposta. 180 contra um que sua esposa embarca dentro de um mês. É uma espécie de pressentimento.
Achei que tinha chegado o momento de pedir um abatimento. Protestei que não tinha tanto dinheiro. Bradley, porém, como um bom negociante, sabia qual a quantia de que eu podia dispor; sabia também que Hermia tinha dinheiro.
Deliberadamente insinuou que quando eu estivesse casado não sentiria falta do dinheiro. Além do mais, minha pressa o colocava numa boa situação, portanto, manteve o preço.
Quando saí tinha deixado uma promissória de 180.000 libras e um contrato cheio de cláusulas legais absolutamente ininteligível.
— Este contrato tem validade legal?
— Não creio que tenhamos oportunidade de descobrir — disse Bradley, num tom desagradável. — Uma aposta é uma aposta. Se um homem não cumpre...
Olhei para ele.
— Não aconselho — disse Bradley — de forma alguma. Não gostamos de caloteiros.
— Não sou caloteiro — protestei.
— Claro que não, Sr. Easterbrook. Bem, agora vamos tomar as providências. A Sra. Easterbrook está em Londres?
— Precisa do endereço?
— Preciso de todos os detalhes. Vou marcar uma entrevista sua com Thyrza Grey. Lembra-se dela?
Respondi que sim.
— Uma mulher extraordinária. Repleta de poderes. Ela vai pedir um objeto pessoal de sua esposa: uma luva, um lenço...
— Para quê?
— Não me pergunte para quê! Eu não sei. A Sra. Grey não conta seus segredos.
— Mas como ela consegue...
— Acredite-me, Sr. Easterbrook, quando eu digo que não sei e nem quero saber. Eis meu conselho — prosseguiu Bradley, depois de uma pequena pausa. — Vá procurar sua esposa e convença-a de que está disposto a voltar para ela. Sugiro também que o senhor passe uns tempos no exterior... quando regressar...
— Então?
— O senhor irá a Much Deeping, levando uma peça qualquer de sua esposa. Quando esteve lá ficou hospedado com uma prima?
— Isso mesmo.
— Portanto nada mais simples do que passar dois dias lá.
— A maioria das pessoas o que faz?
— Uns ficam no hotel, ou se alojam na cidade vizinha... não sei.
— Que devo dizer aos meus primos?
— Que ficou impressionado com sua visita e que deseja participar de uma sessão espírita presidida por Thyrza Grey... não precisa dizer mais do que isso.
— E depois?
— Não sei. Depois disso a Srta. Grey dará as instruções necessárias. Não esqueça de levar uma luva ou um lenço. Em seguida viaje para o exterior. A Riviera Italiana é encantadora nesta época do ano... não precisa demorar, basta uma ou duas semanas.
Insisti que não poderia sair da Inglaterra.
— Pois não, pois não. Mas não fique em Londres. Não aconselho Londres.
— Por que não?
O Sr. Bradley olhou para mim com desaprovação.
— Garantimos um serviço perfeito aos nossos clientes se eles seguirem à risca nossas instruções.
— Não posso ficar em Bournemouth?
— Pode. Hospede-se no hotel e faça algumas amizades. Não se exceda em coisa alguma e se enjoar de Bournemouth vá visitar Torquay...
Bradley falava como se fosse um agente de viagens. Apertei a mão gorducha e retirei-me.