O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 29 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 16

Narrativa de Mark Easterbrook

I

Quando fui procurar Bradley, novamente não senti o mínimo nervoso. Achei até divertido.

— Imagine o que um homem nestas condições sentiria — disse Ginger.

Segui o conselho.

O Sr. Bradley recebeu-me com um sorriso.

— Que prazer revê-lo — disse ele, estendendo a mão. — Com que então esteve pensando no problema? Felizmente não temos pressa...

— Infelizmente eu tenho pressa. Trata-se de um caso urgente.

Bradley olhou-me com espanto, notando meu nervosismo.

— Vamos ver então o que podemos fazer pelo senhor. Quer fazer uma aposta, não é mesmo? Nada como uma aposta para distrair as ideias...

— O caso é o seguinte — disse eu, interrompendo a frase no ar.

Deixei o campo livre para Bradley agir.

— Noto que está nervoso. O senhor é um homem cauteloso, e eu aprecio a cautela. Não confia na própria mãe! O senhor não desconfia de que eu tenha um microfone escondido aqui nesta sala?

Olhei para ele como se tivesse lido meus pensamentos.

— Posso lhe garantir que não tenho aparelhagem alguma nesta sala e nossa conversa não será gravada. Caso não acredite, aliás tem todo o direito de duvidar, estou disposto a procurá-lo num outro lugar para podermos discutir...

Afiancei que não haveria necessidade.

— Muito bem. Além do mais nenhum de nós lucraria com uma chantagem desse tipo. Procuraremos, no entanto, evitar no nosso colóquio o emprego de termos que poderiam legalmente ser usados contra nós. Por exemplo, o senhor está preocupado com algo, resolve desabafar comigo, sabe que sou um homem experiente e capaz de lhe dar bons conselhos... Que lhe parece?

Gaguejei minha história.

O Sr. Bradley foi bastante solícito. Sempre que me via em dificuldades, ajudava-me com palavras ou expressões ou sorrisos encorajadores. Não levei muito tempo para descrever meu casamento desastroso com Doreen.

— Acontece frequentemente — comentou Bradley, sacudindo a cabeça. — Tão frequentemente. Um jovem inexperiente, cheio de vida, uma garota bonita e pronto! Casamento e depois...

Contei o resultado. Fui propositadamente vago em relação aos detalhes pois o tipo de homem que eu pretendia representar não entraria em detalhes sórdidos. Apresentei somente o retrato de um jovem tolo e desiludido; insinuei uma briga de casal e não neguei nem afirmei que ela tivesse outros amantes.

— Embora ela não fosse a mulher que eu imaginei, não esperava que viesse a se comportar dessa forma...

— Que forma?

— Que... ela fosse reaparecer... enfim.

— O que o senhor pensou que tivesse acontecido com ela?

— Por incrível que pareça achei que ela tinha desaparecido da minha vida.

— Por um passe de mágica? — perguntou Bradley, delicadamente. — E por quê?

— Bem, ela nunca escreveu ou mandou notícias.

— Na verdade o senhor queria esquecer-se dela...

Bradley era um fino psicólogo.

— Sim — respondi, agradecido. — Além do mais não tinha intenção de casar outra vez...

— Mas, agora tem?

— Bem.

— Fale francamente.

Admiti que queria casar de novo, recusando-me obstinadamente a dar detalhes sobre minha noiva. Minha tática pareceu acertada pois ele não insistiu.

— Compreendo. O senhor encontrou uma pessoa que poderá compreendê-lo melhor.

Uma mulher que tem os mesmos gostos e os mesmos interesses.

Percebi que ele sabia da existência de Hermia. Aliás qualquer investigação a meu respeito revelaria o fato de ela ser minha companhia constante. Certamente quando Bradley recebeu minha carta, marcando uma entrevista, imediatamente fez algumas investigações a meu respeito.

— Por que não tenta o divórcio? Não seria a solução natural?

— Fora de cogitação. Minha mulher recusa-se terminantemente a me dar o divórcio.

— Que pena! Qual a atitude dela em relação ao senhor?

— Quer voltar para mim... quer viver comigo. Não... ela sabe que eu estou apaixonado por outra e...

— E resolveu criar caso. É, realmente não vejo outra saída, a não ser que... ela é jovem?

— Muito. Ainda viverá anos!

— Isso não se sabe, Sr. Easterbrook. Ela morou no estrangeiro?

— Foi o que me disse. Não sei bem onde esteve...

— Quem sabe ela não andou pela Ásia e apanhou um germe qualquer, desses que ficam adormecidos e um dia reaparecem. Conheço alguns casos; assim, pode ser que também aconteça com sua esposa. Creio que podemos fazer uma aposta!

Sacudi a cabeça.

— Ela viverá eternamente.

— O senhor está levando uma grande vantagem, mas quero apostar mesmo assim. Aposto 150.000 libras contra uma que ela embarca antes do Natal.

— Não posso esperar tanto... — balbuciei incoerente. Quis propositadamente dar a Bradley a ideia de que estava sendo ameaçado por minha esposa.

— Então podemos modificar a aposta. 180 contra um que sua esposa embarca dentro de um mês. É uma espécie de pressentimento.

Achei que tinha chegado o momento de pedir um abatimento. Protestei que não tinha tanto dinheiro. Bradley, porém, como um bom negociante, sabia qual a quantia de que eu podia dispor; sabia também que Hermia tinha dinheiro.

Deliberadamente insinuou que quando eu estivesse casado não sentiria falta do dinheiro. Além do mais, minha pressa o colocava numa boa situação, portanto, manteve o preço.

Quando saí tinha deixado uma promissória de 180.000 libras e um contrato cheio de cláusulas legais absolutamente ininteligível.

— Este contrato tem validade legal?

— Não creio que tenhamos oportunidade de descobrir — disse Bradley, num tom desagradável. — Uma aposta é uma aposta. Se um homem não cumpre...

Olhei para ele.

— Não aconselho — disse Bradley — de forma alguma. Não gostamos de caloteiros.

— Não sou caloteiro — protestei.

— Claro que não, Sr. Easterbrook. Bem, agora vamos tomar as providências. A Sra. Easterbrook está em Londres?

— Precisa do endereço?

— Preciso de todos os detalhes. Vou marcar uma entrevista sua com Thyrza Grey. Lembra-se dela?

Respondi que sim.

— Uma mulher extraordinária. Repleta de poderes. Ela vai pedir um objeto pessoal de sua esposa: uma luva, um lenço...

— Para quê?

— Não me pergunte para quê! Eu não sei. A Sra. Grey não conta seus segredos.

— Mas como ela consegue...

— Acredite-me, Sr. Easterbrook, quando eu digo que não sei e nem quero saber. Eis meu conselho — prosseguiu Bradley, depois de uma pequena pausa. — Vá procurar sua esposa e convença-a de que está disposto a voltar para ela. Sugiro também que o senhor passe uns tempos no exterior... quando regressar...

— Então?

— O senhor irá a Much Deeping, levando uma peça qualquer de sua esposa. Quando esteve lá ficou hospedado com uma prima?

— Isso mesmo.

— Portanto nada mais simples do que passar dois dias lá.

— A maioria das pessoas o que faz?

— Uns ficam no hotel, ou se alojam na cidade vizinha... não sei.

— Que devo dizer aos meus primos?

— Que ficou impressionado com sua visita e que deseja participar de uma sessão espírita presidida por Thyrza Grey... não precisa dizer mais do que isso.

— E depois?

— Não sei. Depois disso a Srta. Grey dará as instruções necessárias. Não esqueça de levar uma luva ou um lenço. Em seguida viaje para o exterior. A Riviera Italiana é encantadora nesta época do ano... não precisa demorar, basta uma ou duas semanas.

Insisti que não poderia sair da Inglaterra.

— Pois não, pois não. Mas não fique em Londres. Não aconselho Londres.

— Por que não?

O Sr. Bradley olhou para mim com desaprovação.

— Garantimos um serviço perfeito aos nossos clientes se eles seguirem à risca nossas instruções.

— Não posso ficar em Bournemouth?

— Pode. Hospede-se no hotel e faça algumas amizades. Não se exceda em coisa alguma e se enjoar de Bournemouth vá visitar Torquay...

Bradley falava como se fosse um agente de viagens. Apertei a mão gorducha e retirei-me.