O Cavalo Amarelo
Capítulo II
— Você está bem? — perguntou Luigi, para a ruiva, enquanto esta amarrava um lenço na cabeça. — Lou levou a melhor, arrancando os seus cachos!
— Não doeu — respondeu a moça. — Desculpe a confusão, Luigi — acrescentou ela, sorrindo.
Com a saída do casal o bar ficou praticamente vazio.
Procurei uns trocados no bolso.
— Ela é muito boazinha — explicou Luigi, apanhando uma vassoura para varrer o tufo de cabelo e os cacos de vidro.
— Deve ter sentido uma dor horrível — comentei, pensando no chumaço caído ao chão.
— Se fosse comigo eu teria gritado até me acabar — disse Luigi. — Mas Tommy é muito bacana...
— Conhece-a bem?
— Ela vem aqui todas as noites. Chama-se Thomasina Tuckerton, mas aqui é conhecida por Tommy. Rica até não poder mais. O pai deixou uma fortuna para ela. Resultado: ela mora aqui perto num quartinho coberto de percevejos e anda com este pessoal mulambento. Todos ricos, podiam morar onde quisessem, mas não, o “quente” é viver num cortiço. Vá se entender uma coisa dessas!
— O senhor não faria isso?
— Eu!? Não sou tão louco — respondeu Luigi. — Só faturo nas costas deles.
Levantei-me para sair.
— Por que foi a briga? — perguntei.
— Tommy conquistou o namorado da outra. Ele não vale uma briga.
— A outra moça não parece ser da mesma opinião — observei.
— Ah! Lou é muito romântica — disse Luigi, num tom benevolente.
— Que romance! — quase comentei antes de me retirar.
II
Uma semana depois, mais ou menos, na coluna de óbitos do jornal, eu li a seguinte nota: “TUCKERTON — Dia 2 de outubro no Hospital de Fallowfield. Thomasina Ann, 20 anos, filha única do falecido Thomas Tuckerton. O féretro sairá da capela do Hospital.
Pede-se não enviar flores nem coroas.”
Nada de flores para a pobre Tommy e adeus vida boêmia em Chelsea. Senti uma grande pena por todas essas moças perdidas.
Mas me perguntei se tinha motivo para sentir pena. Como poderia saber se a vida dela tinha sido desperdiçada? Quem sabe não seria minha vida de pesquisador, mergulhado nos livros, fora do mundo, que era desperdiçada? A verdade é que eu não andava à cata de sensações novas. Mas será que não deveria andar? Um novo enfoque sobre minha vida que eu deveria examinar melhor.
Esqueci de Tommy Tuckerton e voltei minha atenção para as cartas que havia recebido.
Uma delas, da minha prima Rhoda Despard, pedia-me um favor. Agarrei-me à incumbência, pois não estava com vontade de trabalhar, adiando minha pesquisa para mais tarde.
Peguei um táxi e dirigi-me pára a casa de uma amiga, a Sra. Ariadne Oliver, famosa escritora de novelas policiais.
Milly, a empregada e eficiente guardiã da Sra. Oliver, abriu a porta. Ao vê-la levantei as sobrancelhas como que perguntando em que humor se encontrava a dona da casa.
— É melhor o senhor subir, Sr. Mark — disse ela. — Está com um humor daqueles! Talvez o senhor consiga melhorar sua disposição.
Subi os dois lances de escada, bati na porta e entrei sem esperar pela resposta. O escritório da Sra. Oliver era uma sala espaçosa, toda forrada de papel de parede, representando pássaros exóticos. A Sra. Oliver, num estado pré-esquizofrênico, passeava de um lado para outro, resmungando. Deu-me um rápido olhar, desinteressada, e continuou a andar, abrindo e fechando os olhos. De vez em quando olhava pela janela ou se apoiava na parede, sofrendo o que parecia ser um grande espasmo de agonia.
— Mas, por que — perguntou ela ao universo — o imbecil não diz logo que viu a cacatua? Por quê? Não podia deixar de tê-la visto! Se ele não falar nela, a história perde o sentido. Deve haver uma saída... deve haver uma saída... Em seguida, a Sra. Oliver gemeu, passou os dedos sobre os cabelos grisalhos e agarrou um punhado deles com energia. De repente, como se estivesse me vendo naquele instante, disse: — Alô, Mark! Sabe que estou enlouquecendo?
As lamúrias, porém, não tinham acabado.
— E Monica? Quanto mais faço ela ficar boa mais irritante se torna... uma perfeita idiota... burra... Monica? Este nome não lhe vai bem. Que tal Mary? Será que faria alguma diferença? Ou Joan? É um nome muito comum. Anne também. Susan? Já tive uma Susan. Lucia? Lucia! Posso visualizar uma Lucia... cabelos ruivos, col roulé, meias pretas... Por que não?
Este momento de satisfação foi rapidamente eclipsado pelo problema da cacatua. A Sra. Oliver voltou a andar pela sala, pegando coisas a esmo da mesa e colocando-as nos lugares mais incríveis. Depois guardou cuidadosamente os óculos, num estojo de madrepérola, junto com um leque chinês, e deu um grande suspiro.
— Que bom que você veio!
— Muito obrigado.
— Podia ser uma outra pessoa, uma tola qualquer que precisa da minha presença num baile a fantasia, ou um senhor que trate do seguro de Milly (aliás, não consigo fazê-la guardar as apólices num lugar só) ou o bombeiro... mas isto já seria demais, não acha? Ou quem sabe um jornalista querendo uma entrevista, só para poder perguntar: — O que fez a senhora dedicar-se à literatura? Quantos livros escreveu? Quanto ganha por mês?
Geralmente não sei responder estas perguntas e fico com cara de idiota. Hoje naturalmente não tem importância, porque estou enlouquecendo com esta maldita cacatua.
— Quer que eu vá embora? — perguntei.
— Não, fique. Preciso me distrair.
— Aceitei este elogio dúbio.
— Quer um cigarro? — perguntou, tentando ser hospitaleira.
— Devo ter um maço por aí. Olhe embaixo da tampa da máquina de escrever...
— Eu trouxe cigarros, obrigado. Aceita um? Ah! É verdade, a senhora não fuma.
— Nem bebo — disse a Sra. Oliver. — No que faço muito mal. Eu queria ser como os detetives dos policiais americanos, que vivem com garrafas de uísque embaixo da cama; parece que é o suficiente para solucionar todos os problemas. Eu não acho possível uma pessoa cometer um crime e não ser preso. Na minha opinião, assim que se comete um crime todas as pistas apontam para o culpado.
— Não é isso que a senhora conta aos seus leitores.
— Nem sempre — disse a Sra. Oliver. — A parte do assassinato é fácil, o difícil é encobrir as pistas. O culpado passa a brilhar que nem gás néon.
— Quando eu leio um livro seu quase nunca acerto o assassino.
— E o que isto me custa! — sorriu a Sra. Oliver, amargamente. — Para começar, não é natural que cinco ou seis pessoas estejam no local do crime quando B é assassinado; além do mais, para o cúmulo das coincidências, todas essas pessoas têm um motivo para querer eliminar B... a não ser que B seja um homem tão desagradável que qualquer um gostaria de se ver livre dele... mas neste caso ninguém vai se preocupar em achar o assassino e sim soltar um profundo suspiro de alívio.
— Compreendo o seu problema — disse eu. — Mas se já resolveu tantos casos complicados, vai ser capaz de resolver este também.
— É o que eu vivo me dizendo, mas não acredito e o resultado é que vivo em eterna agonia — gemeu a Sra. Oliver, dando mais uma puxadela nos cabelos.
— Pare com isso! — disse eu. — Vai acabar arrancando um tufo pela raiz!
— Não diga bobagem — respondeu a Sra. Oliver. — Cabelo não sai assim, a não ser quando eu tive sarampo, aos quatorze anos, e ardia de febre. Caiu uma porção de cabelo, bem aqui da frente. Fiquei morta de vergonha. Demorou uns seis meses para crescer de novo. É uma experiência horrível para uma mulher.
Ainda ontem pensei nisto quando fui visitar Mary Delafontaine no hospital. O cabelo dela está caindo aos chumaços; ela disse que quando ficar boa vai ter que comprar uma peruca. Acho que depois dos sessenta o cabelo não cresce mais.
— Outro dia vi uma garota arrancar o cabelo da outra pela raiz — disse eu, orgulhoso de poder relatar um acontecimento inédito, além de demonstrar como eu estava participando ativamente do mundo.
— Por onde você tem andado?
— Um café em Chelsea.
— Ah! Parece que tudo de insólito acontece em Chelsea.
Beatniks, Sputniks, caretas quadrados... não escrevo sobre eles porque tenho medo de usar as expressões erradas. É mais seguro escrever sobre o que eu sei.
— Por exemplo?
— Turistas veraneando, cruzeiros pelo Caribe, hospitais, paróquias, vendedoras, festivais de música, comitês de senhoras, jovens que pedem carona para conhecer o mundo...
Ela parou um instante para tomar fôlego.
— Já me parece o suficiente — eu disse.
— Mesmo assim você bem que podia me levar a um bar em Chelsea... para alargar meus horizontes — disse a Sra. Oliver.
— Quando a senhora quiser. Hoje?
— Hoje não posso. Estou ocupada escrevendo ou preocupada porque não consigo escrever; é a pior coisa em literatura, embora tudo nela seja terrível, a não ser quando vem uma ideia que você acha que vai funcionar e fica louca enquanto não sentar na máquina. Diga-me Mark, você acha possível matar por controle remoto?
— Como assim? Apertando um botão, emitindo um raio mortal radioativo?
— Não, não, nada de ficção científica — disse a Sra. Oliver.
— Eu me refiro à magia negra.
— Bonecos de cera cheios de alfinetes?
— Bonecos de cera não se usam mais — disse a Sra. Oliver com desprezo. — Não se pode negar que coisas estranhas acontecem na África e nas Caraíbas. É o que dizem. Contam que certos nativos se enroscam e morrem... Vodu ou Joo joo... Você sabe o que eu quero dizer...
Expliquei à Sra. Oliver que a maior parte das coisas, hoje em dia, é atribuída ao poder de sugestão. Informa-se ao nativo que ele foi condenado pelo pajé e o subconsciente completa o trabalho.
A Sra. Oliver deu uma gargalhada.
— Se alguém viesse me dar esta informação eu ficaria encantada e só sobreviveria para desapontá-lo.
— A senhora tem séculos de ceticismo no seu sangue ocidental. Não possui a predisposição necessária.
— Mas você acha que isto é possível?
— Não conheço o assunto profundamente a ponto de discuti-lo. Por que está pensando nisso? Sua última obra-prima vai chamar-se Morte por Sugestão?
— De jeito algum. Sou fã do arsênico e do veneno contra ratos. Ou uma boa faca. Não simpatizo com revólver, porque as armas de fogo são geralmente imprevisíveis. Afinal você não veio aqui para discutir sobre meus livros.
— Para dizer a verdade vim trazer um recado da minha prima Rhoda Despard. Ela está organizando uma quermesse para a igreja...
— Nem me fale nisso — interrompeu a Sra. Oliver. — Sabe o que aconteceu na última quermesse a que eu fui? Organizaram um jogo chamado Caça ao Assassino e acabaram descobrindo um cadáver. Até hoje ainda não me recuperei do susto!
— Não vai ter nada disto, a senhora vai sentar numa barraca e vender seus livros autografados.
— Ah! Bom, isso já é outra história. Não vou ter que abrir a quermesse, cortando a fita simbólica? Ou fazer discursos?
Garanti que não.
— Além disso será apenas por uma ou duas horas no máximo — acrescentei, encorajando-a. — Depois deve ter um jogo de bola ou um baile campestre ou...
A Sra. Oliver interrompeu-me com um grito agudo.
— Achei! — exclamou. — Achei! Ele assiste a tudo da janela, o jogo, a gritaria, e na confusão esquece de mencionar a cacatua!
Meu querido, que bom que você veio. Foi uma visita maravilhosa!
— Eu não...
— Claro que não, mas eu entendo e é o bastante — disse a Sra. Oliver. — É uma história muito complicada e eu não posso perder tempo explicando. Apesar de adorar sua companhia prefiro que agora vá para casa...
— E a quermesse?
— Vou pensar no caso. Agora não me amole com bobagens.
Onde terei posto meus óculos? A facilidade que as coisas têm de desaparecer...