O Cavalo Amarelo
Capítulo 12
Narrativa de Mark Easterbrook
I
Ginger telefonou três dias depois.
— Tome nota — disse ela — de um nome e um endereço.
— Pode falar.
— O nome é Bradley e o endereço é Prédio Municipal, 78, em Birmingham.
— E o que vem a ser isto?
— Como é que eu vou saber? Duvido que Poppy saiba...
— Poppy? Este é...
— Consegui arrancar este endereço dela, depois de muito custo.
— Que método você empregou?
Ginger riu.
— Conversa de mulher, você está por fora. Geralmente as mulheres confiam nos membros do próprio sexo.
— Como se fosse um sindicato?
— Mais ou menos. Almoçamos juntas e eu falei de minha vida amorosa. Inventei um homem casado com uma megera católica que não lhe daria o divórcio e transformou a vida dele num inferno. Além do mais, ela é inválida, cheia de doenças mas que não vai morrer tão cedo; aliás, seria até bom para ela que morresse. Aí eu disse que tinha ouvido falar no Cavalo Amarelo, mas que não sabia como dar o primeiro passo. Será que eles cobram muito caro? Poppy tinha ouvido dizer que os preços eram exorbitantes. Aí eu entrei com uma conversa sobre um tio-avô que vai deixar uma fortuna para mim... o que aliás é verdade, apesar de eu não ter o menor interesse em que ele morra já. Perguntei a Poppy se o pessoal do Cavalo Amarelo receberia uma garantia. Só sei que ela apareceu com este nome e este endereço. Acho bom você tentar...
— Fantástico — murmurei.
— Não é mesmo?
Ficamos uns instantes calados, ocupados com estas novas revelações.
— Ela falou sem medo? Abertamente? — perguntei, incrédulo.
— Você não entende — respondeu Ginger, impaciente. — Contar uma coisa dessas para uma amiga não tem importância.
Afinal, como é que eles vão negociar se não fazem propaganda? Na certa estão precisando de novos clientes, de maneira que precisam fazer publicidade.
— Que loucura! Como é possível acreditarmos nisso?
— Também acho que somos loucos. Mas só quero saber se você vai ou não falar com o Sr. Bradley?
— Claro que vou — respondi. — Se é que ele realmente existe.
Achei a história de Ginger incrível, mas logo descobri que era verdadeira. Cheguei sem maiores dificuldades ao Prédio Municipal e descobri que o Sr. Bradley ocupava uma sala no terceiro andar.
Numa porta de vidro lia-se, em letras pretas: C. R. BRADLEY AGENTE pode entrar
Obedeci.
Penetrei numa pequena saleta. Ao fundo uma porta entreaberta.
— Entre, entre, por favor — comandou uma voz.
Entrei num escritório espaçoso, mobiliado com uma escrivaninha, duas poltronas, um arquivo e um telefone. Atrás da mesa o Sr. Bradley, um homem baixo e moreno, de olhar brilhante e perspicaz, vestido num correto terno escuro. O retrato escrito da honestidade e da correção profissional.
— Queira fechar a porta, sim? — pediu ele, agradavelmente.
— Sente-se nesta cadeira, é mais cômoda. Aceita um cigarro?
Não? Em que posso ser-lhe útil?
Olhei para ele sem saber como principiar. Não tinha a menor ideia do que deveria dizer. Creio que o desespero me fez partir para um ataque frontal.
— Quanto custa? — perguntei.
Ele pareceu levar um susto, notei com satisfação, mas sua calma e frieza o mantiveram impassível.
— Bem, bem — disse o Sr. Bradley, — o senhor parece que não gosta de perder tempo...
Mantive minha posição.
— Qual é a resposta?
— Não é assim que vamos conseguir chegar a um acordo — retrucou ele, sacudindo a cabeça, num tom de reprovação. — Devemos observar o protocolo.
— Qual é o protocolo?
— Ainda não nos apresentamos, não é verdade? Não sei o seu nome.
— No momento não estou com vontade de dizer meu nome.
— Cuidado?
— Sim.
— A precaução é uma excelente qualidade, mas não é prática. Quem o mandou aqui? Quem foi nosso contato?
— Também não posso dizer. Um amigo de um amigo que conheceu um amigo seu...
— Geralmente trabalho com muitos clientes desta maneira — disse Bradley, meneando a cabeça. — Alguns com problemas bastante delicados. O senhor sabe qual é minha profissão, não é?
Bradley não esperou minha resposta.
— Sou um agente turfista — continuou ele. — O senhor se interessa por cavalos? Houve uma ligeiríssima pausa antes de pronunciar a última palavra.
— Não costumo jogar — respondi inseguro, sem querer me comprometer.
— É um esporte cheio de possibilidades. Veja as corridas, a caça, a criação. Eu, particularmente, me interesso por qualquer tipo de aposta...
Bradley calou-se por um momento e depois acrescentou num tom casual, casual demais, eu diria: — O senhor está interessado em algum cavalo especificamente?
Sacudi os ombros e resolvi queimar meu último cartucho.
— Um cavalo amarelo...
— Muito bem, excelente. Apesar de parecer um tipo interessado em outros cavalos... não se inquiete, por favor, não há motivo!
— É fácil falar — disse eu rudemente.
O Sr. Bradley tornou-se mais solícito ainda.
— Posso compreender muito bem seu estado de ansiedade.
Posso garantir também que não há razão para seu nervosismo. Eu, que sou advogado, ex-advogado, é claro, seria o primeiro a desaconselhá-lo de qualquer atividade ilegal. Só recomendo coisas seguras, legais. Trata-se de uma aposta e não há lei no mundo que proíba um homem de apostar no que quiser, seja na chuva de amanhã, na ida de um russo para a Lua ou nos gêmeos que talvez sua mulher esteja esperando. Pode apostar também que a Sra. B morrerá antes do Natal ou que a Sra. C vai viver muitos anos ainda. A aposta é feita, um julgamento puramente subjetivo e pessoal. Nada mais simples.
Senti-me um paciente duvidoso da habilidade de um cirurgião. Não pude deixar de admirar a competência profissional de Bradley.
— Para falar a verdade — disse eu, vagarosamente, — não conheço bem o funcionamento do Cavalo Amarelo.
— E isso o preocupa? Na verdade preocupa a maioria dos nossos clientes. Existem mais coisas no céu e na terra, Horácio* etc. etc. Para ser franco, nem eu conheço bem, mas sei que dá sempre ótimos resultados...
*Citação do Hamlet de Shakespeare.
— Se o senhor pudesse ser mais explícito...
Mantive minha posição: cuidadoso, angustiado e medroso.
Obviamente uma atitude bastante comum por parte da clientela do Sr. Bradley.
— O senhor conhece o lugar?
Seria estúpido negar.
— Conheço... estive lá com uns amigos.
— Uma estalagem maravilhosa, repleta de interesse histórico. Elas se esmeraram na restauração. O senhor conheceu minha amiga Thyrza Grey?
— Sim, claro. Achei-a uma mulher extraordinária.
— Não é mesmo? Não é mesmo? O senhor disse o adjetivo exato. Uma mulher extraordinária, dona de poderes extraordinários.
— Mas é impossível acreditar-se nela!
— Exatamente. Por isso mesmo funcionamos tão bem. Por ela dizer que torna possível o impossível. Imagine esta conversa num tribunal...
Os olhos de Bradley faiscaram de contentamento.
— Num tribunal — repetiu ele, destacando as palavras, — tudo seria considerado ridículo. Se esta mulher declarasse que é capaz de matar por controle remoto ou pelo poder da vontade a confissão seria invalidada. Mesmo se fosse verdade (mas nós que somos homens inteligentes sabemos que não é) o caso não poderia ser registrado legalmente, pois o assassinato por controle remoto não é assassinato, é fantasia! A beleza da nossa organização está justamente nesta discrepância.
Compreendi que Bradley estava tentando me tranquilizar.
Um assassinato cometido através de poderes ocultos não é um assassinato para um tribunal inglês; já se eu contratasse um sicário para matar alguém seria preso como cúmplice e assessório ao crime. Agora, o fato de contratar Thyrza Grey para eliminar alguém, empregando o ocultismo, não poderia me incriminar de forma alguma.
— Mas, com os demônios — explodi. — Não é possível.
— Concordo com o senhor plenamente. Thyrza Grey é uma mulher extraordinária, dona de poderes extraordinários, mas é impossível acreditarmos nela. Como o senhor mesmo disse, é fantástico! Impossível, portanto, no século XX, acreditarmos que uma pessoa, numa estalagem, no interior da Inglaterra, através de um médium, emita ondas curtas capazes de causar a morte ou mesmo uma doença numa vítima que se encontra em Londres ou Capri.
— Mas ela diz que é capaz!
— Pois não. Ela é irlandesa e eles são conhecidos pelos poderes ocultos. Entre nós o que eu acredito, e acredito piamente — disse Bradley, sacudindo o dedo para mim, enfaticamente, — é que Thyrza Grey sabe de antemão quando uma pessoa vai morrer.
É um dom.
Bradley reclinou-se na poltrona e ficou um instante me observando.
— Faça de conta que o senhor, por exemplo, deseja saber quando sua tia-avó Eliza vai morrer. Um dado importante e útil de se ter conhecimento por razões financeiras. Sabe-se lá se a pobre Eliza ainda vai durar mais dez anos alimentada pelos médicos?
Apesar de o senhor adorar sua tia, seria útil saber quando ela passará desta para melhor.
Bradley fez uma pausa para melhor apreciar o efeito dás suas palavras.
— É aí que eu entro. Sou um apostador, disposto a apostar qualquer coisa, dentro dos meus limites, é claro. O senhor me procura e naturalmente por delicadeza de sentimentos hesita em apostar sobre a duração da vida de um ente querido. Portanto, formulamos a aposta da seguinte forma: o senhor aposta que sua tia Eliza estará viva e feliz até o fim do ano e eu aposto que não. — Os olhos brilharam novamente.
— Nada de ilegal, não é? Simples! Podemos até discutir o assunto, num bar. Eu acho que tia Eliza está fadada a morrer breve, o senhor acha que não. Eu digo que não dou quinze dias para a publicação da nota de falecimento, o senhor discorda. Se tiver razão eu pago a aposta, se eu tiver razão o senhor paga.
Olhei para Bradley. Tentei imaginar como agiria um homem que desejasse a morte da tia. Em seguida imaginei-me vítima de um chantagista, um sanguessuga que vinha me arrancando dinheiro há anos. Eu queria matá-lo, mas não tinha coragem...
quando falei novamente estranhei o tom convicto da minha voz.
— Quais são os termos?
O Sr. Bradley transformou-se num risonho e saltitante homem de negócios.
— Depende de vários fatores, baseando-se na quantia que a pessoa pretende receber. Às vezes, também levamos em conta as posses do cliente. Um marido indesejável ou um chantagista, por exemplo, estão valorizados na proporção que o cliente pode pagar.
Devo deixar claro, porém, que não costumo apostar com clientes pobres, a não ser nos casos citados.
O Sr. Bradley deu um suspiro como que se desculpando do lado pouco filantrópico da sua organização.
— No caso da sua tia Eliza, por exemplo, o preço depende da herança que ela vai deixar. Os termos, portanto, são a combinar, uma vez que ambos lucraremos. Devo adiantar que nossa margem de apostas é na proporção de quinhentos a um.
— Quinhentos a um? É bastante alta.
— Nossos preços também são altos. Caso tia Eliza tivesse seus dias contados e o senhor soubesse disso não haveria razão para me procurar. Uma base de 5.000 libras não é uma aposta muito cara quando se tem em vista muito mais.
— E se o senhor perder?
O Sr. Bradley deu de ombros.
— Seria uma pena. Só me restaria pagar.
— Caso contrário, a despesa é minha. E se eu não quiser pagar?
O Sr. Bradley recostou-se na poltrona, semicerrando os olhos.
— Não aconselho esta medida — disse ele suavemente. — Realmente não aconselho.
Apesar do tom de voz ter sido suave, senti um arrepio na espinha. Uma terrível ameaça estava explícita nas suas palavras.
— Preciso de tempo para pensar — disse eu, levantando-me.
O Sr. Bradley reverteu ao papel de bondoso e compreensivo corretor.
— Claro, não há pressa. Se quiser estamos aqui prontos para lhe atender. Não se preocupe conosco, pense bem.
Saí com estas palavras ecoando nos ouvidos.