O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 23 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo II

— Muito obrigado, não é necessário.

Desliguei. Telefonei para Rhoda.

— Ginger? — perguntou Rhoda. — Mora em Calgary Place, n° 45. Espere aí que vou dar o telefone... é 35787. Anotou?

— Sim, obrigado. Qual é o sobrenome dela?

— É Corrigan. O nome completo dela é Ginger Katherine Corrigan. O que você disse?

— Nada... obrigado, Rhoda.

Pareceu-me uma estranha coincidência. Corrigan! Seria um aviso? Disquei o número.

II

 

Ginger encontrou-se comigo para tomar um drinque num bar chamado Cacatua Branca. Confirmei minha impressão sobre ela: uma bela ruiva, sardenta, de olhos verdes sempre alertas.

— Levei um certo tempo para descobri-la — disse eu. — Não sabia seu sobrenome, seu endereço ou seu telefone. Estou com um problema.

— Minha empregada disse que pela sua voz tinha certeza de que você estava em apuros.

— Não é bem isso. Ouça...

Contei em poucas palavras o mesmo que havia relatado a Hermia. Como temesse um sorriso de indulgência ou um incrédulo espanto refletido nos verdes olhos, evitei olhar para ela.

O conteúdo da história me pareceu mais absurdo ainda, e achei que realmente só a Sra. Dane Calthrop poderia me compreender.

Disfarçadamente fiquei desenhando com um garfo a toalha de plástico.

— É tudo? — perguntou Ginger, vivamente.

— É — concordei.

— O que pretende fazer?

— Ainda não sei, mas não posso ficar parado enquanto uma organização dessas satisfaz uma clientela criminosa.

— O que acha que posso fazer?

Tive que me conter para não beijá-la. Ginger calmamente continuava sorvendo seu Pernod. Deste momento em diante não me senti mais só.

— Você vai ter que descobrir tudo — disse ela, depois de uma pausa.

— Concordo, mas como?

— Acho que existem dois caminhos e talvez eu possa ajudá-lo.

— Mas, e o seu emprego?

— Não me ocupa o dia inteiro — respondeu ela. — Esta tal de Poppy deve saber algo mais... não tenho a menor dúvida...

— Eu sei que sabe, mas quando tentei averiguar ela se assustou.

— Comigo seria diferente — sorriu Ginger. — Para mim ela diria coisas que não contaria a você. Procure arranjar um encontro, para irmos ao teatro ou um jantar. Se não lhe atrapalhar financeiramente, é claro.

Assegurei-lhe que meus problemas eram outros.

— Quanto a você — prosseguiu Ginger, — creio que deve partir do caso de Thomasina Tuckerton.

— Como, se ela morreu?

— E alguém queria que ela morresse... se é que sua teoria tem algum fundamento. Se foi combinado no Cavalo Amarelo existem duas suspeitas. A madrasta ou a moça com quem ela brigou no restaurante. Qualquer uma das duas pode ter contratado os serviços do Cavalo Amarelo. Como era o nome da outra moça?

— Acho que era Lou.

— Uma loura de cabelo cinza, alta, bem servida de busto?

Concordei com a descrição.

— Acho que sei quem é. Lou Ellis, que por sinal também tem bastante dinheiro.

— Não parecia.

— É moda hoje em dia não parecer rica. De qualquer maneira, Lou poderia pagar a tarifa do Cavalo Amarelo. Imagino que eles não trabalhem de graça.

— Não creio.

— Enquanto isso, você vai visitar a madrasta...

— Não sei onde mora nem...

— Luigi deve saber. Além do mais, você viu o comunicado da morte de Thomasina no jornal. Basta procurar nos arquivos do jornal.

— Tenho que arranjar um pretexto para procurar essa senhora.

Ginger garantiu que não seria difícil.

— Você é um homem conhecido — continuou ela, animadamente. — Um historiador, um conferencista, um autor. A Sra. Tuckerton ficará impressionada e feliz de conhecê-lo.

— Sob que pretexto?

— Alguma peça de interesse da casa dela, por exemplo? — sugeriu Ginger. — Deve haver algo antigo ...

— Mas eu sou historiador.

— Ela não precisa saber. Além do mais, para a maioria das pessoas qualquer objeto com mais de cem anos passa a ter interesse histórico ou arqueológico. Talvez um quadro? Deve haver um quadro qualquer. Enfim, você tenta marcar uma entrevista, encanta a mulher com seu charme e casualmente refere-se à filha dela, ou melhor, à enteada. De repente, sem maiores explicações, faz menção sobre o Cavalo Amarelo. Seja até um pouco sinistro, se quiser.

— E daí?

— Daí observe as reações. Se falar no Cavalo Amarelo e ela tiver culpa no cartório, duvido que não demonstre coisa alguma...

— Caso demonstre, que faço eu?

— O importante é sabermos se estamos na pista certa.

Quando tivermos certeza teremos que agir de outra forma. Além do mais — prosseguiu Ginger, — por que será que Thyrza Grey falou tão abertamente com você?

— Porque é louca?

— Não é só por isso. Por que escolheu você em particular? Tinha tanta gente. Deve haver uma razão.

— Por exemplo?

— Espere aí, deixe-me pensar. Ficamos uns instantes calados.

Suponha que Poppy saiba vagamente o que acontece no Cavalo Amarelo, não por ser uma participante da organização, mas porque ouviu alguma conversa. Aliás, ela parece ser o tipo de pessoa de quem não se toma muito conhecimento por ter cara de débil mental. Pois bem, quem sabe alguém ouviu a conversa que vocês tiveram no restaurante? E a ameaçou? No dia seguinte, quando você foi procurá-la, ela já estava apavorada... mas o que deve ter intrigado a organização é o seu interesse por eles. Eles sabem que você não é da Polícia, portanto o mais provável é que você talvez seja um possível cliente.

— Mas com certeza...

— É o mais lógico. Você ouviu um boato e quer descobrir a fonte para poder usufruir dos seus benefícios. Aparece numa quermesse, é levado ao Cavalo Amarelo, e quem sabe não forçou a ida? Em seguida, o que acontece? Thyrza Grey lança mão do mostruário de vendas!

— Pode ser — concordei. — Você acha que ela é capaz de matar a longo alcance?

— Para dizer a verdade, não. Mas as coisas mais estranhas acontecem. Veja o hipnotismo, por exemplo: você manda uma pessoa dar uma mordida numa vela. No dia seguinte, sem saber por que, a pessoa às quatro horas da tarde levanta-se e dá uma mordida na vela! São coisas estranhas... quanto a Thyrza, não creio que seja capaz, mas Deus nos livre se ela tiver razão.

— É exatamente o meu ponto de vista.

— Vou averiguar o mais que puder sobre Lou — disse Ginger. — Sei onde encontrá-la. O primeiro passo, porém, é Poppy.

Não foi difícil marcar o encontro. Três dias depois nos encontramos para ir ao teatro, David com Poppy a tiracolo, Ginger e eu. Mais tarde fomos jantar no Fantasie, onde Ginger e Poppy depois de horas no toalete reapareceram felicíssimas. Durante o jantar não houve discussões controvertidas, segundo sugestão de Ginger. Finalmente, nos despedimos amigavelmente e eu levei Ginger para casa.

— Não tenho muito que contar — disse ela. — Estive com Lou, ontem. O causador da briga foi Gene Pleydon, um tipo indesejável, que faz muito sucesso com as mulheres. Parece que estavam de romance quando Tommy apareceu e, como era mais rica, Gene largou Lou no ato, o que naturalmente a enfureceu.

Quanto à briga, ela disse que não passou de uma forte discussão.

— Forte discussão!? Ela arrancou os cabelos de Tommy pela raiz!

— Estou contando a versão de Lou. É uma moça franca que fala dos seus casos para quem quiser ouvir. Tem um novo caso, por quem está loucamente apaixonada, portanto não parece ser cliente do Cavalo Amarelo. Além do mais, quando falei da estalagem, ela não tomou conhecimento. Creio que podemos eliminá-la da lista de suspeitos. Luigi, por seu lado, também não achou a briga muito séria; acha que Tommy estava realmente interessada em Gene, no que era correspondida. E a madrasta?

— Está no exterior, deve voltar amanhã. Mandei minha secretária escrever uma carta, marcando um encontro.

— Ótimo. Espero que tudo dê certo.

— Será?

— Uma das pistas vai funcionar — respondeu Ginger entusiasmada. — Outra coisa, segundo você me disse, o padre Gorman foi assassinado porque ouviu a confissão de uma mulher.

Que aconteceu com esta mulher? Morreu? Quem era ela?

— Morreu mas não sei coisa alguma sobre ela. Acho que se chamava Davis.

— Não pode descobrir mais?

— Vou ver.

— Poderemos descobrir o que ela sabia quando morreu.

— Entendo.

No dia seguinte telefonei para Jim Corrigan.

— Deixe ver... conseguimos algumas informações sobre a mulher... seu nome de solteira era Davis... tenho uns apontamentos sobre a investigação. Cá estão! O nome dela de casada era Archer, foi casada com um larápio de quem se divorciou. Voltou a usar o nome de Davis.

— Que tipo de larápio era Archer? Onde se encontra atualmente?

— Nada de importante. Roubava objetos das lojas. Preso várias vezes. Atualmente se encontra no cemitério, morto.

— Por esse lado não iremos longe. Continue.

— A firma em que a Sra. Davis trabalhava, por ocasião do seu falecimento, chama-se R.C.C. (Reação Classificada de Consumidores) e lá não souberam informar muita coisa nem sobre ela nem sobre o seu passado.

Agradeci e desliguei.