O Cavalo Amarelo
Capítulo 25
Narrativa de Mark Easterbrook
I
A vida em Much Deeping retornou ao normal.
Rhoda, ocupada com os cachorros; desta vez, creio que o problema era vermes...
Assim que me viu entrar, perguntou se eu queria dar uma ajuda. Recusei prontamente, pois queria saber onde estava Ginger.
— Foi ao Cavalo Amarelo.
— O quê?
— Disse que tinha que resolver um assunto lá...
— Mas a casa está vazia!
— Eu sei.
— Ela ainda está cansada, não está em condições de...
— Você parece uma galinha, falando dos pintinhos! Ela está ótima. Você já leu o último livro da Sra. Oliver: A Cacatua Branca?
Está em cima da mesa.
— Deus abençoe a Sra. Oliver e Edith Binns.
— Quem é Edith Binns?
— Uma senhora que identificou uma fotografia, além de ter sido governanta da minha madrinha.
— Você enlouqueceu? Não fala mais coisa com coisa...
Saí sem dar resposta. Resolvi ir ao Cavalo Amarelo. No caminho encontrei a Sra. Dane Calthrop, que me acolheu efusivamente.
— Eu sabia que estava me deixando enganar pela encenação daquelas mulheres.
Ela fez um gesto com o braço, indicando a estalagem vazia.
— A maldade não estava lá, como supúnhamos. Nada de conluios com o Demônio ou invocações mágicas. Simplesmente uma organização criminosa sórdida e mesquinha.
— O Inspetor Lejeune também acha.
— Gosto dele — disse a Sra. Dane Calthrop. — Vamos ao Cavalo Amarelo buscar Ginger.
— O que ela foi fazer lá?
— Limpar uma coisa.
Entramos e fomos invadidos por um forte cheiro de terebintina. Ginger, cercada de trapos e vidros, olhou para nós; ainda estava pálida e magra, usava um lenço na cabeça para cobrir os lugares onde tinha perdido cabelo.
— Ela está bem — disse a Sra. Dane Calthrop, lendo meus pensamentos.
— Olhe! — exclamou Ginger, triunfante.
Ela mostrou a velha tabuleta da estalagem. A ferrugem tinha sido removida e podia ver-se a figura de um esqueleto, com uma foice na mão, montado num cavalo amarelo.
— Apocalipse, Sexto Capítulo, oitavo verso. “E apareceu um cavalo amarelo; e o que estava montado sobre ele tinha por nome MORTE, e seguia-o o Inferno” — disse a Sra. Calthrop, atrás de mim, citando a Bíblia.
Por alguns instantes ficamos em silêncio, até sermos novamente interrompidos pela mulher do pastor.
— Então era isso! — disse ela, num tom de quem despeja um resto de comida podre na lata do lixo. — Tenho que ir andando para a reunião das mães.
Na porta a Sra. Dane Calthrop parou e virou-se para Ginger.
— Você seria uma excelente mãe. Ginger.
Ginger enrubesceu.
— Você quer, Ginger? — perguntei.
— Quero o quê? Ser uma boa mãe?
— Você sabe o que eu quero dizer.
— Talvez, mas prefiro uma proposta mais definitiva.
Fiz a proposta.
Horas depois Ginger perguntou: — Você tem certeza de que não quer se casar com Hermia?
— Meu Deus! Tinha até esquecido dela.
Tirei uma carta do bolso.
— Recebi esta carta dela há três dias. Ela me convidou para ir ao teatro assistir a Trabalhos de Amor Perdidos.
Ginger arrancou a carta da minha mão e rasgou-a em pedaços.
— Daqui em diante você só vai ao teatro comigo.
Você terminou O Cavalo Amarelo
Agatha Christie