O Cavalo Amarelo
Capítulo III
— Cavalo Cor-de-Rosa?
— Esses bares modernos tipo inferninho. Se não for cor-de-rosa é amarelo!
— O que a senhora quer dizer com Cavalo Amarelo?
— Não é o nome da boate local? Ou será cor-de-rosa? Ou é outra loucura que eu imaginei...
— Como vai a cacatua? — perguntei.
— A cacatua? — perguntou a Sra. Oliver, atônita.
— E o jogo de futebol?
— Francamente — disse a Sra. Oliver, indignada. — Ou você está louco ou andou bebendo. Que conversa! Cavalo cor-de-rosa, cacatua, jogo de futebol!
Desligou o telefone. Fiquei uns instantes pensando sobre o Cavalo Amarelo quando o telefone tocou. Era Soames White, famoso advogado, me informando de que, segundo o testamento da minha madrinha Lady Hesketh-Dubois, eu deveria escolher três quadros da coleção da falecida.
— Nada de grande valor, é claro — disse o Dr. Soames, no seu tradicional tom de derrotismo. — Mas sei que o senhor desejaria guardar alguma recordação da sua madrinha.
— Ela tinha umas aquarelas com cenas indianas muito bonitas — disse eu. — Creio que o senhor me escreveu sobre isso, mas acho que me esqueci.
— É verdade — disse o advogado. — Porém o inventário chegou ao fim e temos que distribuir as peças aos herdeiros antes do leilão. Por favor, passe pela casa de Lady Hesketh na Praça Ellsmere.
— Pode deixar — disse eu — vou agora mesmo. Afinal de contas não estava com a menor vontade de trabalhar.
III
Com as três aquarelas debaixo do braço, retirei-me da casa da minha tia. Na entrada esbarrei com um cavalheiro e enquanto pedia desculpas percebi que se tratava de um velho conhecido.
— Corrigan? — exclamei.
— Ora... Mark Easterbrook?
Tínhamos sido colegas em Oxford, mas não nos víamos há uns quinze anos.
— Quando esbarrei em você, achei que o conhecia, mas não sabia de onde — disse Corrigan. — Volta e meia leio seus artigos no jornal. São excelentes!
— E você, continua fazendo pesquisas? — perguntei.
Corrigan suspirou.
— Muito pouco. Sai muito caro por conta própria... a não ser que apareça um milionário que queira financiar meus estudos.
— Ainda sobre os parasitas do fígado?
— Que memória! Não, esse trabalho eu abandonei.
Atualmente me dedico às propriedades das secreções das glândulas mandarianas. Você naturalmente não sabe o que é isso!
Mas tem uma grande relação com o humor, apesar de aparentemente não servirem para nada.
Corrigan falava com o entusiasmo de um cientista.
— Por que este interesse pelas glândulas?
— Bem — respondeu Corrigan, quase se desculpando. — Eu acho que elas influenciam o comportamento. Para ser mais específico, para mim essas glândulas funcionam como o fluido dos freios de um automóvel. Se não pomos fluido os freios não funcionam. Nos seres humanos, uma deficiência destas secreções poderá ou não transformá-lo num assassino.
Dei um assobio de admiração.
— Mas aonde vai parar o pecado original?
— Sei lá — respondeu Corrigan. — Sei que os padres não vão gostar desta história. Até o presente não consegui interessar pessoa alguma nesta teoria.
— Estou trabalhando como médico legista da Polícia. Para mim é interessante porque encontro vários tipos de assassinos. Se quiser se aborrecer mais um pouco eu o convido para almoçar.
— Com prazer — respondi. — Mas você não ia entrar?
— Não propriamente, eu ia só dar uma espiada.
— Tem uma servente tomando conta.
— Foi o que pensei. Estou querendo saber uma coisa sobre a falecida Lady Hesketh-Dubois.
— Acho que posso informá-lo melhor do que a servente. Ela era minha madrinha.
— É mesmo? Que sorte a minha! Onde vamos almoçar!
Conheço um restaurante na Praça Lowndes que serve uma sopa de mariscos maravilhosa.
Fomos ao restaurante indicado por Corrigan. Os garçons, vestidos de marinheiros franceses, nos serviram um enorme bouillabaisse.
— Está ótimo — comentei. — Diga, Corrigan, o que quer saber sobre minha madrinha? E por quê?
— É uma história bastante longa — respondeu Corrigan. — Primeiro descreva sua madrinha.
Fiquei uns instantes pensativo.
— Era uma senhora convencional, tipo viúva vitoriana. O
marido tinha sido ex-governador numa das ilhas. Era rica, gostava de viver bem; costumava passar o inverno no Estoril. A casa era horrenda, repleta de mobília vitoriana e da mais hedionda coleção de prata da Inglaterra. Lady Hesketh-Dubois não tinha filhos mas cuidava de um casal de poodles. Era dogmática e reacionária, boa mas contraditória. Sabia sempre o que queria. Que mais quer saber?
— Não sei — disse Corrigan. — Você acha que ela seria capaz de ser vítima de uma chantagem?
— Chantagem? — perguntei espantado. — Não posso imaginar como! Afinal, o que houve?
Soube então, pela primeira vez, das circunstâncias que envolveram o crime do padre Gorman.
— A lista de nomes, deixe-me ver — disse eu, apoiando a colher no prato.
— Esta aqui é uma cópia.
Peguei o papel.
— Parkinson? Conheço dois Parkinsons. Arthur que entrou na Marinha e Henry que trabalha no Ministério. Ormerod...
conheço um major Ormerod Tuckerton? Será Thomasina Tuckerton, por acaso?
Corrigan olhou para mim curioso.
— Pode ser. O que você sabe sobre ela?
— Nada. Li a notícia da morte dela no jornal.
Corrigan suspirou.
— Shaw... conheço um dentista chamado Shaw — disse eu, prosseguindo a leitura da lista. — Além de Jerome Shaw...
Delafontaine... ouvi este nome recentemente, não me lembro onde.
Corrigan... será você?
— Desejo ardentemente que não. Tenho a sensação de que quem está nesta lista tem os dias contados.
— Pode ser. Por que você pensou em chantagem?
— Foi uma sugestão do Inspetor Lejeune. Parecia a razão mais provável... se bem que possa ser uma lista de traficantes, espiões, contrabandistas, enfim qualquer coisa. A única pista é que a lista é tão valiosa que para consegui-la cometeram um assassinato.
— Você sempre se interessa pelo lado policial do seu trabalho? — perguntei.
Corrigan sacudiu a cabeça.
— Não. Meu interesse é no caráter, no desenvolvimento, na criação e nas glândulas dos criminosos.
— Por que este interesse nesta lista de nomes?
— Nem eu mesmo sei — respondeu Corrigan, vagarosamente. — Talvez por constar nela o meu sobrenome. Sempre estarei disposto a defender o nome dos Corrigan.
— Se está disposto a defender quer dizer que acha que os componentes desta lista são vítimas e não agressores. Convenhamos que tanto podem ser uma coisa como outra...
— Você tem razão. O estranho é este pressentimento de que algo irá acontecer com essas pessoas. Ou talvez algo relacionado com o padre Gorman a quem eu conhecia ligeiramente mas sabia ser um sujeito respeitado e querido pela congregação. Não consigo tirar da cabeça a ideia de que para ele esta lista era uma questão de vida ou de morte...
— E a Polícia o que acha?
— Essas coisas levam tempo. Verificam todos os detalhes...
as discrepâncias. Estão verificando as informações da mulher que chamou o padre.
— E descobriram?
— Até agora, nada. Era viúva. No começo pensamos que o falecido marido tivesse alguma relação com corridas de cavalo, mas não era verdade. Ela trabalhava em consultas de opinião pública, uma firma pequena mas conhecida. O pessoal lá não a conhecia bem, só sabiam que ela era proveniente do Norte da Inglaterra. A única coisa estranha sobre ela era a pequena quantidade de objetos pessoais que possuía.
Encolhi os ombros.
— É um mundo de solitários, meu caro Corrigan, muito mais do que nós imaginamos.
— Acho que tem razão.
— Mas enfim, você resolveu fazer algumas averiguações?
— É. Hesketh-Dubois por exemplo é um sobrenome raro.
Pensei perguntar coisas sobre a... — Corrigan fez uma pequena pausa — mas pelo que você já disse não tem coisa alguma a descobrir.
— Minha madrinha não era viciada, nem traficante de entorpecentes — frisei. — Certamente não era espiã e sua vida particular era tão imaculada que não oferecia campo para chantagens. Não sei por que ela estaria nesta lista... lembro-me também de que ela mantinha as joias num cofre do banco, de maneira que não poderia ser assaltada...