O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 5 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 2

 

 

I

A Sra. Gerathy abriu a porta da sacristia com a habitual eficiência; o fato de ouvir a campainha e consequentemente lutar contra a porta emperrada era um desafio do qual ela sempre saía vencedora.

— O que quer? — perguntou mal-humorada a um menino, igual a muitos outros, que estava parado na porta. Parecia estar resfriado pois fungava quando falava.

— É aqui a casa do padre?

— Está procurando o Padre Gorman?

— Estão.

— Quem, onde, e por quê?

— Na Rua Benthal, 23. Uma mulher que está morrendo pediu um padre. Quem me mandou foi a Sra. Coppins, a senhoria.

A Sra. Gerahty disse ao menino para esperar e foi chamar o padre.

— Sou o Padre Gorman — disse o velho religioso. — Rua Benthal, é? Perto dos trilhos da estação?

— É lá mesmo.

O padre apanhou uma pasta e saiu com o menino.

— Você falou na Sra. Coppins?

— É a senhoria. Parece que aluga quartos. Uma das pensionistas é que chamou pelo senhor. Acho que se chama Davis...

— Davis? Não conheço. Por que será?

— Ela é católica, sim. Disse que um outro padre não servia...

O padre fez um sinal de assentimento com a cabeça.

Rapidamente atingiram a Rua Benthal; o menino indicou uma das casas.

— É ali.

— Você não vem?

— Eu não moro aqui. Só ganhei uma gorjeta da Sra. Coppins para ir chamar o senhor.

— Ah! Como é seu nome?

— Mike Potter.

— Obrigado, Mike.

— Não tem de quê — respondeu o menino, que se retirou assobiando.

A presença da morte não parecia impressioná-lo.

Uma mulher de cabelos vermelhos, a Sra. Coppins, abriu a porta e recebeu o padre.

— Entre, entre — disse sem entusiasmo. — Acho que ela está péssima. Devia estar no hospital e não aqui. Já chamei a ambulância mas sabe Deus quando pretendem chegar. Meu cunhado quando quebrou a perna teve que esperar seis horas. É

um absurdo! Medicina socializada! Levam o dinheiro mas quando se precisa deles...

Enquanto falava, conduzia o padre, pelas escadas, até o segundo andar.

— O que ela tem?

— Uma gripe muito forte. Quando parecia bem melhor resolveu sair. Ontem, quando voltou, parecia um cadáver. Foi direto para cama sem comer. Também não queria médico. Hoje de manhã encontrei-a ardendo de febre. Acho que pegou os pulmões.

— Pneumonia — disse o padre.

A Sra. Coppins, quase sem fôlego pelo esforço de galgar as escadas, fez um ruído semelhante a um apito para expressar concordância. Abriu a porta e postou-se de lado, para dar entrada ao padre, gritando para a doente: — Não era o padre que você queria? Cá está ele! Agora tudo vai dar certo.

Com este alegre prognóstico retirou-se.

O padre entrou num quarto muito bem arrumado, mobiliado à vitoriana. Sobre a cama, perto da janela, uma mulher virou o rosto com dificuldade. O padre percebeu logo que estava prestes a morrer.

— O senhor veio... não tenho tempo — disse ela, lutando contra a falta de ar.

— A maldade, a maldade... preciso... não posso morrer assim... confessar... confessar... meus pecados.

Os olhos da doente reviraram e por uns instantes ficaram semicerrados. Um cantochão monocórdico escapou de seus lábios.

O padre Gorman aproximou-se da cama. Falou, como sempre fazia, as mesmas frases de autoridade, apoio, fé e esperança. A paz invadiu o quarto; dissipou-se a agonia do rosto torturado.

Assim que terminou a extrema-unção a moribunda falou.

— Deve impedi-los... impedi-los... o senhor conseguirá.

— Farei tudo o que for necessário. Confie em mim — disse o padre num tom confiante.

A ambulância chegou e foi recebida pela Sra. Coppins.

— Como sempre tarde demais! — disse ela num tom triunfante. — Ela já morreu!