O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 6 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo II

 

O padre Gorman voltou para casa, enfrentando a escuridão.

O nevoeiro crescia de densidade a cada minuto. Ele parou um momento: “Que história impressionante”, pensou. “Seria delírio da pobre mulher? Ou uma confissão motivada pela febre?” É claro que existia um fundo de verdade. De qualquer maneira seria conveniente anotar os nomes enquanto estavam frescos na memória. Olhou o relógio, e percebeu que já estava atrasado para a reunião com os associados de São Francisco.

Entrou num bar, pediu um café e sentou-se. Apalpou o bolso interno da batina. — Ah! A Sra. Gerathy havia esquecido de costurar o bolso. Como sempre aliás! A caderneta de notas, um lápis e algumas moedas tinham escorregado para dentro do forro.

Conseguiu apanhar o lápis e algumas moedas, mas a caderneta, apesar dos esforços, foi impossível. Quando o café chegou ele pediu um pedaço de papel.

— Este serve?

Era um pedaço de papel de embrulho. O padre agradeceu e começou a escrever uns nomes — o importante era não esquecer os nomes, ainda mais ele que não conseguia guardar o nome de ninguém.

A porta abriu-se e três rapazes entraram, fazendo uma grande algazarra.

O padre terminou a lista; dobrou o papel e ia colocá-lo no bolso quando lembrou-se do furo. Resolveu colocar dentro do sapato, como era seu hábito.

Um homem entrou e sentou-se num canto. O padre bebericou mais uns golpes do ralo café, pediu a conta e saiu.

O homem que acabara de entrar pareceu mudar de ideia.

Olhou o relógio como se tivesse perdido a hora e saiu rapidamente.

O nevoeiro aumentou de densidade. O padre apressou o passo; como conhecia bem a zona, resolveu tomar um atalho que encurtaria o caminho, ou talvez ele tivesse ouvido passos que pareciam segui-lo. Mas, por quê?

A paulada o apanhou desprevenido. Ele cambaleou e caiu...

III

 

O Dr. Corrigan entrou na sala do Inspetor Lejeune assobiando.

— Já fiz o padre — disse.

— E o resultado?

— Vou deixar os termos técnicos de lado. Uma boa paulada.

Morreu na hora. O assassino porém quis ter certeza, por isso fez aquele estrago.

— Nem fale — comentou Lejeune.

O Inspetor era um homem forte, de olhos verdes e cabelos castanhos. Apesar de parecer calmo, seus gestos, as vezes bruscos, revelavam sua ascendência huguenote.

— Não havia necessidade de ter tanta certeza se fosse um roubo.

— E foi um roubo? — perguntou o médico.

— É o que se suspeita. Os bolsos revirados e o forro da batina rasgado.

— Não deviam estar contando com muita coisa — disse o médico. — Geralmente esses padres são pobres como ratos de igreja.

— Esmagaram a cabeça do homem — disse Lejeune. — Gostaria de saber por quê!

— Por dois motivos — disse Corrigan. — Primeiro: um delinquente tarado que gosta de ver sangue, espécie que infelizmente prolifera atualmente.

— E segundo?

O médico deu de ombros.

— Alguém tinha raiva do padre. Não é possível?

Lejeune sacudiu a cabeça.

— De jeito algum. O padre era muito querido no bairro, não tinha inimigos.

Um assalto também não parece provável, a não ser que...

— Não me diga que a Polícia já tem uma pista — disse Corrigan.

— Não levaram uma coisa que ele guardou no sapato.

Corrigan assoviou.

— Parece história de espionagem.

Lejeune sorriu.

— É mais simples talvez. Ele estava com um bolso da batina furado. O sargento Pine conversou com a governanta que parece ser meio relaxada; não remendava as roupas dele como devia, ela mesma concordou. Para não perder as coisas o padre tinha por hábito enfiar dinheiro ou certos bilhetes nos sapatos.

— Mas o assassino não sabia disso?

— Nem pensou nisso. Se é que o que ele estava procurando era aquele pedaço de papel e não alguns trocados para o ônibus.

— O que está escrito no tal papel?

Lejeune tirou um pedaço de papel da gaveta.

— Uma lista de nomes!

Corrigan examinou a lista com curiosidade.

ORMEROD

SANDFORD

PARKINSON

HESKETH-DUBOIS

SHAW

HARMONDSWORTH

TUCKERTON

CORRIGAN?

DELAFONTAINE?

— Vejo que meu sobrenome está na lista — disse o médico, levantando as sobrancelhas.

— Estes nomes significam alguma coisa para você? — perguntou Lejeune.

— Não.

— Você não conheceu o padre Gorman?

— Não.

— Então não vai poder nos ajudar.

— Tem alguma ideia sobre o significado desta lista?

— Um menino chamou o padre Gorman, às 7 da noite, pedindo que ele fosse atender uma mulher que estava morrendo e que queria se confessar. O padre foi.

— Mas onde estava essa mulher?

— Nós soubemos logo. Rua Benthal 23, na casa da Sra. Coppins. A moribunda chamava-se Davis. O padre chegou lá mais ou menos as 7h15 e ficou com a mulher uma meia hora. Ela morreu, assim que a ambulância chegou para levá-la ao hospital.

— Sei.

— Em seguida o padre foi a um café. Um bar decente, pobre e pouco frequentado. O padre pediu um café, mexeu nos bolsos e certamente não encontrou o que precisava pois pediu um pedaço de papel ao dono. Este pedaço de papel — disse Lejeune, apontando com o dedo.

— E depois?

— Quando Tony trouxe o café o padre já estava escrevendo.

Logo depois saiu, deixando a xícara quase cheia (Com certa razão, diga-se de passagem). Antes porém deve ter colocado a lista no sapato.

— Quem mais estava no bar?

— Três rapazes e um senhor que saiu sem pedir coisa alguma.

— Será que ele seguiu o padre?

— Talvez. Tony, o proprietário, não o viu sair, nem notou como ele era. Fez uma descrição vaga: um sujeito respeitável com uma cara comum, parecido com todo o mundo; estatura mediana e vestido de azul-marinho ou marrom. Nada nos leva a crer que tenha sido ele. Porém não temos certeza. Estamos pedindo que as pessoas que viram o padre, àquela hora, se comuniquem conosco.

Por enquanto não apareceu ninguém, mas ainda é cedo. Duas pessoas já vieram: uma mulher e um farmacêutico, aliás vou falar com eles agora. Dois garotinhos encontraram o caderno do padre às 8h15, caído num beco perto dos trilhos da estação. O resto você já sabe.

Corrigan assentiu com a cabeça.

— Que acha disso? — perguntou, apontando para a lista.

— Acho que é fundamental.

— A mulher, antes de morrer, deu esta lista de nomes para o padre. Ele os anotou assim que saiu com medo de esquecer. Mas será que ele poderia revelar algo contado sob confissão?

— Mas se a morta quisesse que seus segredos fossem revelados? — perguntou Lejeune. — E se estes nomes têm alguma ligação com uma chantagem?

— É o que você imagina?

— Não imagino nada, por enquanto. É uma hipótese: estas pessoas estavam sendo achacadas. A falecida poderia ser uma chantagista ou uma conivente. Quis confessar a fim de obter perdão. O padre ficou encarregado de impedir que isto continuasse.

— E daí?

— O resto são conjeturas — respondeu Lejeune. — Podia ser um caso de extorsão e alguém não quisesse que o pagamento fosse suspenso. Esta pessoa sabia que a Sra. Davis estava à morte e iria querer se confessar. O resultado foi este.

— Por que será — perguntou Corrigan — que existe um ponto de interrogação nos dois últimos nomes?

— Talvez o padre tivesse alguma dúvida sobre eles...

— Por exemplo: Mulligan em vez de Corrigan? — perguntou o médico, sorrindo.

— Pode ser. Agora, com um nome como Delafontaine não há jeito. É o tipo do nome que a gente guarda ou esquece. O estranho é que não existe nenhum telefone — continuou Corrigan, examinando a lista. — Parkinson é um nome comum, Sandford também, Hesketh-Dubois. Não deve existir uma família muito numerosa com este sobrenome.

O médico apanhou o catálogo de assinantes.

— J... H... Hesketh... Sra. John... Sir Isidore... Hasketh-Dubois, Lady. Praça Ellesmere, 49. Que tal darmos um telefonema?

— Dizendo o quê?

— Na hora a gente vê — respondeu Corrigan.

— Ligue — disse Lejeune.

— Como?

— Ligue — repetiu Lejeune, — não faça esta cara de espanto.

Lejeune apanhou o telefone e pediu uma linha externa.

— Qual é o número? — perguntou.

— Grovesnor 64578.

Lejeune repetiu o número à telefonista e passou o aparelho a Corrigan.

— Divirta-se — recomendou Lejeune.

Espantado, Corrigan colocou o telefone ao ouvido. Depois de tocar por uns instantes uma voz ofegante de mulher atendeu.

— Alô, Grovesnor 64578.

— É a residência de Lady Hesketh-Dubois?

— Bem... é...

O Dr. Corrigan não tinha tempo para hesitações.

— Posso falar com ela?

— De maneira alguma. Ela morreu em abril.

— Oh! — exclamou Corrigan, ignorando a interlocutora que perguntava quem estava no aparelho.

Desligou cuidadosamente e encarou Lejeune com frieza.

— Já sei porque você queria que eu falasse com ela.

Lejeune sorriu maliciosamente.

— Não podemos nos dar ao luxo de negligenciar o óbvio.

— Em abril — disse Corrigan, pensativamente. — Há cinco meses que ela não se preocupa com chantagem ou coisas parecidas. Ela por acaso cometeu suicídio?

— Não, morreu vitimada por um tumor cerebral.

— Vamos dar outra olhada na lista — disse Corrigan desanimado.

Lejeune suspirou.

— Não sabemos se esta lista tem alguma relação com o assassinato do padre. Ele pode ter sido real mente vítima de um delinquente que só apanharemos se tivermos sorte.

— Você se importa se eu tirar uma cópia desta lista?

— Não. Desejo-lhe sorte!

— Você diz isto porque acha que eu não vou conseguir descobrir mais nada do que vocês já descobriram. Vou me concentrar no nome Corrigan. Senhor, senhora ou senhorita com um grande ponto de interrogação.