O Cavalo Amarelo
Capítulo IV
— Existem outros Hesketh-Dubois?
— Ela não tinha filhos. Só um sobrinho e uma sobrinha mas usam outro sobrenome. Meu padrinho era filho único.
Corrigan agradeceu azedamente minha colaboração. Olhou o relógio, disse que estava atrasado para uma autópsia e partiu.
Fui para casa, mas não consegui trabalhar. Finalmente telefonei para David Ardingly.
— David? Aqui é Mark. Lembra-se daquela pequena que estava com você outra noite? A Poppy? Como é o sobrenome dela?
— Vai querer cantar minha garota? — perguntou David, dando uma gargalhada.
— Você tem tantas — respondi — que podia me ceder uma...
— Mas você já tem uma garota, pensei que fosse casar com ela...
— Casar!?
Por uns instantes pensei no assunto. Meu relacionamento com Hermia só poderia ser descrito assim: casamento à vista. E no entanto, a ideia me deprimia embora eu sempre achasse que iria, um dia, casar-me com ela. Afinal... gostava de Hermia, tínhamos tanta afinidade... mas o tédio que me invadiu naquele momento me fez bocejar. Vi diante dos olhos meu futuro com ela; indo ao teatro assistir a peças clássicas, discussões sobre arte, música. É, sem dúvida Hermia seria minha companheira ideal.
Uma luzinha acendeu-se na minha mente: Mas que tédio! Fiquei chocado com minha frieza.
— Adormeceu? — perguntou David.
— Claro que não; para ser sincero, achei sua amiga Poppy um refrigério.
— Boa palavra... precisa porém tomá-la em pequenas doses.
O nome da dita é Pamela Stirling, trabalha numa casa de flores muito chique em Mayfair, você conhece essas lojas! Três galhos secos, uma tulipa desfolhada e uma folha de louro pintada de purpurina, pelo módico preço de centenas de libras.
David deu o endereço.
— Leve-a para jantar, é divertida — recomendou ele. — Vão passar uma noite maravilhosa. Ela não sabe nada, não entende de nada e não pensa em nada. Acreditará em tudo que você disser, mas não avance o sinal porque ela é moça de família.
E desligou.
IV
Cruzei os umbrais da Loja Estudos Florais Ltda. com certo receio. Um forte aroma de flor de gardênia invadiu minhas narinas quase me asfixiando; várias moças, vestidas de batas verde alface, absolutamente iguais a Poppy, atendiam à ilustre clientela. No meio da confusão consegui, finalmente, identificá-la. Poppy estava ocupada, escrevendo com certa dificuldade o endereço de uma cliente. Em seguida, debateu-se um certo tempo com o troco.
— Nós nos encontramos a semana passada — disse eu, me aproximando. — Sou amigo de David Ardingly.
— Queria lhe fazer uma pergunta — disse eu, sentindo o coração bater, — mas para não tomar muito seu tempo seria aconselhável que eu comprasse umas flores.
— Recebemos hoje estas maravilhosas rosas — disse Poppy, mecanicamente.
— Que tal estas amarelas? — perguntei. — Quanto está a dúzia?
— Baratíssimo — respondeu Poppy, num tom profissional.
— Cinco xelins, cada.
Engoli em seco e pedi meia dúzia.
— Com folhas de louro?
Olhei as folhas com certa dúvida e preferi uma folhagem menos viçosa, o que não pareceu agradar muito a Poppy.
— O que eu queria saber — disse eu, observando Poppy arrumar canhestramente o ramo de rosas — se relaciona com o Cavalo Amarelo.
Como se tivesse levado um jato de água fria, Poppy deixou cair as rosas no chão.
— Gostaria de saber maiores detalhes — insisti.
Poppy controlou-se e apanhou o maço do chão.
— O quê?
— Gostaria de saber algo sobre o Cavalo Amarelo.
— Que cavalo amarelo? Não sei o que é isto!
— Mas falamos nele outra noite.
— Eu!? Nunca! Jamais ouvi falar nisso.
— Quem foi que contou a você esta história?
Poppy prendeu a respiração.
— Não sei do que está falando. Além do mais estamos proibidas de conversar com os fregueses; quer me dar o dinheiro por favor?
Entreguei o dinheiro a Poppy, ela me devolveu o troco, mas notei que suas mãos tremiam. Quando olhei novamente para ela vi que estava ocupada com outro freguês. Saí da loja devagar. No caminho me dei conta de que ela tinha feito o troco errado, devolvendo muito mais do que devia. Pensei na beleza opaca do seu rosto e sorri... seus olhos revelaram algo...
— Medo — pensei. — Pavor! Mas por quê? Por quê?