O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 13 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 5

Narrativa de Mark Easterbrook

 

I

— Que alívio! — suspirou a Sra. Oliver. — Tudo se passou sem problemas...

A quermesse organizada por Rhoda tinha ocorrido como todas as quermesses do mundo. A ansiedade inicial em relação à temperatura; as eternas discussões sobre a colocação das marquises; a preocupação sobre o fornecimento de doces etc....

Tudo resolvido a contento por Rhoda.

Outra preocupação dos organizadores concentrou-se nos cachorros de Rhoda que periodicamente ameaçavam irromper por entre as barracas e os convidados. Por fim a quermesse foi inaugurada com a indefectível presença de uma estrelinha de cinema coberta de peles que encantou os presentes com sua beleza e amabilidade. Claro que faltou troco, que as bebidas não estavam bastante geladas, nem foram suficientes para os consumidores. À noite, as mesmas quadrilhas e os fogos de artifício.

— Este ano rendeu mais do que o ano passado — comentou Rhoda.

— O que eu acho fantástico — comentou a Srta. Macallister, a governanta escocesa de Rhoda — é a facilidade com que Michael Brent descobre o mapa do tesouro. É o terceiro ano consecutivo que isto acontece! Será que alguém não lhe dá a pista?

— Lady Brookbank ganhou um porquinho — disse Rhoda. — Pela cara dela acho que não era bem o que desejava.

Estávamos reunidos no jardim: minha prima Rhoda e o marido, o Coronel Despard, a Srta. Macallister, uma jovem ruiva chamada Ginger, a Sra. Oliver, o reverendo Caleb Dane Calthrop e sua esposa. O reverendo era um senhor simpático, estudioso, cuja principal distração era citar um provérbio clássico, relacionando-o com um acontecimento momentâneo. Este hábito murchava qualquer conversa, possuía o dom de embaraçar os presentes, e só satisfazia o próprio reverendo pois geralmente a maioria das pessoas desconhecia latim ou grego.

— Como dizia Horácio... etc. etc. — observou ele, sorrindo para os presentes.

Depois de uma pequena pausa Ginger interveio.

— Acho que a Sra. Horsefall trapaceou com aquela garrafa de champanha. Quem acabou ganhando foi a sobrinha!

A Sra. Dane Calthrop, uma mulher imprevisível, de olhar aguçado, observava a Sra. Oliver.

— O que a senhora esperava fosse acontecer nesta festa? — perguntou abruptamente.

— Ora, um crime ou qualquer coisa excitante.

— Por quê? — perguntou a Sra. Dane Calthrop, interessada.

— Por nada. Por ser improvável talvez. Lembro-me de um crime que ocorreu numa quermesse...

— Ah! A senhora ficou impressionada?

— Muito.

O reverendo fez uma citação em grego.

Seguiu-se outro breve silêncio.

— Achei muita vantagem o dono do Bar Armas do Rei nos mandar aquelas cervejas para o tiro ao alvo.

— Armas do Rei? — perguntei.

— É o nome do bar local, meu caro — explicou Rhoda.

— Não existe outro pelas redondezas... O Cavalo Amarelo, não foi? — perguntei olhando para a Sra. Oliver.

Nenhuma reação por parte dos presentes. Todos olharam para mim imperturbáveis.

— O Cavalo Amarelo não é um bar — disse Rhoda. — Ou melhor, não é mais um bar.

— Mas já foi — disse Despard, — lá pelo século XVI. Hoje em dia, é uma casa, embora a proprietária tenha mantido o mesmo nome.

— Por que havia de mudar? — quis saber Ginger. — Um lugar daqueles não poderia ter um nome bobo como Nosso Lar ou Recanto Feliz. Acho o nome de Cavalo Amarelo divino. Elas têm uma plaqueta antiga colocada em cima da lareira que é uma beleza.

— Quem são elas? — perguntei.

— A casa é de Thyrza Grey — informou Rhoda. — Não sei se você viu uma mulher alta, de cabelos cinzentos?

— É dada ao ocultismo — disse Despard. — Dedica-se ao espiritismo, ao transe, à magia. Não tem nada com Missa Negra ou coisas assim...

Ginger deu uma gargalhada.

— Desculpe — disse a ruiva. — Mas por um instante eu imaginei a Srta. Grey vestida de Mme. de Montespan, num altar de veludo negro.

— Ginger, respeite o reverendo! — disse Rhoda.

— Desculpe, reverendo.

— Não tem a menor importância — disse o Sr. Calthrop. — Como dizem os antigos...

Seguiu-se uma longa citação em grego, acompanhada de um respeitoso silêncio de aprovação.

— Mesmo assim quem são elas?

— Uma amiga, que mora com ela e chama-se Sybil Stamfordis que acho que funciona como médium. Você já deve tê-

la visto, cheia de colares e escaravelhos; às vezes, veste-se com um sari, não me pergunte por que... acho que ela nem conhece a Índia...

— Não esqueça de Bella — interveio a Sra. Dane Calthrop, a cozinheira que dizem ser uma feiticeira nascida num vilarejo, onde era famosa por suas bruxarias. Dizem que a mãe dela também era bruxa.

— A senhora fala em bruxaria como se fosse a coisa mais natural do mundo! — exclamei.

— E é mesmo! Não existe mistério algum. As vezes é um dom de família... quando o senhor era pequeno, não se lembra de uma vizinha a quem se devia dar bolos e doces?

Olhei para ela como ceticismo mas parecia falar com sinceridade.

— Sybil nos ajudou hoje na quermesse — disse Rhoda. — Lendo a sorte. Ela ficou na barraca verde e fez muito sucesso.

— Predisse para mim um futuro maravilhoso — disse Ginger. — Dinheiro, um amante estrangeiro, dois maridos e seis filhos. Que mais poderia desejar?

— A filha dos Curtis saiu da barraca às gargalhadas — comentou Rhoda. — Mais tarde, quando a vi de novo, ela repetiu para o namorado que ele não era o único galo do galinheiro.

— Coitado de Tom! — suspirou o marido de Rhoda. — Ele respondeu alguma coisa?

— Respondeu que não podia dizer o que Dona Sybil tinha lido na mão dele.

— Bem feito!

— A velha Parker é que não gostou da sorte — disse Ginger.

— É tudo bobagem! me disse ela, só espero que vocês não acreditem nessas histórias. A Sra. Cripps, porém, interrompeu para dizer que a Srta. Grey prevê a morte de qualquer pessoa e que nunca se engana! A Sra. Parker concordou, mas disse que morte já é outra conversa. Finalmente a Sra. Cripps arrematou que não valia a pena ofender nenhuma das três.

— Que interessante! — exclamou a Sra. Oliver. — Gostaria de conhecê-las.