O Cavalo Amarelo
Capítulo II
— Talvez — disse o inspetor.
— Enfim ela melhorou ou achou que melhorou e voltou ao trabalho. Eu recomendei que ela ficasse em casa mais uns dias, mas ela não me deu atenção. Foi tiro e queda. De noite quando ela chegou mal podia subir a escada. Eu disse que ela devia chamar um médico mas ela disse que não. Só sei que piorou a olhos vistos, ficou vermelha e mal podia respirar. No dia seguinte pediu um padre: “Um padre, depressa, antes que seja tarde demais.”
Também não servia qualquer padre, tinha que ser católico. Para dizer a verdade eu nem sabia que ela era católica...
O inspetor Lejeune havia encontrado um crucifixo na mala da Sra. Davis, mas achou melhor não fazer comentários com a Sra. Coppins.
— Aí eu vi Mike na rua e pedi que ele fosse chamar o padre Gorman na igreja. Telefonei para o hospital e pedi uma ambulância sem falar com ela.
— Foi a senhora quem levou o padre até lá em cima?
— Foi. Deixei os dois sozinhos.
— Ouviu eles dizerem qualquer coisa?
— Não sei bem. Eu estava apresentando o padre a ela, dizendo que tudo ia dar certo, tentando alegrá-la, sabe como é?
Mas, enquanto fechava a porta ouvi ela dizer qualquer coisa sobre maldade. Falou também de um cavalo, talvez de corrida. Eu, às vezes, jogo no turfe, mas já ouvi falar que há muita malandragem neste negócio...
— Maldade! — repetiu Lejeune, impressionado com a palavra.
— Os católicos precisam confessar os pecados antes de morrer, não é? Pois foi o que ela fez.
Lejeune não tinha dúvidas sobre as intenções da falecida. O que intrigava sua imaginação era a palavra: maldade.
E que maldade seria esta que justificaria até o assassinato de um padre?
II
Dos outros três inquilinos pouco se conseguiu apurar. O primeiro e o segundo, um bancário e um velho caixeiro de uma sapataria, só conheciam a Sra. Davis de vista. A terceira, uma moça de vinte e dois anos, trabalhava numa loja e mal conhecia a falecida.
A mulher que tinha visto o padre Gorman, na rua, na noite do crime, não pôde auxiliar a Polícia. Conhecia o padre de vista, pois não frequentava aquela igreja, mas tinha visto o mesmo entrar num café.
Um farmacêutico chamado Osborne, dono de uma farmácia na Rua Baron, foi o único que pôde dar à polícia uma pista mais concreta. Osborne era um homem pequeno, de meia-idade, careca, de óculos, de rosto redondo e ingênuo.
— Boa noite, inspetor. Pode entrar — disse o Sr. Osborne, abrindo a tampa do balcão para Lejeune.
Passaram por um quarto, onde um rapaz de avental branco preparava uns líquidos, engarrafando-os em vidros de remédios com a rapidez de um feiticeiro profissional. O Sr. Osborne conduziu Lejeune a uma saleta mobiliada com duas poltronas, uma mesa e uma escrivaninha. Em seguida, o farmacêutico puxou uma cortina e sentou-se ao lado de Lejeune com um ar de espião profissional. Seus olhos brilhavam de antecipação e excitamento.
— Acontece que estou em condições de lhe ajudar. Foi uma noite fraca, aqui na farmácia, devido ao mau tempo. A mocinha estava atrás do balcão, pois quinta-feira ficamos abertos até as oito horas. O nevoeiro vinha baixando e a rua estava quase sem movimento. Fui até a porta, para ver melhor o tempo, que segundo as previsões ia baixar. Fiquei uns instantes olhando a rua pela vitrine, despreocupado com a farmácia... tinha uma freguesa só, querendo uns sais de banho e cremes de limpeza, coisas que a balconista sabe atender direito. Aí vi o padre Gorman, vindo do outro lado da rua. Eu o conhecia de vista, aliás que coisa brutal foi este crime! Atacar um homem tão distinto. Lá vai o padre, pensei, cá comigo. Ele ia indo em direção à Rua Oeste, quase na esquina dos trilhos da estrada de ferro. Um pouco atrás dele, vinha vindo um homem. Não me ocorreria prestar atenção se ele não tivesse parado bruscamente, quase na porta da farmácia. Não entendi por que ele parou, mas eu notei que o padre, um pouco adiante, também tinha diminuído o passo; não chegou a parar, mas caminhava como se estivesse tão absorto em seus pensamentos que até tivesse esquecido de que estava andando. O padre voltou a apertar o passo e o homem também, só que desta vez com mais decisão. Pensei — se é que pensei em alguma coisa — devia ser alguém que conhecia o padre de vista e que resolvera falar com ele.
— Quando na verdade é possível que estivesse seguindo o padre?
— Agora tenho certeza, mas naquela noite não dei mais atenção ao fato. Com o nevoeiro perdi os dois de vista, logo depois.
— O senhor seria capaz de descrever esse homem?
Lejeune parecia hesitante. Sua experiência lhe dizia que esse tipo de descrição geralmente era falho ou impreciso. Mas, o Sr. Osborne era mais observador do que o dono do café.
— Acho que sim — disse o farmacêutico, calmamente. — Era um homem alto...
— Alto? De que altura, mais ou menos?
— Um metro e oitenta a um metro e oitenta e quatro... por aí. Talvez fosse até mais alto, pois era muito magro. Os ombros meio caídos e um pomo de Adão muito pronunciado. Sob o chapéu um cabelo bastante comprido, cinzento, e um nariz bem adunco.
Naturalmente não pude ver a cor dos olhos. Só o vi de perfil. Pelo jeito de andar deve ter perto de uns cinquenta anos. Uma pessoa mais jovem se movimenta de outra maneira, com mais agilidade.
Lejeune mentalmente relembrou a distância da rua para a farmácia e duvidou da eficácia da informação. Duvidou seriamente, pois este tipo de descrição muito precisa só poderia significar duas coisas: uma imaginação muito fértil, que ele já conhecia de sobra, principalmente das testemunhas femininas, mestras em criarem assassinos de acordo com seus desejos e fantasias, mas facilmente elimináveis pelo número espúrio de detalhes: olhos arregalados, sobrancelhas cerradas, queixos prognáticos, ou ar de ferocidade animal. A segunda, que poderia ser o caso do Sr. Osborne, era fantasticamente real e precisa para ser verdadeira. Mas quem sabe o Sr. Osborne fosse um homem que observa as coisas desinteressadamente e se preocupa com os mínimos detalhes?
Lejeune pensou novamente na distância entre a vitrine e a rua. Olhou calmamente para Osborne.
— O senhor seria capaz de reconhecer esse homem se o visse novamente?
— Claro — respondeu Osborne, confiante. — Nunca esqueço uma fisionomia. É o meu passatempo. Sempre disse que se um desses envenenadores de esposa viesse a minha farmácia comprar um pacotinho de arsênico, eu seria a testemunha-chave da promotoria. Aliás, sempre desejei que isso acontecesse.
— Mas ainda não aconteceu?
— Ainda não — admitiu Osborne, contrariado. — E não acredito que vá acontecer. Consegui um bom preço pela farmácia e quando fechar o negócio vou me aposentar. Vou me mudar para Bournemouth.
— A farmácia está num bom ponto — comentou Lejeune.
— É um lugar de classe — disse Osborne com orgulho. — Já estamos aqui a uns cem anos. Antes de mim, era meu pai e o meu avô. Um negócio de família, bastante rendoso. Quando eu era jovem, porém, me rebelei. Não queria ser farmacêutico. Queria ser ator, tinha certeza de que seria um grande ator. Meu pai não tentou refrear minha vocação. — Vê se dá certo, filho! — disse ele. — Vá descobrir que não é Sir Laurence Olivier! Ele tinha razão... era um homem muito inteligente. Fiz teatro uns meses e voltei para casa. Com o tempo passei a gostar do negócio, a me orgulhar dele. Nós sempre tivemos mercadoria de primeira, podemos estar fora de moda mas vendemos qualidade.
Osborne sacudiu a cabeça.
— Hoje em dia — prosseguiu ele, — um farmacêutico que se preza não se interessa mais por isto. Todas estas loções de toalete.
Se a gente não comprar, não fatura; metade dos lucros vem desta porcaria: pó, batom, creme, shampoo, estojos de maquilagem. Eu não lido com isso. Botei a mocinha, lá na frente, para tratar do assunto. Não é como antigamente, que o farmacêutico aviava pessoalmente todas as receitas. Contudo, como guardei um bom dinheiro, vou vender bem a farmácia. Paguei a primeira prestação de uma casinha em Bournemouth. Meu lema é: “Aposentar-se enquanto é tempo” — continuou Osborne. — Tenho vários passatempos: coleciono borboletas, adoro pássaros, jardinagem (estou cheio de livros sobre plantas) e gosto de viajar. Talvez eu faça um cruzeiro por um desses lugares exóticos.
Lejeune levantou-se.
— Bem, desejo-lhe sorte — disse o inspetor. — Se por acaso, numa destas viagens, o senhor encontrar...
— Comunico-lhe imediatamente, é claro — interrompeu Osborne. — Pode contar comigo, como já disse, sou ótimo fisionomista. Estarei sempre alerta e para mim será um prazer entregar um assassino aos braços da lei.