O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 7 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 3

 

 

I

— Ora, Sr. Lejeune, não sei mais o que dizer, já falei horas com o sargento. Não conhecia bem a Sra. Davis, não sei de onde veio. Morou aqui uns 6 meses, pagava o aluguel em dia e parecia uma pessoa distinta. Não entendo o que o senhor quer mais de mim.

A Sra. Coppins parou um instante para tomar fôlego, encarando o Inspetor com impaciência. Este, por sua vez, sorriu com melancolia como se estivesse pedindo desculpas.

— Não é que eu não queira ajudar — falou a Sra. Coppins mais calma.

— Obrigado. É da sua ajuda que nós precisamos. As mulheres geralmente, por instinto, percebem mais as coisas do que os homens.

Ela mordeu a isca.

— Ah! — exclamou a Sra. Coppins — se meu marido estivesse aqui para ouvi-lo. Achava que eu tinha muita imaginação, que vivia inventando coisas. E na maioria das vezes eu tinha razão.

— Por isso gostaria da sua opinião sobre a Sra. Davis. Ela era infeliz, por exemplo?

— Não, não creio. Muito trabalhadora, na minha opinião.

Metódica, como se tivesse construído a vida e agisse de acordo com um esquema. Acho que trabalhava numa dessas firmas de opinião pública. Essas que vão de casa em casa, perguntando o sabonete ou a farinha que a gente usa, quanto se ganha por mês etc. Tipo do negócio para mexeriqueiros! Até hoje não entendi por que o governo ou as fábricas se interessam tanto pela vida particular das pessoas. A conclusão desses inquéritos é simplesmente uma resposta que todo o mundo já sabe. Mas enfim, é a moda hoje em dia! Acho que a Sra. Davis desempenhava bem esta função; era uma pessoa agradável e profissional.

— Por acaso a senhora não sabe o nome da firma em que ela trabalhava?

— Não. Não sei.

— Ela alguma vez falou nos parentes?

— Não. Eu sempre achei que fosse viúva há anos. Uma vez ela falou no marido inválido mas eu não entrei em detalhes.

— De que lugar ela era?

— Acho que do Norte.

Tenho certeza de que não era de Londres.

— Não havia algo de misterioso na vida dela?

Lejeune hesitou antes de perguntar com medo de que a Sra. Coppins fosse sugestionável... ela, porém, não aproveitou a deixa.

— Não. Era uma mulher até bastante comum. A única coisa que me intrigava era a mala, de boa qualidade, meio usada, com as iniciais pintadas por cima de outras. J.D... Jessie Davis. O jota estava pintado por cima de um agá ou de um a. Na época não dei muita bola para isso; afinal ela podia ter comprado uma mala de segunda mão e naturalmente alterado as iniciais. Era tudo o que tinha no mundo, aquela mala!

Lejeune sabia disso e achou estranho que uma mulher pudesse ter tão poucos objetos pessoais. Não encontraram cartas, fotografias, cartões de identidade, talões de cheques. As roupas era boas e novas, para uso diário.

— Ela parecia satisfeita?

— Acho que sim.

Lejeune notou um tom de dúvida na resposta.

— Acha mesmo?

— Não era bem da minha conta, não é? Eu achava que ela ganhava bem, tinha um bom emprego, portanto devia estar satisfeita. Não era uma mulher esfuziante. É claro que quando ela ficou doente...

— O que houve?

— Assim que apareceu o resfriado ela pareceu assustada. Ia transtornar-lhe a vida, disse-me ela, teria que desmarcar tantos compromissos... Bem, mas uma gripe é uma gripe, a gente não pode fazer de conta que não está acontecendo nada. Ela foi para a cama com um chá e um comprimido. Eu recomendei que ela chamasse um médico mas não houve jeito. Ela respondeu que para curar uma gripe bastava ficar de repouso, se cobrir e pronto.

Além disso, recomendou que não chegasse perto se não quisesse ficar doente também. Assim que ela melhorou um pouco cozinhei umas coisinhas para ela. Caldo quente com torradas, arroz doce, coisas leves. Ela ficou muito abatida por causa da febre, como todo o mundo fica... o senhor sabe, aquela depressão que dá quando acaba a gripe. Ela ficava sentada junto da lareira e me dizia: — Se ao menos a gente não pensasse tanto! Não gosto de ficar parada, pensando. É tão deprimente!

Lejeune continuou olhando fixamente para a Sra. Coppins.

— Emprestei umas revistas para ela, mas coisa alguma parecia distraí-la. Um dia ela disse: — Se todas as coisas não são o que parecem ser é melhor a gente nem saber, não é? Eu concordei. Ai, ela disse: Não sei, nunca tive certeza. Sempre agi corretamente na vida. Não tenho do que me recriminar. Eu disse: Claro que não tem, minha querida. Mas, cá comigo, trapaça no lugar em que ela trabalhava, algo que ela tivesse descoberto mas que não tinha ligação alguma com ela.