O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 41 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 23

 

Narrativa de Mark Easterbrook

I

Três semanas depois um carro parou em frente à residência de Venables. Quatro homens desceram: eu, o Inspetor Lejeune, o sargento Lee e o Sr. Osborne, que mal podia se conter de tanta excitação.

— Não diga coisa alguma — preveniu Lejeune.

— Pode contar comigo. Não abrirei a boca.

— Tome muito cuidado.

— Sinto-me um privilegiado. Só não entendo por que...

Como ninguém estava para explicações, Osborne achou melhor não insistir. Lejeune tocou a campainha e pediu para chamarem o Sr. Venables. Como se fôssemos um conselho parlamentar em visita ao prefeito municipal, fomos levados para a biblioteca.

Se Venables ficou surpreso com a visita, não o demonstrou.

Tratou-nos com toda a cortesia possível e eu não pude deixar de notar, enquanto ele movimentava a cadeira de rodas, quão estranha e marcante era sua aparência pessoal. O pomo de Adão que subia e descia entre as abas do colarinho, o perfil de águia, o nariz de ave de rapina.

— Prazer em revê-lo, Easterbrook. Parece que você agora vive por estes lados.

Senti um leve tom de sarcasmo em suas palavras.

— O senhor é o Inspetor Lejeune, não é? — perguntou Venables. — Confesso que estou curioso. Nosso vilarejo é geralmente tão calmo, tão pacato! Mas, mesmo assim, sou visitado pela polícia! Que posso fazer pelos senhores?

— Gostaria de que o senhor nos ajudasse — disse Lejeune, suavemente.

— Não sei onde ouvi esta frase. Como posso ajudá-los?

— No dia sete de outubro um padre católico, chamado Gorman, foi assassinado na Rua West, bairro de Paddington. Ouvi dizer que o senhor esteve pela vizinhança entre sete e quarenta e cinco e oito e quinze, e que talvez o senhor pudesse nos dar alguns esclarecimentos.

— Será que eu estive lá nessa noite? Duvido. Duvido muito.

Acho mesmo que nunca estive neste bairro de Londres. Se não me falha a memória, creio mesmo que nem em Londres eu estava nessa ocasião. Vou a Londres, é verdade, somente para assistir a uns leilões ou visitar meu médico.

— Sir William Dougdale?

— O senhor parece bem informado, Inspetor — respondeu friamente Venables.

— Não tanto quanto o necessário. Confesso que estou desapontado com sua ajuda; no entanto, gostaria de relatar alguns fatos ligados à morte do padre Gorman.

— Pois não, embora eu nunca tenha ouvido falar nele.

— O padre Gorman foi chamado naquela noite para atender uma mulher agonizante. Parece que ela estava ligada, sem saber, a uma organização criminosa e que começou a suspeitar da seriedade da firma. A organização especializava-se na morte de pessoas por um preço, é claro.

— Não me parece grande novidade — disse Venables. — Nos Estados Unidos...

— Esta organização, porém, agia de outra maneira. Em primeiro lugar, a remoção das vítimas era feita ostensivamente, sob um pretenso método psicológico. O que os psicólogos conhecem como “o desejo de morte”, que dizem ser inerente ao ser humano. Pois bem, este desejo era estimulado...

— Forçando a pessoa a suicidar-se? Parece, Inspetor, uma ideia boa demais para ser verdade...

— Não se trata de suicídio, Sr. Venables. A vítima morria de morte natural.

— Ora, ora, o senhor não vai dizer que acredita nisso?

— O centro desta organização é a estalagem do Cavalo Amarelo.

— Ah! Compreendo. Por isso vieram para cá. Atrás de Thyrza Grey... bem, não sei se ela acredita no que diz, mas posso afiançar que se trata de uma bobagem. Ela tem uma amiga médium e uma cozinheira bruxa (aliás, são corajosas em comer aquela comida).

Só sei que as três ganharam fama de videntes etc. Não vai dizer que a polícia leva esta conversa a sério?

— Para dizer a verdade, levamos.

— Acredita realmente que Thyrza Grey é capaz desses milagres? Que por causa de umas invocações, uns transes e uns passes de magia negra, uma pessoa venha a morrer?

— Oh! não, Sr. Venables. A causa da morte é muito mais simples...

Lejeune fez uma pausa.

— A morte é causada por envenenamento.

Por uns instantes reinou um silêncio opressor.

— O quê?

— Envenenamento através de sais de tálio. Nada mais simples mas, assim mesmo, era necessário encobrir o crime sob a capa de uma organização pseudo-científica ou psicóloga. A meta era desviar a atenção sobre o veneno.

— Tálio — murmurou Venables. — Não conhecia este sal!

— Não? Usado contra ratos ou como depilatório. Fácil de comprar. Por falar nisso, encontramos um envelope com tálio na sua estufa.

— Na minha estufa? Impossível!

— Pois é verdade. Já fizemos inclusive alguns testes...

Venables começou a ficar agitado.

— Alguém deve ter posto lá. Desconheço esse produto...

— É mesmo? O senhor parece um homem de posses, Sr. Venables.

— E o que tem isso que ver com nossa conversa?

— O Imposto de Renda tem-lhe feito algumas perguntas embaraçosas, não é verdade? Explicações sobre fonte de rendas e coisas semelhantes...

— A maldição da Inglaterra está no seu sistema tributário.

Ultimamente tenho pensado seriamente em mudar-me para a Jamaica.

— Não creio que possa ir tão cedo...

— O senhor está me ameaçando, Inspetor? Por que, caso esteja...

— Não, absolutamente. Estou emitindo uma opinião pessoal.

Posso continuar com a história?

— Já que está decidido a contar, não vejo outro remédio.

— É uma organização eficientíssima; os detalhes financeiros são tratados por um ex-advogado chamado Bradley, cujo escritório fica em Birmingham, e onde os clientes o procuram para fechar os contratos. Trata-se simplesmente de apostar se a pessoa visada, que está atrapalhando o cliente, vai ou não morrer dentro de um certo tempo. Caso o Sr. Bradley ganhe a aposta, o dinheiro tem que ser pago imediatamente; o não cumprimento desta cláusula acarreta consequências funestas para o cliente. O Sr. Bradley, no entanto, limita-se a apostar. Simples, não?

— Em seguida — continuou Lejeune, sorrindo, — o cliente vai ao Cavalo Amarelo, onde Thyrza Grey e as amigas representam um espetáculo de muito efeito para os não iniciados.

“Ouça, porém, alguns detalhes curiosos: algumas inocentes senhoras são contratadas para pesquisar o mercado consumidor.

Para tanto, recebem um questionário e uma série de nomes com endereços. — Qual o pão que preferem? Que artigos de toalete usam? Qual o laxativo, tônico ou sedativo? etc. Hoje em dia o senhor sabe como estamos condicionados a responder perguntas, portanto, ninguém costuma reclamar. Passa-se, então, para a etapa final. A mais simples, diga-se de passagem, e a única executada pelo chefe da organização, que geralmente usa vários disfarces: porteiro, zelador, medidor de gás, bombeiro, ou eletricista e até operário. Dependendo das circunstâncias, ele apresenta as credenciais necessárias, entra na casa da vítima e substitui um produto (que o questionário já revelou que a vítima usa) por outro igual porém envenenado. Não importa que verifique o gás ou bata nos canos, o que ele veio fazer é trocar os produtos.

Cumprida a missão, ele desaparece.

“Por alguns dias nada acontece. Porém, mais cedo ou mais tarde a vítima começa a ficar doente. Chamam um médico que não tem razão para suspeitar de coisa alguma, que naturalmente pergunta sobre os hábitos alimentares do paciente e logicamente não vai desconfiar do remédio que o mesmo vem tomando há anos!

— Veja, portanto, Sr. Venables, que engenhosidade! A única pessoa que realmente sabe o que o chefe da organização faz é o próprio chefe. Ninguém poderá acusá-lo.

— E como o senhor sabe tudo isso? — perguntou Venables, sorrindo.

— Quando suspeitamos de alguém temos maneiras de nos informar.

— Como?

— Não precisarei entrar em detalhes, mas temos o recurso da fotografia. Hoje em dia um homem pode ser fotografado sem saber. Temos, por exemplo, maravilhosos retratos do porteiro, do medidor de gás etc. É claro que a pessoa em questão recorre a vários elementos como bigode, barba, dentes postiços, mas conseguimos reconhecê-lo. Primeiro pela Sra. Mark Easterbrook, aliás Katherine Ginger Corrigan, e depois por Edith Binns. A identificação é um estranho fenômeno, Sr. Venables. Por exemplo, este cavalheiro aqui, o Sr. Osborne, está disposto a jurar que viu o senhor seguindo o padre Gorman na noite de sete de outubro, às oito horas da noite.

— E vi mesmo — disse Osborne, se contorcendo de excitação. — Descrevi o senhor nos mínimos detalhes...

— Talvez este fosse o erro — interrompeu Lejeune. — Pois o senhor não viu o Sr. Venables naquela noite, enquanto estava parado defronte da farmácia. Porque o senhor não estava parado e sim andando atrás do padre Gorman. Quando ele entrou pela Rua West o senhor o assassinou.

— O quê? — disse Zachariah Osborne.

— Sr. Venables, permita que lhe apresente o Sr. Zachariah Osborne, farmacêutico. O senhor gostará de saber que ele colocou na sua estufa uns tabletes de sal de tálio e que estava disposto a lhe dar o papel de vilão do filme. Ignorando sua invalidez, divertiu-se em acusá-lo e, como é muito primário e teimoso, insistiu que tinha razão quando o identificou.

— Primário? O senhor se atreve a me chamar de primário?

Se soubesse o que eu fiz...

Osborne tremia de ódio.

Lejeune encarou-o friamente.

— O senhor não devia se fazer de tão inteligente. Se ficasse calado na sua lojinha não estaria nesta situação. Nem eu precisaria lembrá-lo de que tudo que disser de agora em diante será anotado e poderá ser usado contra o senhor no julgamento.

Foi então que Osborne começou a gritar.