O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 32 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo III

A Sra. Dane Calthrop garantiu que estava com a razão.

— A senhora tem telefone?

— É claro.

Expliquei o que queria.

— Depois dessa história de hoje à noite eu vou querer manter contato constante com Ginger. Telefonarei diariamente. Posso ligar daqui?

— Claro. Na casa de Rhoda tem sempre tanta gente, além do mais existe sempre o perigo de ouvirem alguma coisa.

— Ficarei mais uns dias na casa de Rhoda e depois parto para Bournemouth. Não posso voltar a Londres.

— Não adianta colocarmos o carro adiante dos bois — disse a Sra. Calthrop. — Vamos ver o que vai acontecer hoje à noite.

— Hoje à noite! — levantei-me. — Peço que a senhora reze por mim.

— Claro — respondeu ela, surpreendida com minha súbita conversão religiosa.

Ao sair resolvi fazer uma pergunta.

— E o balde? Para que serve?

— O balde? Para os meninos catarem amoras no campo. É um balde horrível mas muito prático.

Olhei para a beleza outonal do campo. Quanta beleza...

— Anjos e ministros do céu, protejam-nos — disse eu.

— Amém — murmurou a Sra. Dane Calthrop.

III

 

Não sei como esperava ser recepcionado no Cavalo Amarelo, mas posso dizer que a acolhida fria e convencional me desapontou um pouco.

Thyrza Grey, usando um simples vestido de lã, recebeu-me na porta.

— Ah! Já chegou. Que bom! — comentou, num tom profissional. — Assim podemos lanchar logo.

O tom cotidiano me espantou. A mesa já estava posta e Bella nos serviu uma sopa, um omelete e uns queijos. Sybil deu a única nota exótica: um vestido comprido estampado, representando umas penas de pavão, todo debruado em ouro; dois enormes braceletes de ouro, em volta dos braços, e excepcionalmente nenhum colar de contas. Ela comeu pouquíssimo e falou menos ainda, certamente preocupada em me impressionar. Por meu lado, confesso que achei a representação artificial e falsa.

Thyrza Grey animou como pôde a conversa, fazendo comentários sobre os personagens da cidade. Estava empenhada em representar a típica solteirona inglesa.

Pensei com meus botões que talvez estivesse louco, completamente louco. Que razão tinha eu para sentir medo? Até Bella me parecia, esta noite, uma velha camponesa imbecil!

Em retrospecto a conversa com a Sra. Dane Calthrop me pareceu fantástica. Creio que nos deixamos levar pela fantasia e acabamos vitimas da nossa própria imaginação.

Finalmente terminamos o lanche.

— Não vou servir café — desculpou-se Thyrza; — não devemos nos estimular demais. Sybil?

— Sim — respondeu Sybil, assumindo uma expressão supostamente esotérica. — Já sei, devo me PREPARAR.

Bella retirou os pratos. Fui até ao hall examinar a tabuleta da estalagem. Thyrza seguiu-me.

— Com esta luz não dá para ver bem — disse ela.

Era verdade. A imagem amarelada contra a ferrugem escura mal dava para distinguir a figura do cavalo.

— Aquela moça ruiva... como é mesmo o nome dela?

Ginger?... é Ginger, queria restaurar esta tabuleta — disse Thyrza — mas creio que se esqueceu. Ela trabalha numa galeria de arte, em Londres — acrescentou casualmente.

Senti um calafrio ao ouvir o nome de Ginger.

— Talvez não fosse má ideia — comentei, olhando para a tabuleta.

— Não é uma boa pintura — disse Thyrza — mas combina com o lugar... deve ter mais de trezentos anos.

— Pronto.

Voltamo-nos. Bella estava parada na porta, nos chamando.

— Está na hora — disse Thyrza.

Segui-a até o velho celeiro, atravessando o jardim escuro. Se de dia o celeiro parecia uma agradável biblioteca restaurada, à noite era outra coisa. As luzes não estavam acesas e a iluminação fria provinha das frestas do teto. No centro da sala encontrava-se uma cama ou um divã coberto por um pano vermelho bordado com desenhos cabalísticos. No fundo um velho caldeirão fumegando, ao lado uma bacia de cobre. Do lado oposto, encostada na parede, uma cadeira de carvalho, onde Thyrza me mandou sentar.

Obedeci, notando que Thyrza havia mudado sem que eu pudesse definir como. Não era uma atitude teatral como a de Sybil e sim como se o cotidiano tivesse sido retirado da sua existência.

Mais parecia um cirurgião pronto para uma operação complicada.

Essa impressão foi reforçada quando ela vestiu um avental comprido, feito de um tecido metálico.

— Preciso tomar certas precauções — preveniu-me Thyrza.

Achei a frase bastante sinistra.

— Devo prevenir que o senhor deve manter-se absolutamente quieto e de forma alguma sair desta cadeira, se não quiser correr perigo de vida. Lembre-se de que não estamos brincando e sim lidando com forças perigosas e estranhas.

Thyrza Grey fez uma ligeira pausa.

— Trouxe o que lhe pedimos?

Puxei do bolso uma luva de suedine marrom. Rapidamente Thyrza colocou a luva em frente de um estranho abajur; acendeu a luz e segurou a luva, diante da lâmpada, que deu ao tecido uma estranha coloração cinza.

— Muito bem — disse ela, apagando a luz. — As emanações físicas da dona ainda estão bem presentes.

Em seguida, colocou a luva sobre um aparelho semelhante a uma vitrola.

— Bella, Sybil — disse, levantando a voz, — estou pronta.

Sybil entrou, trajando uma capa preta, que ela deixou deslizar sobre os ombros, caindo ao chão como uma mancha de tinta.

— Espero que dê certo — disse. — Nunca se sabe. Por favor, não adote uma atitude crítica, Sr. Easterbrook. Atrapalha os trabalhos.

— O Sr. Easterbrook não veio para brincar — preveniu Thyrza, severamente.

Sybil deitou-se no divã vermelho.

— Está bem cômoda? — perguntou Thyrza solícita.

— Oh! Sim, obrigada.

Thyrza acendeu umas luzes, deixando Sybil no escuro, circundada por um raio de claridade.

— Muita luz atrapalha o transe — explicou. — Estamos prontas, Bella.

Bella surgiu das sombras e encaminhou-se com Thyrza em minha direção.

Thyrza com a mão direita pegou minha mão esquerda, deu a outra mão para Bella; esta apanhou minha mão direita. Senti-me repelido pelo contato com Bella. Thyrza deve ter acendido um comutador qualquer, pois ouvi os acordes de uma música a distância. Parecia a marcha fúnebre de Mendelssohn.

— Mise en scène — pensei. — Uma verdadeira palhaçada.

Apesar disso, senti como se uma corrente subterrânea de apreensão emocional tivesse invadido a sala.

A música parou. Fez-se um longo silêncio, onde só se ouvia nossa própria respiração.

De repente, Sybil começou a falar, com outra voz. Era uma voz masculina, gutural, com sotaque estrangeiro.

— Cheguei — disse ela.

As duas soltaram minhas mãos. Bella desapareceu nas sombras.

— Boa noite — disse Thyrza. — És Macandal?

— Sim, sou Macandal.

Thyrza moveu uma lâmpada e iluminou o rosto de Sybil, que parecia mergulhado num sono profundo. Seu rosto estava inteiramente mudado; parecia mais jovem e até mais bonita.

— Estás preparado, Macandal, para obedecer a meus desejos e minhas vontades?

— Estou — respondeu a voz.

— Tomarás conta do corpo de Dossu, que está aqui deitado e no qual você está incorporado para que não sofra dano físico algum? Dedicarás tua força vital aos meus propósitos para que eu consiga através deles realizar meus desejos?

— Sim.

— Dedicarás este corpo para que a Morte, passando por ele, atinja outro corpo?

Thyrza deu um passo para trás. Bella reapareceu com uma espécie de crucifixo. Thyrza colocou-o de cabeça para baixo, sobre o peito de Sybil. Bella, em seguida, trouxe um vidro verde. Duas gotas foram colocadas na testa de Sybil, onde Thyrza fez um pequeno desenho que me pareceu o sinal da cruz ao contrário.

— Água benta da igreja católica de Garsington — explicou Thyrza, numa voz comum que deveria ter dissipado o encanto mas, no entanto, deu à cerimônia um ar mais assustador.

Thyrza apanhou um terrível guizo, sacudindo-o três vezes, diante de Sybil.

— Tudo está pronto! — disse Thyrza, dando um passo para trás.

Bella repetiu as mesmas palavras.

— Não acho que esteja muito impressionado com este ritual — disse Thyrza. — A maioria dos nossos clientes, porém, fica apavorada. É claro que há um pouco de palhaçada nisto, mas não deve duvidar de tudo. O ritual possui um certo efeito sobre o espírito humano. O que causa a histeria nas massas? Não sabemos ao certo, mas admitimos que é um fenômeno atuante.

Por isso empregamos esta cantilena; é necessária, creia-me.

Bella saiu do celeiro, voltando com um galo branco. Com um pedaço de giz, ela ajoelhou-se e fez alguns riscos no chão, em volta do braseiro e da bacia de cobre. Colocou o galo dentro da bacia; a ave, como por encanto, ficou imóvel. Fez outros riscos, cantando num tom gutural. Não pude compreender suas palavras mas percebi que ela estava se excitando até poder atingir um certo clímax de paroxismo obsceno.

— Não gosta? — perguntou Thyrza, observando-me. — É a velha receita da morte, que vem de geração em geração, transmitida de mãe para filha.

Não podia compreender onde Thyrza pretendia chegar, pois em vez de tentar me convencer ela parecia agir como uma cética comentarista.

Bella estendeu as mãos para o aquecedor e uma chama começou a crepitar. Atirou umas ervas na fogueira, enchendo o ar de um estranho perfume.

— Estamos prontas — disse Thyrza.

Como um cirurgião, ela dirigiu-se para o aparelho parecido com uma vitrola, abriu-o e pude ver uma maquinaria eletrônica complicadíssima. Ela empurrou a estranha máquina para perto do divã. Ajustou os controles.

— Direção... Norte, norte... leste... grau... é isso mesmo.

Pegou a luva, acendendo uma luz violeta, e colocou o foco de luz numa certa posição. — Sybil Diana Helen — disse Thyrza, dirigindo-se à figura inerte no sofá. — Estás livre do teu invólucro mortal. Macandal tomará conta dele. Voe para o lado da dona desta luva que, como todos os seres humanos; só possui um desejo na vida: MORRER. Só a Morte soluciona todos os problemas, só a Morte dá paz verdadeira. Os grandes sabem disso.

Veja Macbeth, veja Tristão e Isolda. Amor e Morte. Amor e Morte.

Sua voz ecoava, repetindo as palavras enquanto a máquina produzia um zumbido e as lâmpadas acendiam e apagavam-se.

Fiquei aterrorizado. Não era mais caçoada, pois Thyrza dominava completamente a figura inerte no sofá, usando-a para um fim criminoso. Percebi então por que a Sra. Oliver tinha tido uma má impressão de Sybil e não de Thyrza; pois a primeira possuía um dom natural nada relacionado com a mente ou com o intelecto. Thyrza, porém, estava controlando o corpo da outra, usando-a... e a máquina? Que relação tinha esta máquina com isso tudo? Senti medo da máquina. Que segredo diabólico possuiria? Que raios emitiria, tão letais capazes de destruir uma pessoa?

Thyrza prosseguia a diabólica liturgia.

— O ponto fraco... há sempre um ponto fraco na carne de uma pessoa. Desta fraqueza vem a força, a força e a paz mental...

a meta é a Morte, a morte natural. Os tecidos do corpo obedecem à mente. Comandando-os em direção à Morte. A Morte vencendo-te: MORTE. O grito aterrorizante foi acompanhado de um gemido animal de Bella, que se levantou com uma faca na mão, decepando a cabeça do frango. O sangue pingou dentro da bacia de cobre. Bella levantou a bacia e gritou: — Sangue... sangue... SANGUE.

Thyrza apanhou a luva e entregou-a a Bella. Esta mergulhou a luva dentro da bacia, devolvendo-a em seguida.

— O sangue... o sangue... o sangue... — gritava Bella, frenética, correndo em volta do braseiro. A chama reacendeu e apagou-se em seguida.

Senti-me mal. Minha cabeça começou a rodar, obrigando-me a segurar no espaldar da cadeira para não cair.

A máquina pareceu desligar-se automaticamente.

A voz de Thyrza voltou a soar pela sala, num tom normal.

— A velha e a nova magia. As velhas crenças e os novos conhecimentos científicos. Juntos vencerão...