O Cavalo Amarelo
Capítulo 13
Narrativa de Mark Easterbrook
Resolvi procurar a Sra. Tuckerton, enfrentando minha natural timidez. Finalmente, cedi à insistência de Ginger, apesar de achar que não estava devidamente preparado para a tarefa.
Ginger, porém, sempre que lhe convinha, demonstrava grande eficiência e determinação.
— Ouça, não há com que se preocupar. O construtor da casa foi Nash e é uma das poucas residências que ele projetou em estilo gótico.
— E por que então eu vou desejar ver semelhante raridade?
— Porque você vai escrever um artigo ou um livro sobre as influências arquitetônicas na vida moderna. Uma coisa dessas...
— Não acho fácil de engolir — protestei.
— Não seja tolo — insistiu ela. — Em arte ou literatura podem-se criar as teorias mais absurdas; se duvidar posso lhe mostrar um tratado sobre a Origem da Besteira.
— Por isso acho você mais qualificada do que eu para fazer essa visita.
— Aí é que se engana — replicou Ginger. — A Sra. Tuckerton, se for desconfiada, recorrerá a um catálogo de historiadores e descobrirá seu nome O meu ela não encontraria!
Apesar de vencido pela argumentação, continuei relutante.
Quando voltei da incrível entrevista com Bradley reuni-me com ela para confabularmos. Ginger, porém, achou tudo muito natural.
— Além do mais, dissipa nossas dúvidas — ajuntou ela. — Agora sabemos que existe uma organização para eliminar parentes ricos...
— Através do ocultismo — concluí.
— Não seja sarcástico. Não pense que só porque Sybil usa aqueles colares ou porque o Sr. Bradley não seja um astrólogo que este pessoal não possui uma fórmula mágica qualquer...
— Se está tão convencida, por que preciso visitar a Sra. Tuckerton?
— Não custa nada termos mais um dado — respondeu Ginger. — Sabemos o que Thyrza Grey diz ser capaz de fazer; sabemos como funciona a parte financeira. Agora precisamos saber o comportamento do cliente.
— E se a Sra. Tuckerton não der mostras de ter sido uma cliente?
— Teremos que partir para outra.
— E se eu falhar?
Ginger tentou me encorajar.
Finalmente cheguei ao palácio semigótico da Sra. Tuckerton.
Realmente o estilo era completamente diverso da obra do arquiteto. O único porém é que o livro prometido sobre a obra de Nash não chegara a tempo, obrigando-me a fazer a visita completamente despreparado para a entrevista.
— Sr. Easterbrook — perguntou o criado. — A Sra. Tuckerton o está aguardando.
Fui conduzido a uma sala de visitas ricamente decorada.
Imediatamente senti uma desagradável sensação: tudo muito caro mas de péssimo gosto. Se não tivessem tido tanta preocupação em ostentar riqueza, seria uma sala simpática. Uma série de quadros dos quais somente dois possuíam algum valor. Um excesso de brocado amarelo completava a opulência do recinto. Minhas conjeturas estéticas foram interrompidas pela entrada da Sra. Tuckerton. Levantei-me com alguma dificuldade das profundezas de um sofá forrado de amarelo-ouro. Não sei descrever o que esperava encontrar, mas senti um certo desapontamento. Diante de mim, estava uma senhora de meia-idade, parecida com todo o mundo, e sem o menor vestígio de maquiavelismo. Não se tratava de uma senhora interessante, nem bondosa. Os lábios, apesar do excesso de batom, eram finos e severos; o queixo ligeiramente recuado; os olhos, de um azul claro, davam a impressão de avaliar o preço de qualquer objeto colocado à frente. Era uma mulher que certamente dava gorjetas pequenas e pensava duas vezes antes de abrir a bolsa. Contrariando o tipo, a Sra. Tuckerton vestia se com esmero e cuidado.
— Sr. Easterbrook? — perguntou ela, obviamente encantada com a visita. — Que prazer! Imagine estar interessado na minha casa. É claro que sabia que foi construída por John Nash; meu marido não se cansava de repetir, mas nunca pensei que pudesse interessar estudiosos famosos como o senhor.
— Na verdade, Sra. Tuckerton — balbuciei, — como é de um estilo completamente diverso da obra dele...
Ela interrompeu minha peroração.
— É pena nada entender sobre o assunto. Realmente não sei coisa alguma de arquitetura ou arqueologia. Espero que minha ignorância não vá atrapalhar.
Quase respondi que a falta de conhecimento por parte dela era exatamente o que eu queria.
— Porém — continuou a Sra. Tuckerton — sempre achei este tipo de coisa bastante interessante.
Expliquei-lhe que nós estudiosos geralmente éramos indivíduos monótonos e sem imaginação. A Sra. Tuckerton protestou, dizendo que era mentira. Em seguida perguntou-me frontalmente se eu desejava tomar chá antes ou depois de visitar a casa.
Não esperava tomar chá, mas não pude recusar. Aceitei, para depois da visita.
Como ela falou o tempo todo, não me senti obrigado a emitir apreciações arquitetônicas.
A Sra. Tuckerton, no meio da conversa, comentou que estava para vender a casa.
— Ficou grande demais para mim, depois da morte do meu marido. Os corretores fizeram a avaliação a semana passada e parece que já arranjaram um comprador.
— Também não gostaria — continuou ela — que o senhor visse a casa vazia. A personalidade de uma casa está na vivência dos ocupantes, não acha?
Sinceramente preferia a casa vazia, mas não poderia ser tão franco. Perguntei se ela pretendia continuar morando no mesmo bairro.
— Para dizer a verdade, não sei. Acho que vou viajar um pouco, em busca do Sol. Odeio nosso clima. Minha ideia é passar o inverno no Egito, onde já estive há dois anos. Que país! O senhor, é claro, já o conhece.
Respondi que não sabia nada sobre o Egito.
— O senhor certamente é um homem modesto — sorriu ela, num tom vago. — Aqui é a sala de jantar octogonal. Não é assim que se diz?
Confirmei suas palavras, admirando a proporção da sala.
Por fim, terminamos a visita e retornamos à sala de visitas. A Sra. Tuckerton pediu o chá. Um criado, mal-humorado, entrou com uma bandeja. Notei que o bule de prata vitoriano precisava ser polido.
— Hoje em dia os empregados são um problema! — suspirou a dona da casa. — Depois que meu marido morreu, o casal que estava com ele há anos quis ir embora. Disseram que iam se aposentar mas eu descobri que na verdade tinham arranjado outro emprego, percebendo um salário altíssimo. Pessoalmente acho um absurdo gastar-se uma fortuna com empregados! O senhor já imaginou quanto eles ganham tendo casa, comida e roupa lavada?
Exatamente como eu pensava. Os olhos claros, a boca cerrada, enfim, os indícios certos da avareza.
Não foi difícil fazê-la falar. A Sra. Tuckerton adorava falar e eu, simplesmente deixando-a livre, consegui saber e apreender mais do que ela certamente desejaria que eu soubesse.
Casou-se com Thomas Tuckerton, um viúvo, cinco anos atrás. Ela era “muito, muito mais jovem” do que ele. Encontraram-se num hotel de veraneio onde ela era recepcionista. Ele tinha uma filha que estava internada no colégio.
— O pobre Thomas era tão só... tinha perdido a mulher e sentia muita falta dela.
A Sra. Tuckerton continuou descrevendo sua imagem para mim: uma senhora bondosa, que teve pena de um velho solitário.
Falou da precária saúde do falecido e da devoção com que ela o tratou.
— É claro que no fim eu acabei tendo que abrir mão até dos meus amigos...
Será que Thomas Tuckerton desconfiava dos amigos dela?
Talvez fosse esta a razão para deixar um testamento tão estranho.
Ginger tinha ido ao cartório e conseguido uma cópia: Boas quantias aos velhos empregados e alguns afilhados. Uma renda mensal razoável mas não generosa à esposa enquanto fosse viva.
O capital e os dividendos para a filha Thomasina Ann, quando se casasse ou completasse vinte e um anos. Caso morresse solteira, a herança reverteria para a madrasta.
O prêmio era grande e a Sra. Tuckerton parecia gostar de dinheiro. Até casar com Tuckerton vivera em dificuldades. Creio que a possibilidade de ficar rica, viúva, ainda jovem, lhe subiu à cabeça.
O testamento certamente devia ter sido um grande golpe. Ela sonhara com algo mais substancial, com a possibilidade de viajar, comprar roupas e joias, enfim, gozar o simples prazer de ter dinheiro no banco.
No entanto a garota ia ficar com tudo! Ia ser a herdeira. Uma garota que não escondia seu ressentimento contra a madrasta. A garota ia ficar com tudo... a não ser que... a não ser quê? Seria possível que esta criatura loura e banal fosse capaz de contratar os serviços do Cavalo Amarelo? Não — não era possível.
Mesmo assim eu precisava ter certeza.
— Não sei se a senhora sabe que eu conheci sua filha, ou melhor, sua enteada — disse eu abertamente.
Ela olhou-me com certo espanto, quase desinteressada.
— Thomasina? É mesmo?
— Sim, em Chelsea.
— Ah! em Chelsea... é claro — ela suspirou. — Esta mocidade de hoje. Tão complicada. Não se tem mais como controlá-los. O pai vivia preocupado, e eu, é claro, mas não podia interferir demais. Além do mais, ela nunca ouviria meus conselhos!
— É uma posição muito difícil — disse eu, com simpatia.
— Não tenho do que me reprovar. Fiz o que pude.
— Disso tenho certeza.
— Mas não adiantou nada. É claro que Tom nunca permitiu que ela fosse grosseira comigo, mas o senhor pode crer que ela não era fácil. Quando decidiu morar sozinha senti-me aliviada. O que aconteceu foi que ela passou a frequentar uma roda muito pesada.
— É o que eu imaginei.
— Pobre Thomasina! — exclamou a Sra. Tuckerton, ajustando um cacho de cabelo louro. — Talvez o senhor não saiba que ela morreu o mês passado, de encefalite.
— Dizem ser uma doença que só ataca os jovens.
— Eu sabia que ela tinha morrido — disse eu, levantando-me para ir embora. — Obrigado, Sra. Tuckerton, pela sua gentileza.
Apertei-lhe a mão e dirigi-me para a porta.
— Por falar nisso — disse eu, voltando-me do hall. — A senhora conhece o Cavalo Amarelo, não conhece?
Não havia dúvida possível diante da reação da Sra. Tuckerton. Pânico, puro pânico, estampado nos olhos azuis. O rosto debaixo da maquilagem tornou-se branco.
— Cavalo Amarelo? Que Cavalo Amarelo? Não sei coisa alguma sobre isso — gritou ela estridentemente.
Fiz um ar de surpresa.
— Ah! Desculpe. Existe uma estalagem antiga em Much Deeping onde passei um dia. Foi transformada numa confortável residência, mantendo porém o estilo. Pensei que fosse seu nome que foi citado, mas talvez tenha sido o da sua enteada ou quem sabe alguma homônima. É um lugar muito famoso.
Retirei-me triunfante. Num dos espelhos do hall, vi o rosto da Sra. Tuckerton refletido. A imagem de uma mulher velha, aterrorizada... um retrato terrível.