O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 35 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 20

Narrativa de Mark Easterbrook

I

 

Na manhã seguinte, quando telefonei para Ginger, contei que estava de mudança para Bournemouth.

— Encontrei um hotel bem simpático, cheio de entradas e saídas. Quem sabe não dou uma escapada até aí?

— Não creio que seja prudente, mas bem que seria bom.

Estou morrendo de tédio. Se você não puder vir quem sabe eu vou até aí.

— Ginger, sua voz está diferente!

— Não é nada demais. Não se preocupe.

— Mas sua voz?

— Estou um pouco rouca.

— Ginger!

— Ouça, Mark, qualquer pessoa pode ficar rouca. Devo ter me resfriado ou quem sabe apanhado uma gripe.

— Gripe? Não tente minimizar os sintomas. Você está realmente passando bem?

— Não se preocupe, já disse. Estou ótima.

— Descreva os sintomas. Está sentindo um princípio de gripe?

— Bem... sinto umas dores no corpo.

— Febre?

— Talvez um pouco...

Fiquei imobilizado de pavor. Percebi que Ginger, apesar de negar, estava com medo também.

— Mark, não entre em pânico. Controle-se, senão tudo estará perdido.

— A primeira providência é telefonar imediatamente para seu médico.

— Está bem, só que ele vai achar um absurdo.

— Não importa. Quando ele for embora telefone para mim.

Fiquei uns instantes contemplando o telefone. Pânico, não podia me entregar ao pânico... afinal gripe todo o mundo tem, principalmente nesta época do ano... o médico nem ia dar bola. Uma série de imagens apareceram em minha mente... Sybil estendida no sofá... a voz de Thyrza, comandando a Morte... e Bella invocando os maus espíritos enquanto sacrificava o galo. Bobagens... tudo bobagens... e superstições. E a caixa? Que dizer da caixa? Não se tratava mais de uma superstição e sim do desenvolvimento de uma possibilidade científica. Mas, não era possível...

A Sra. Dane Calthrop encontrou-me ainda absorto, em frente do telefone.

— O que aconteceu? — perguntou ela.

— Ginger não está se sentindo bem.

Desejei que ela me convencesse de que eu estava fantasiando.

— Que pena! Não gosto nada disso.

— Não é possível — protestei — que eles sejam capazes de fazer isso!

— Você acha?

— A senhora não acredita que...

— Meu caro Mark — interrompeu a Sra. Dane Calthrop, — nós três, eu, você e Ginger admitimos esta possibilidade, senão por que continuaríamos com esta investigação?

— O fato de acreditarmos torna a coisa mais real.

— Não sei realmente se acreditamos... eu creio que estávamos querendo uma prova para podermos acreditar.

— Prova? Que prova?

— O fato de Ginger ter ficado doente é uma prova — respondeu a Sra. Dane Calthrop.

— Precisa ser tão agourenta? Ela está resfriada ou gripada.

Não há razão para fazermos um drama.

— Mas se for um drama é melhor enfrentarmos a situação em vez de agirmos como avestruzes.

— Como posso acreditar que aquela cantilena, aqueles transes deram resultado?

— Alguma coisa dá resultado — respondeu ela. — Isto não se pode negar. É claro que elas criam um espetáculo para dar mais atmosfera, mas atrás disso tudo está uma coisa que funciona.

— Como uma onda curta?

— Algo parecido. A ciência avança dia a dia e torna-se cada vez mais assustadora. Qualquer variação desses novos avanços tecnológicos poderia ser adaptado por pessoas inescrupulosas. O

pai de Thyrza foi um físico...

— E daí? Aquela maldita caixa! Se ao menos pudéssemos examiná-la; se a polícia...

— Não se pode contar com a polícia para dissipar suspeitas...

— E se eu invadisse a casa dela e arrebentasse a caixa?