O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 40 de 43

Páginas do PDF

O Cavalo Amarelo

Capítulo II

 

Eillen Brandon tinha sido bem descrita por Poppy: um cabelo alourado em coque, no alto da cabeça, como um ninho de passarinho. Pouca pintura, sapatos de salto baixo, roupas severas. O marido tinha falecido em consequência de um desastre de automóvel, deixando-a viúva com dois filhos.

Seu emprego anterior tinha sido numa firma chamada Reação Classificada de Consumidores onde trabalhara um ano e pouco. Largou o emprego pois não gostava do serviço.

— Por que Sra. Brandon? — perguntou Lejeune — O senhor é da polícia, não é?

— Sou.

— Acha que há algo de errado com aquela firma?

— Estou simplesmente investigando. A senhora suspeitou de algo? Foi por isso que saiu?

— Não tenho coisa alguma a declarar.

— Compreendemos. Gostaria de que soubesse que esta investigação é totalmente confidencial.

— Pois não, mesmo assim acho que não tenho muito a dizer.

— Pode nos contar porque se despediu.

— Achei que estavam acontecendo coisas que eu não compreendia bem.

— Coisas que não lhe diziam respeito?

— Mais ou menos. Como se a firma não fosse cem por cento profissional. Suspeitei de que coisas escusas estivessem acontecendo, mas não podia precisar o quê.

Lejeune quis saber mais detalhes sobre o emprego. Eillen explicou que uma lista de nomes era dada a cada entrevistadora, cujo trabalho era visitar algumas pessoas, fazer umas perguntas e anotar as respostas.

— E o que tinha isso de errado?

— As perguntas não pareciam conclusivas com qualquer tipo de pesquisa. Como se quisessem descobrir alguma outra coisa...

— O que, por exemplo?

— Não sei. Isso é que me intrigava.

Eillen Brandon calou-se por uns instantes.

— Pensei a princípio — continuou ela, — que fosse uma gangue de assaltantes ou coisa parecida. Conclui que não pois o questionário não pedia descrição dos quartos etc.... nem mesmo os horários em que as pessoas estavam em casa...

— Que tipo de produtos faziam parte do questionário?

— Variavam. As vezes eram sobre comida, cereais, misturas de bolos, ou tipos de sabão, detergentes. As vezes sobre remédios, aspirinas, pastilhas contra a tosse, calmantes, gargarejos.

— Não lhe pediam para levar amostras? — perguntou Lejeune.

— Não.

— Seu trabalho, portanto, consistia em anotar as respostas?

— Sim.

— Com que finalidade?

— Isto é que eu não compreendia. Também não éramos informadas. Eles pretendiam que certas firmas gostariam de obter informações mais detalhadas sobre o mercado de consumo. O que eu estranhava era exatamente a forma amadorística e desorganizada com que o trabalho era conduzido.

— Seria possível que entre as perguntas que a senhora devia fazer houvesse uma específica que contivesse a meta do questionário e que as outras fossem unicamente empregadas como disfarce?

Ela pareceu intrigada com a pergunta.

— Sim — respondeu, depois de uma certa hesitação. — Talvez por isso as perguntas fossem tão disparatadas. Só não imagino qual seria ou quais seriam as perguntas chaves.

Lejeune olhou para a Sra. Brandon.

— A senhora deve saber mais — disse ele com suavidade.

— O estranho é que eu não sei. Eu simplesmente achei que havia algo de errado. Cheguei a falar com a Sra. Davis.

— Falou com a Sra. Davis?

— Ela também não estava muito satisfeita.

— E por quê?

— Parece que ouviu qualquer coisa.

— O que foi?

— Já lhe disse que não posso ser tão precisa. Ela não falou claramente. Só disse: — Isto aqui não é o que parece ser! Disse também: — Afinal não temos nada com isso. Ganhamos um bom dinheiro e não estamos infringindo a lei, portanto não vejo motivo para nos preocuparmos.

— É tudo?

— Ela disse mais, mas confesso que não entendi. Às vezes, me sinto como um vírus maligno!, disse ela. Não compreendi o que ela quis dizer.

Lejeune tirou um papel do bolso e entregou à Sra. Brandon.

— Conhece alguns destes nomes? Visitou-os alguma vez?

— Não lembro. Visitei tanta gente...

Os olhos da Sra. Brandon pousaram sobre um nome: Ormerod.

— Lembra-se de algum Ormerod?

— Não, mas a Sra. Davis falou nele. Morreu de repente vitimado por uma hemorragia cerebral. Ela ficou abaladíssima. — Ela estava na minha relação de clientes há quinze dias. Estava tão bem de saúde, comentou ela. Foi então que fez aquele comentário sobre o vírus maligno. Disse mais: — Basta eu visitar uma pessoa para que ela abotoe o paletó em seguida! Ela riu, dizendo que devia tratar-se de uma coincidência. Mas eu notei que ela tinha ficado impressionada.

— É tudo?

— Bem...

— Fale.

— Tempos depois encontrei-a num restaurante. Contei que tinha me demitido da firma e ela quis saber por quê. Expliquei que me sentia mal por não entender direito o que acontecia lá. — Pode ser que você tenha feito bem, disse ela, mas eles pagam bem e o horário é ótimo. Eu nunca tive sorte na vida, por isso vou aproveitar minha oportunidade. Afinal, que me importa o que acontece aos outros?

Respondi que não estava entendendo bem, perguntei o que havia de errado naquilo tudo. — Não sei ao certo, respondeu-me ela, — só sei que vi, outro dia, saindo de um apartamento, um sujeito que não tinha razão alguma para estar lá. Carregava uma maleta de ferramentas. O que estaria ele fazendo lá? Em seguida ela perguntou se eu havia conhecido uma mulher que trabalhava no Cavalo Amarelo. Perguntei o que era o Cavalo Amarelo e o que tinha a ver com a firma.

— E o que ela respondeu?

— Leia a Bíblia, foi a resposta. Não sei o que ela quis dizer com isso! Foi essa a última vez que eu a vi. Não sei onde anda ou se ainda trabalha na firma.

— Ela morreu — informou Lejeune.

Eillen Brandon teve um choque.

— Morta? Como?

— De pneumonia. Há dois meses.

— Que pena!

— Gostaria de nos contar algo mais?

— Não sei. Já ouvi falarem do Cavalo Amarelo, mas sempre que quero mais informações as pessoas se calam. Parece que ficam com medo.

A Sra. Brandon parecia nervosa.

— Não quero me envolver em negócios perigosos, Inspetor.

Tenho dois filhos pequenos. Sinceramente, não sei mais nada.

O Inspetor a olhou fixamente e fez sinal para que ela se retirasse.

— Demos um bom passo — disse ele, assim que ela saiu. — A Sra. Davis certamente sabia demais. Tentou fechar os olhos para o que estava acontecendo, mas o fato de ela saber algo acabou condenando-a. Quando ela ficou doente e percebeu que ia morrer chamou o padre e contou tudo o que sabia ou suspeitava.

O que ela falou não sabemos. Devia ser a tal lista, com os nomes das pessoas que ela visitou e que morreram em seguida. Daí o comentário dela sobre o vírus maligno. Gostaria de saber também quem ela reconheceu, saindo de um apartamento disfarçado de operário. Foi por isso que ela morreu, pois o tal homem também deve tê-la reconhecido. Se ela falou com o padre é claro que precisavam matá-lo também, senão tudo estaria perdido. Que acha?

— Acho que você tem razão — concordei.

— Talvez você saiba quem é esse homem...

— Tenho uma ideia, mas...

— Já sei, já sei. Não temos prova...

Lejeune fez uma pequena pausa; em seguida, levantou-se.

— Vamos apanhá-lo. Só precisamos ter certeza de quem seja. Quando soubermos ao certo vamos preparar uma boa armadilha. Você vai ver.