O Cavalo Amarelo
Capítulo II
Eillen Brandon tinha sido bem descrita por Poppy: um cabelo alourado em coque, no alto da cabeça, como um ninho de passarinho. Pouca pintura, sapatos de salto baixo, roupas severas. O marido tinha falecido em consequência de um desastre de automóvel, deixando-a viúva com dois filhos.
Seu emprego anterior tinha sido numa firma chamada Reação Classificada de Consumidores onde trabalhara um ano e pouco. Largou o emprego pois não gostava do serviço.
— Por que Sra. Brandon? — perguntou Lejeune — O senhor é da polícia, não é?
— Sou.
— Acha que há algo de errado com aquela firma?
— Estou simplesmente investigando. A senhora suspeitou de algo? Foi por isso que saiu?
— Não tenho coisa alguma a declarar.
— Compreendemos. Gostaria de que soubesse que esta investigação é totalmente confidencial.
— Pois não, mesmo assim acho que não tenho muito a dizer.
— Pode nos contar porque se despediu.
— Achei que estavam acontecendo coisas que eu não compreendia bem.
— Coisas que não lhe diziam respeito?
— Mais ou menos. Como se a firma não fosse cem por cento profissional. Suspeitei de que coisas escusas estivessem acontecendo, mas não podia precisar o quê.
Lejeune quis saber mais detalhes sobre o emprego. Eillen explicou que uma lista de nomes era dada a cada entrevistadora, cujo trabalho era visitar algumas pessoas, fazer umas perguntas e anotar as respostas.
— E o que tinha isso de errado?
— As perguntas não pareciam conclusivas com qualquer tipo de pesquisa. Como se quisessem descobrir alguma outra coisa...
— O que, por exemplo?
— Não sei. Isso é que me intrigava.
Eillen Brandon calou-se por uns instantes.
— Pensei a princípio — continuou ela, — que fosse uma gangue de assaltantes ou coisa parecida. Conclui que não pois o questionário não pedia descrição dos quartos etc.... nem mesmo os horários em que as pessoas estavam em casa...
— Que tipo de produtos faziam parte do questionário?
— Variavam. As vezes eram sobre comida, cereais, misturas de bolos, ou tipos de sabão, detergentes. As vezes sobre remédios, aspirinas, pastilhas contra a tosse, calmantes, gargarejos.
— Não lhe pediam para levar amostras? — perguntou Lejeune.
— Não.
— Seu trabalho, portanto, consistia em anotar as respostas?
— Sim.
— Com que finalidade?
— Isto é que eu não compreendia. Também não éramos informadas. Eles pretendiam que certas firmas gostariam de obter informações mais detalhadas sobre o mercado de consumo. O que eu estranhava era exatamente a forma amadorística e desorganizada com que o trabalho era conduzido.
— Seria possível que entre as perguntas que a senhora devia fazer houvesse uma específica que contivesse a meta do questionário e que as outras fossem unicamente empregadas como disfarce?
Ela pareceu intrigada com a pergunta.
— Sim — respondeu, depois de uma certa hesitação. — Talvez por isso as perguntas fossem tão disparatadas. Só não imagino qual seria ou quais seriam as perguntas chaves.
Lejeune olhou para a Sra. Brandon.
— A senhora deve saber mais — disse ele com suavidade.
— O estranho é que eu não sei. Eu simplesmente achei que havia algo de errado. Cheguei a falar com a Sra. Davis.
— Falou com a Sra. Davis?
— Ela também não estava muito satisfeita.
— E por quê?
— Parece que ouviu qualquer coisa.
— O que foi?
— Já lhe disse que não posso ser tão precisa. Ela não falou claramente. Só disse: — Isto aqui não é o que parece ser! Disse também: — Afinal não temos nada com isso. Ganhamos um bom dinheiro e não estamos infringindo a lei, portanto não vejo motivo para nos preocuparmos.
— É tudo?
— Ela disse mais, mas confesso que não entendi. Às vezes, me sinto como um vírus maligno!, disse ela. Não compreendi o que ela quis dizer.
Lejeune tirou um papel do bolso e entregou à Sra. Brandon.
— Conhece alguns destes nomes? Visitou-os alguma vez?
— Não lembro. Visitei tanta gente...
Os olhos da Sra. Brandon pousaram sobre um nome: Ormerod.
— Lembra-se de algum Ormerod?
— Não, mas a Sra. Davis falou nele. Morreu de repente vitimado por uma hemorragia cerebral. Ela ficou abaladíssima. — Ela estava na minha relação de clientes há quinze dias. Estava tão bem de saúde, comentou ela. Foi então que fez aquele comentário sobre o vírus maligno. Disse mais: — Basta eu visitar uma pessoa para que ela abotoe o paletó em seguida! Ela riu, dizendo que devia tratar-se de uma coincidência. Mas eu notei que ela tinha ficado impressionada.
— É tudo?
— Bem...
— Fale.
— Tempos depois encontrei-a num restaurante. Contei que tinha me demitido da firma e ela quis saber por quê. Expliquei que me sentia mal por não entender direito o que acontecia lá. — Pode ser que você tenha feito bem, disse ela, mas eles pagam bem e o horário é ótimo. Eu nunca tive sorte na vida, por isso vou aproveitar minha oportunidade. Afinal, que me importa o que acontece aos outros?
Respondi que não estava entendendo bem, perguntei o que havia de errado naquilo tudo. — Não sei ao certo, respondeu-me ela, — só sei que vi, outro dia, saindo de um apartamento, um sujeito que não tinha razão alguma para estar lá. Carregava uma maleta de ferramentas. O que estaria ele fazendo lá? Em seguida ela perguntou se eu havia conhecido uma mulher que trabalhava no Cavalo Amarelo. Perguntei o que era o Cavalo Amarelo e o que tinha a ver com a firma.
— E o que ela respondeu?
— Leia a Bíblia, foi a resposta. Não sei o que ela quis dizer com isso! Foi essa a última vez que eu a vi. Não sei onde anda ou se ainda trabalha na firma.
— Ela morreu — informou Lejeune.
Eillen Brandon teve um choque.
— Morta? Como?
— De pneumonia. Há dois meses.
— Que pena!
— Gostaria de nos contar algo mais?
— Não sei. Já ouvi falarem do Cavalo Amarelo, mas sempre que quero mais informações as pessoas se calam. Parece que ficam com medo.
A Sra. Brandon parecia nervosa.
— Não quero me envolver em negócios perigosos, Inspetor.
Tenho dois filhos pequenos. Sinceramente, não sei mais nada.
O Inspetor a olhou fixamente e fez sinal para que ela se retirasse.
— Demos um bom passo — disse ele, assim que ela saiu. — A Sra. Davis certamente sabia demais. Tentou fechar os olhos para o que estava acontecendo, mas o fato de ela saber algo acabou condenando-a. Quando ela ficou doente e percebeu que ia morrer chamou o padre e contou tudo o que sabia ou suspeitava.
O que ela falou não sabemos. Devia ser a tal lista, com os nomes das pessoas que ela visitou e que morreram em seguida. Daí o comentário dela sobre o vírus maligno. Gostaria de saber também quem ela reconheceu, saindo de um apartamento disfarçado de operário. Foi por isso que ela morreu, pois o tal homem também deve tê-la reconhecido. Se ela falou com o padre é claro que precisavam matá-lo também, senão tudo estaria perdido. Que acha?
— Acho que você tem razão — concordei.
— Talvez você saiba quem é esse homem...
— Tenho uma ideia, mas...
— Já sei, já sei. Não temos prova...
Lejeune fez uma pequena pausa; em seguida, levantou-se.
— Vamos apanhá-lo. Só precisamos ter certeza de quem seja. Quando soubermos ao certo vamos preparar uma boa armadilha. Você vai ver.