O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 26 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 14

Narrativa de Mark Easterbrook

I

 

— Agora temos certeza — disse Ginger.

— Já tínhamos.

— Mas esta história fecha o circulo.

Calei-me um instante e imaginei a Sra. Tuckerton, indo para Birmingham encontrar o Sr. Bradley. A apreensão nervosa por parte dela em contrapartida com a reconfortante bonomia de Bradley; gentilmente sublinhando a ausência do perigo. Podia vê-la partindo sem se comprometer, deixando aos poucos a ideia enraizar-se no pensamento. Quem sabe se a enteada não veio passar um fim de semana em casa e sugeriu um casamento iminente? E durante todo o tempo o pensamento constante: DINHEIRO. A possibilidade de não ter mais que se preocupar com economias, o início de uma vida de prazeres e diversões! Mas, no caminho uma garota degenerada, sem educação, eternamente metida nuns blue jeans imundos, gastando a vida em bares mal afamados, convivendo com a laia de Chelsea. Por que uma moça dessas, uma criatura que certamente iria acabar mal, teria o direito de roubar-lhe a felicidade?

Por isso voltou a Birmingham, tomando todas as precauções.

Discutiram os termos, o que me fez sorrir, pois não creio que o Sr. Bradley tenha conseguido levar a melhor com uma mercenária da classe da Sra. Tuckerton. Finalmente devem ter chegado a um acordo qualquer. Mas e depois?

Não consegui visualizar o desconhecido. Notei que Ginger me observava.

— Já imaginou como funciona o negócio? — perguntou ela.

— Como você sabe que eu estava imaginando isso?

— Começo a compreender o mecanismo de seu raciocínio.

Você estava tentando visualizar a Sra. Tuckerton sendo entrevistada por Bradley.

— É mesmo, mas fui interrompido quando ela conseguiu fechar o negócio. O que aconteceu depois?

Entreolhamo-nos atônitos.

— Mais cedo ou mais tarde — disse Ginger — alguém tem que descobrir o que acontece no Cavalo Amarelo.

— Como?

— Não sei. Sei que não será fácil. Nenhuma delas falará e só elas podem falar porque são as únicas que sabem. É um problema... será que...

— E se fôssemos à polícia? — sugeri.

— Por que não? Já temos o material suficiente para abrir o caso.

Sacudi a cabeça em dúvida.

O material prova que há intenção, mas não é o suficiente.

Caímos naquela história do desejo de morte. Sei que não é besteira — fiz um gesto com a mão, antecipando a resposta de Ginger — mas num tribunal ninguém nos acreditaria. Nem ao menos sabemos como eles agem.

— Portanto temos que descobrir isso também. Mas como?

— Precisamos estar presentes para ver e ouvir. Mas não vejo possibilidade de alguém esconder-se naquele galpão, onde elas fazem sabe Deus o quê!

Ginger empertigou-se e jogou os cabelos para trás.

— Só temos uma saída. Você precisa se tomar cliente da firma.

Olhei para ela espantado.

— Cliente?

— Sim. Ou eu ou você, não importa. Precisamos querer eliminar uma pessoa. Um de nós tem que contratar Bradley.

— Não gosto disso.

— E por quê?

— Porque nos expõe ao perigo.

— Para nós?

— Talvez. No fundo eu estava pensando na vítima, pois vamos ter que arranjar uma. Não podemos inventar uma pessoa...

eles devem verificar todas as informações.

Ginger pensou uns momentos.

— Realmente a vítima precisa ser uma pessoa verdadeira que more num lugar determinado.

— Por isso não gosto da ideia. Além do mais precisaremos de uma razão para eliminar essa pessoa.

Calamo-nos um instante, considerando esta possibilidade.

— A vítima teria que saber de tudo e concordar conosco — disse eu. — Não acha que seria pedir demais?

— Tudo tem que ser preparado nos mínimos detalhes — disse Ginger. — Numa coisa você tem razão. O único defeito do negócio é que o segredo não pode ser tão inviolável, senão eles não arranjariam outros clientes.

— O que me espanta — retorqui — é a polícia não saber disso. Geralmente ela está a par de tudo...

— A única explicação que posso oferecer é o fato de eles possuírem uma organização totalmente composta por amadores.

Não devem empregar, nem envolver criminosos profissionais. Não se trata da Mafia, tudo é feito por diletantes.

Concordei com Ginger.

— Vamos imaginar — continuou ela, que eu ou você (examinaremos as duas possibilidades) estamos desesperados para eliminar um inimigo. Quem seria? Eu tenho um tio de quem vou herdar uma bolada assim que ele morrer. Os herdeiros somos eu e um primo que mora na Austrália. Portanto tenho um motivo.

Como meu tio já está com setenta e tantos anos, e um pouco caduco, seria mais razoável esperar que a natureza se encarregue dele. Porém, vamos imaginar que eu esteja precisando de dinheiro, mas como vamos criar esta situação? Além do mais, caduco ou não, eu adoro meu tio e não quero privá-lo de um minuto sequer de uma existência que tanto o diverte. Não posso correr este risco.

E você? Tem algum parente de quem vai herdar?

Sacudi a cabeça.

— Ninguém.

— Que pena! Talvez possamos inventar uma situação de chantagem? Mas isto certamente daria muito trabalho. Você não tem nada a perder, não é político, nem membro do Corpo Diplomático. Eu, muito me nos. Há cinquenta anos atrás seria fácil, forjaríamos umas cartas, tiraríamos umas fotografias comprometedoras, mas hoje em dia quem dá importância a isto?

Que mais poderíamos tentar? Bigamia! Que pena você nunca ter casado — suspirou Ginger, com ar de reprovação, poderíamos partir de uma confusão matrimonial.

Pela expressão do meu rosto, Ginger notou ter tocado num ponto nevrálgico.

— Desculpe — disse ela. — Eu toquei num ponto sensível?

— Não propriamente. Já faz tanto tempo, que acho que ninguém mais se lembra disso.

— Você já foi casado?

— Sim, quando ainda era universitário. Não contamos a ninguém. Minha família seria contra. Além do mais não tínhamos ainda atingido a maioridade.

Fiz uma pausa, rememorando o passado.

— Não duraria muito — continuei, — hoje sei disso. Ela era bonita, meiga, mas...

— O que aconteceu?

— Fomos passar umas longas férias na Itália. Houve um acidente de automóvel. Ela morreu instantaneamente.

— Você também ficou ferido?

— Não, ela estava com outro homem... um amigo...

Ginger lançou-me um rápido olhar, compreendendo o que senti quando descobri que a moça com quem tinha me casado não me era fiel.

— Você se casou na Inglaterra? — perguntou ela, voltando ao assunto que nos interessava.

— Sim, num cartório em Peterborough.

— Mas ela morreu na Itália?

— Sim.

— Portanto, o atestado de óbito não foi tirado aqui?

— Não.

— Que mais precisamos? É o ideal. Você está apaixonado e quer se casar, mas não sabe se sua mulher ainda está viva; você está separado há anos e não teve mais notícias dela. Nesta altura reaparece a esposa, se recusa a dar o divórcio e além disso ameaça contar tudo a sua namorada.

— Quem é minha namorada? — perguntei confuso. — Você?

Ginger pareceu surpresa.

— De maneira alguma! Quem iria acreditar que eu largaria você só porque não podemos casar na igreja? Não, sua namorada é aquela morena escultural e distante com quem você frequenta os concertos...

— Hermia Redcliffe?

— Esta mesmo.

— Quem lhe falou sobre ela?

— Poppy. Sua namorada é bastante rica, não é?

— É. Mas eu não...

— Não estou insinuando que você vai casar com ela por causa do dinheiro. Um tipo como Bradley porém acreditaria nisso... Muito bem, aí está nossa estratégia: quando você está para pedir Hermia em casamento, surge sua ex-esposa. Você pede o divórcio mas ela nega. Trata-se de uma criatura vingativa. Aí você ouve falar no Cavalo Amarelo. Além do mais aposto o que você quiser que Thyrza e Bella acharam que sua visita, naquele dia, foi intencional, por isso Thyrza foi tão incisiva. Ela estava simplesmente demonstrando as vantagens da sua organização.

— Pode ser — concordei, rememorando a visita.

— Sua ida a Bradley, em seguida, se encaixa perfeitamente neste esquema. Você é um possível cliente.

Ginger ficou me olhando com um ar de triunfo.

— Mesmo assim — insisti — eles vão fazer uma investigação minuciosa.

— Claro que vão — concordou Ginger.