O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 17 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo II

Seria coincidência que Sandford e Parkinson tinham se hospedado, em épocas diversas, no mesmo hotel no ano passado?

Os dois homens estavam na lista do padre Gorman. Outro nome que eu havia guardado era o de Martin Digby, que se era quem eu pensava que fosse, era o sobrinho de minha tia Min... ou melhor Lady Hesketh-Dubois.

Passei a andar a esmo, procurando com quem pudesse conversar. Jim Corrigan ou David Ardingly ou Hermia, sempre tão sensata... Eu estava confuso, cheio de pensamentos caóticos e não queria ficar só. O que eu queria, verdadeiramente, era uma pessoa sensata que discutisse comigo e me convencesse de que eu estava errado.

Depois de andar pelas vielas lamacentas fui parar na porta da casa do vigário. Resolvi entrar.

II

 

— Não funciona — disse a Sra. Dane Calthrop, abrindo a porta.

Eu já havia desconfiado.

— Consertaram duas vezes — continuou ela — mas não durou. Por isso fico sempre alerta para não perder coisa alguma de importância. É importante?

— Sim, bem... quero dizer... para mim é.

— É isso que eu queria saber — disse ela, olhando para mim com apreensão. — Pelo jeito parece grave. Quer falar com o vigário?

— Não sei.

Na verdade eu queria falar com o vigário, mas naquele momento estava em dúvida. Sem querer a Sra. Dane Calthrop me deu a resposta.

— Meu marido é um homem muito bom além de ser vigário e religioso. Isto às vezes dificulta as coisas. As pessoas boas não entendem o mal. É melhor falar comigo — concluiu ela depois de uma breve pausa.

Desenhei um ligeiro sorriso.

— É seu departamento?

— Acho que sim. Numa paróquia é necessário alguém que conheça todos os pecados que existem no mundo.

— Mas não é esta a profissão do seu marido? Pelo menos a profissão oficial?

— Ele perdoa os pecados — corrigiu a Sra. Dane Calthrop. — Absolve-os, eu não posso fazer isto, mas em compensação — prosseguiu ela animadamente — posso dividi-los, classificá-los.

Tomando conhecimento dos pecados podemos impedir que eles prejudiquem as pessoas. Não posso ajudar muito, só Deus pode, como o senhor já sabe. Ou não sabe? Hoje em dia ninguém sabe...

— Não posso competir com seu profundo conhecimento da matéria, mas gostaria de impedir que prejudicassem outras pessoas.

Ela olhou para mim espantada.

— É isto então? É melhor entrar.

A sala da paróquia era uma peça espaçosa e desarrumada, repleta de folhagens mal tratadas; apesar disso não tinha um aspecto lúgubre mas sim de paz. As velhas poltronas, um relógio de pé, tudo enfim, dava ao visitante a calma necessária para uma conversa profunda em que se pudesse dizer tudo o que se pensa, esquecendo os problemas exteriores.

Nesta sala, pensei, muitas moças deviam ter chorado quando vieram confessar que estavam grávidas e confiando na Sra. Dane Calthrop receberam a ajuda compreensiva, e nem sempre ortodoxa, que ela podia oferecer; outros vieram se queixar dos sogros ou sogras; algumas mães justificaram os filhos; casais pediram ajuda para a resolução dos problemas conjugais.

E cá estava eu, Mark Easterbrook, professor, estudioso, autor, confrontando uma senhora simpática de cabelos grisalhos e olhos bondosos, pronto para confessar meus problemas. Por quê?

Não sabia! Mas tinha certeza de que tinha vindo ao lugar certo — Acabamos de tomar chá com Thyrza Grey — disse eu.

Não era difícil explicar certas coisas à Sra. Calthrop. Ela possuía o dom da inferência.

— Compreendo. O senhor ficou perturbado? Também acho que são três mulheres muito estranhas! Vivo me perguntando se tanta bazófia é necessária... como regra geral sei que cão que ladra não morde mas... Elas podiam ao menos ser mais discretas.

Agem como se os pecados que cometem não fossem tão terríveis e por isso discutem com a maior naturalidade. O pecado no fundo é uma coisinha tão ignóbil e desprezível, que as pessoas sentem obrigação de engrandecê-lo ou torná-lo importante. Geralmente as bruxas da cidade não passam de velhas tolas que se divertem em assustar as pessoas. Aliás não é difícil assustar os crédulos.

Quando, por exemplo, as galinhas de Dona Fulana morrem, é muito fácil menear a cabeça e murmurar: Se ao menos o menino não tivesse maltratado a gata dela a semana passada! Bella Webb talvez seja este tipo de feiticeira ou talvez seja algo mais... este outro tipo de maldade é mais perigoso e não está ligado à necessidade de impressionar as pessoas. Sybil Stamfordis é uma das criaturas mais tolas que conheci mas é realmente uma médium e Thyrza, bem... essa eu não sei... o que ela disse para o senhor? Foi ela quem o perturbou de tal forma?

— A senhora tem um grande tirocínio, Sra. Calthrop.

Gostaria de que me dissesse se acha possível alguém destruir uma pessoa a distância, sem conexão aparente?

Os olhos da Sra. Dane Calthrop se arregalaram.

— O senhor quer dizer assassinar? Fala em destruir no sentido físico do verbo?

— Sim.

— Eu diria que é besteira — retrucou ela com ênfase.

— Ah! — suspirei aliviado.

— Mas posso estar enganada — continuou ela. — Meu pai considerava os aeroplanos uma impossibilidade e meu avô provavelmente tinha esta mesma opinião a respeito das estradas de ferro. Os dois tinham razão na época, porque essas coisas não existiam. Do que Thyrza Grey pretende ser capaz? Ativar um raio mortal? Ou desenhar pentagramas no chão e invocar forças ocultas?

— A senhora está me devolvendo a objetividade — respondi, sorrindo. — Aquela mulher deve ter-me hipnotizado.

— Não creio. O senhor não me parece tão sugestionável.

Deve ter havido outra coisa... que antecedeu a visita. O que foi?

— Tem razão.

Descrevi o melhor possível o crime do padre Gorman e a história de Poppy sobre o Cavalo Amarelo. Em seguida, tirei do bolso a lista de nomes que o Dr. Corrigan me havia dado.

— Hummm, compreendo — disse ela, — estas pessoas têm algo em comum?

— Não sabemos. Pode ser chantagem ou drogas...

— Não creio — disse a Sra. Calthrop. — E não é isto que o preocupa. O senhor está preocupado com a possibilidade de eles estarem mortos...

Suspirei.

— Sim é isso. Só não tenho certeza. Três já morreram: Minnie Hesketh-Dubois, Thomasina Tuckerton, Mary Delafontaine. Todas as três de causas naturais, como Thyrza Grey diz ser capaz de eliminar as vítimas.

— Ela disse isso?

— Não exatamente. Ela não se referiu a uma pessoa especificamente, expôs somente uma possibilidade científica.

— Que parece ser bastante improvável — concluiu a Sra. Calthrop, pensativa.

— Sei bem disso. Naturalmente não levaria esta conversa a sério se não fosse a história do Cavalo Amarelo.

— Ah! O Cavalo Amarelo.

A Sra. Calthrop ficou calada por uns instantes. Em seguida, levantou a cabeça.

— Não gosto disso — disse ela. — Seja lá o que for temos que pôr um fim nesta história.

— Sei bem... mas que podemos fazer?

— O senhor precisa descobrir tudo e sem perda de tempo — disse a Sra. Calthrop, passando pela sala, cheia de energia e atividade. — Já! Não conhece alguém que possa ajudá-lo?

Pensei em Jim Corrigan que eliminei imediatamente pois vivia ocupado. David Ardingly que não acreditaria em mim e em Hermia, uma mulher inteligente, lógica, um pilar de força e sabedoria. Minha noiva...

— Pensou? Ótimo! — exclamou a Sra. Dane Calthrop. — Vigiarei as três bruxas apesar de achar que a resposta não está com elas. É como ouvir as sandices de Sybil sobre pirâmides e templos egípcios, e no entanto existem pirâmides e templos egípcios. Creio, contudo, que Thyrza Grey sabe algo e usa este conhecimento para pavonear seu ocultismo, engrandecendo desta forma sua importância. As pessoas, às vezes, se orgulham da própria maldade. Só os bons não sentem esta necessidade. Estranho, não é? Creio que é isto que chamam humildade cristã; isto é, o desconhecimento da própria bondade. — Ela calou-se por uns instantes e finalmente concluiu: — O que precisamos é um elo. Uma ligação entre estes nomes e o Cavalo Amarelo. Algo palpável.