O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 3 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 1

Narrativa de Mark Easterbrook

 

I

A máquina de café expresso sibilou atrás de mim como uma serpente enraivecida; um som sugestivamente sinistro e demoníaco. Por uns instantes, fiquei a cismar se os barulhos da vida moderna não possuíam esta implicação: o grito intimidadoramente raivoso dos aviões a jato, cruzando os céus, o som vagaroso e ameaçador de um trem subterrâneo, aproximando-se de um túnel; o rumor dos caminhões, sobre as calçadas, sacudindo as fundações das casas... até os pequenos ruídos domésticos, embora úteis, carregam consigo uma espécie de sinal de alarme: lavadores de pratos, geladeiras, panelas de pressão, aspiradores de pó. — Cuidado! — parecem murmurar — Sou um gênio obrigado a servi-lo, mas se você falhar...

Um mundo perigoso, sem dúvida!

Levantei a xícara escaldante e aspirei o agradável odor.

— Que mais deseja? Que tal um bom sanduíche de bacon com banana?

Pareceu-me uma combinação esdrúxula. Banana para mim estava associada a minha infância ou como sobremesa servida flambée com rum; bacon sempre com ovos. Porém eu estava em Chelsea*, portanto devia seguir os costumes locais. Concordei com a sugestão e pedi banana com bacon.

Embora eu estivesse morando em Chelsea, nos últimos três meses, ainda era um estranho no bairro.

Estava escrevendo um livro sobre arquitetura mongólica, o que significava que eu poderia estar vivendo em qualquer outro bairro de Londres. Não precisava participar da vida do bairro, para exercer minha profissão. Por outro lado, não tinha o menor interesse na vida da vizinhança. Vivia encasulado no meu mundo particular.

Nesta noite, porém, eu estava em casa, quando fui atacado pela revolta tão comum aos escritores.

Arquitetura mongólica, imperadores mongóis. O cotidiano mongol e todos os seus fascinantes problemas tinham se transformado, para mim, numa montoeira de cinzas. O que importava tudo isso? Por que escrever sobre este assunto? Folheei distraidamente o manuscrito, relendo algumas passagens.

Pareceu-me uniformemente fraco, mal escrito e sem interesse.

Quem disse (Henry Ford, talvez), que a História é um montão de besteiras! estava com a razão. Empurrei o manuscrito para o lado, levantei-me e olhei o relógio. Quase onze horas da noite. Tentei lembrar-me se tinha jantado... pelo movimento do meu estômago achei que não. Que tinha almoçado eu me lembrava perfeitamente, sabia até o nome do restaurante. Mas, jantado?

Dei uma olhada na geladeira: um resto de língua defumada que não me inspirou. Resolvi sair e eventualmente fui parar no Bar Café Expresso Luigi, atraído pelas luzes de gás néon vermelho da porta envidraçada. Agora estava diante de um sanduíche de banana com bacon enquanto conjeturava sobre as sinistras implicações dos barulhos da vida moderna e seus eventuais efeitos atmosféricos.

Esses barulhos para mim se relacionavam com minhas recordações infantis sobre pantomima. O mocinho aparecendo do espaço envolvido em fumaça! Alçapões e janelas que puxavam as vítimas para o inferno desafiando a vontade da Fada Boa que sacudia sua inevitável varinha de condão, recitava uma cansativa preleção sobre as vantagens do bem e cantava o último sucesso das paradas de música, que geralmente não tinha a menor relação com a história. Veio-me a ideia de que o mal era geralmente mais imponente do que o bem. O mal precisava se exibir, assustar e desafiar. Era a instabilidade atacando a estabilidade. No final a estabilidade sempre acabava triunfando; suplantando mesmo a doçura e a chatice da Fada Boa. Débeis armas que no final sempre triunfavam, encerrando a pantomima com otimismo. Na hora dos agradecimentos, seguindo a procissão a Fada Boa procurava não ficar na frente (mas também não no fundo) e colocava-se ao lado do vilão diabólico, agora totalmente manso e dominado pelas forças do Bem.

A máquina de café sibilou novamente ao meu ouvido. Pedi outra xícara e examinei o bar. Minha irmã vivia me acusando de falta de senso de observação e desinteresse pelos outros. — Você vive no seu mundo — acusava-me ela. Tentando corrigir minhas faltas, comecei a olhar para os frequentadores do bar. Diariamente os jornais publicavam algo sobre os moradores de Chelsea e suas excentricidades. Cá estava minha chance de examinar de perto a veracidade das notícias.

Como o bar estava meio no escuro, eu não podia ver bem. Os frequentadores eram todos jovens e membros da chamada geração LSD. As moças, com seus cabelos eriçados e suas roupas estranhas, só me davam a impressão de serem sujas e superagasalhadas. Umas noites antes, quando eu jantava com uns amigos, num restaurante, notei uma moça de uns vinte anos, numa mesa próxima. O restaurante estava quente mas ela estava usando uma suéter de lã amarela, saia de veludo preta, meias de lã e durante toda a refeição o suor escorria pelo seu rosto; cheirava a lã ensopada de suor e cabelos sujos.

Meus amigos acharam que ela era muito atraente, mas não para mim. Minha única vontade era oferecer-lhe um bom sabonete, antes de atirá-la numa banheira de água quente. Acho que este pequeno parêntese serve para demonstrar quanto sou quadrado! Talvez o fato de eu ter vivido no estrangeiro tantos anos, vendo as belas indianas com seus saris coloridos e seus cabelos cheirosos, tenha influenciado meu relacionamento com a juventude atual.

Fui acordado desses pensamentos pelo barulho. Duas jovens, na mesa ao lado, começaram a brigar. Os dois acompanhantes tentavam acalmá-las, mas sem sucesso. De repente, elas estavam aos gritos. Uma delas, a loura, esbofeteou a ruiva; esta arrancou a outra do lugar e a briga degenerou num quebra-quebra histérico e violento. As duas pareciam peixeiras brigando.

O porquê da briga não entendi.

As outras mesas participavam vaiando ou aplaudindo.

— Viva! Muito bem! Dá-lhe! Agora!

O dono do bar, que presumi fosse o italiano Luigi, saiu de trás do balcão para apartar a luta.

— Vamos com isso! — gritou com seu puro sotaque Cockney. — Daqui a pouco a polícia baixa aqui. Parem!

A loura a esta altura estava agarrada na cabeleira da ruiva.

— Você não passa de uma cadela no cio!

— Cadela é você!

Luigi e os dois acompanhantes conseguiram separar as litigantes.

Via-se nas mãos da loura um enorme tufo de cabelos vermelhos que foi atirado ao chão com desprezo.

A porta da rua foi aberta e a Autoridade, toda de azul, entrou.

— O que está acontecendo aqui? Imediatamente formou-se uma frente unida contra a Lei.

— Estávamos brincando — disse um dos acompanhantes.

— Era só brincadeira — interveio o proprietário, enquanto empurrava com o pé o tufo de cabelos ruivos para baixo do balcão.

As lutadoras trocavam sorrisos de amabilidade.

O policial não pareceu convencido.

— Estávamos de saída — disse a loura. — Venha, Doug.

Por coincidência estavam todos de saída. O guarda, sem sorrir, viu-os partir, insinuando com o olhar que, na próxima vez, não seria tão leniente. Em seguida retirou-se também.

O companheiro da ruiva pagou a conta.