O Cavalo Amarelo
Capítulo II
Calei-me por uns instante. Senti minha cabeça turva por um momento, oscilando entre a luz e a escuridão. A luz irradiada por Hermia e a escuridão representada pelo Cavalo Amarelo. Afinal, ela estava iluminada pela luz elétrica, a mesma luminosidade artificial e cotidiana que ilumina todas as coisas. Minha mente voltou para o escuro.
— Quero investigar esta história, Hermia. Vou até o fim.
— Concordo, acho que é o certo. Deve ser muito interessante e até mesmo divertido.
— Não tem nada de divertido — protestei. — Quero que me ajude — continuei mais calmo.
— Ajudá-lo? Como?
— Nas investigações. Chegaremos às últimas consequências.
— Mas meu querido, no momento eu estou ocupadíssima.
Tenho o artigo para o jornal, aquele trabalho sobre Bizâncio e prometi a dois alunos...
Ela prosseguiu, explicando no seu irritante tom racional. Eu nem me dei o trabalho de ouvir.
— Sei, sei — disse eu, finalmente. — Você já está sobrecarregada demais.
— Estou mesmo — sorriu Hermia aliviada.
Mais uma vez notei o sorriso de indulgência maternal, como se eu fosse um menino ocupado com um novo brinquedo.
Maldição! pensei. — Não sou uma criança, não estou procurando uma mãe, especialmente uma mãe do tipo de Hermia.
Minha mãe fora encantadora e incompetente, cercada de amor e amparo por todos nós que adorávamos cuidar dela. Olhei para Hermia friamente: tão bonita, tão madura, tão intelectual, tão culta! E... tão... tão... infinitamente chata!
II
Na manhã seguinte tentei em vão encontrar Jim Corrigan.
Deixei recado que estaria em casa às seis horas, caso ele quisesse aparecer para um drinque. Como ele era um homem muito ocupado duvidei que pudesse vir mas, para minha surpresa, ele apareceu às dez para as sete. Enquanto eu preparava um uísque com soda, Corrigan deu uma olhada nos quadros e livros.
Concluiu, por fim, que preferia ter nascido um imperador Mongol em vez de um médico legista.
— Embora esses imperadores — continuou Corrigan, sentando-se — sofressem muito com as mulheres. Deste problema eu escapei...
— Não é casado?
— De jeito algum. Você também não, a julgar pela confortável bagunça em volta. Uma esposa arrumaria isto tudo em cinco minutos.
Argumentei que as mulheres não eram tão más assim. Em seguida, encaminhei-me, com meu drinque, para a poltrona em frente.
— Deve ter-se perguntado por que eu precisava falar com você tão urgentemente. Acontece que descobri algo que creio tem alguma relação com a conversa que tivemos há algum tempo...
— Conversa? Ah!... sim... sobre o padre Gorman?
— Isto mesmo. Para começar o nome “Cavalo Amarelo” significa alguma coisa para você?
— Cavalo Amarelo? Cavalo Amarelo? Não, acho que não... Por quê?
— Porque talvez tenha alguma relação com a lista de nomes que você mostrou. Estive no interior com uns amigos... um vilarejo chamado Much Deeping. Levaram-me a uma velha hospedaria chamada: O Cavalo Amarelo.
— Espere ai! Much Deeping? É perto de Bournemouth?
— Uns dez quilômetros mais ou menos...
— Por acaso você conheceu um sujeito chamado Venables?
— Conheci.
— É mesmo? — Corrigan empinou-se na cadeira, animado.
— Que coincidência. Como é ele?
— Um homem muito estranho.
— É mesmo? Como, estranho?
— De muita personalidade. Embora seja vitima de paralisia infantil...
— O quê?— interrompeu Corrigan.
— Ele teve poliomielite há alguns anos. Ficou totalmente paralisado da cintura para baixo.
Corrigan atirou-se para trás, quase deitando na poltrona.
— Acabou... bem que eu achei bom demais para ser verdade...
— Explique-se...
— Você precisa conhecer o Inspetor Lejeune. Quando Gorman foi assassinado Lejeune pediu para as pessoas que tivessem visto o padre naquela noite se apresentarem para prestar informações. Como sempre a maioria foi inútil. Contudo, um tal de Osborne, um farmacêutico, contou que viu Gorman passar pela farmácia dele, naquela noite, seguido por um homem. É claro que na hora ele não deu maior atenção ao fato, embora mais tarde tenha descrito o tipo detalhadamente, garantindo que seria capaz de reconhecê-lo caso o encontrasse outra vez: Dias atrás, Lejeune recebeu uma carta de Osborne, que atualmente está morando em Bournemouth, dizendo que compareceu a uma quermesse e que viu o suspeito numa cadeira de rodas. Segundo Osborne o nome do tipo é Venables.
Corrigan olhou para mim. Meneei a cabeça.
— Venables realmente estava na quermesse. Mas não podia ter seguido o padre naquela noite, seria fisicamente impossível.
Osborne se enganou.
— Ele descreveu o suspeito com uma impressionante riqueza de detalhes. Um metro e oitenta, nariz adunco, pronunciado pomo de Adão etc. Confere?
— Sim, é a descrição de Venables.
— Acho que Osborne não é tão bom fisionomista quanto imagina. É óbvio que ele está confundindo Venables com algum sósia. O que tem isto tudo com a estalagem do Cavalo Amarelo?
— Você não vai acreditar! Para dizer a verdade nem eu acredito.
— Conte.
Relatei minha conversa com Thyrza Grey.
— Quanta besteira! — foi a reação imediata de Corrigan. — O que há com você?
— Não sei.
— Não sabe? Búzios, galos brancos, missas negras, sacrifícios humanos. Três velhas solteironas expelindo raios mortais. É loucura, loucura completa.
— Eu sei — concordei sombriamente.
— Não concorde comigo desta maneira, Mark. Dá a impressão de que você está certo. No fundo, você acha que está certo?
— Posso fazer uma pergunta? Existe realmente uma teoria científica sobre o desejo de morte sempre presente no ser humano?
Corrigan pareceu hesitar.
— Não sou psiquiatra. Aqui entre nós acho esses caras uns loucos. Vivem formulando teorias absurdas. Nós, da Polícia, detestamos as testemunhas eruditas que sempre aparecem para defender o réu e explicar por que ele matou a velhinha e roubou o dinheiro do cofre.
— Você prefere a teoria glandular?
Corrigan sorriu.
— Concordo também que sou um teórico. Mas minha teoria está apoiada numa base física. Agora esta conversa de subconsciente!
— Você não acredita nela?
— Claro que acredito. Mas não como esses dementes. Sei que existe um desejo de morte inconsciente mas não creio que atinja os exageros desses psiquiatras.
— Mas existe! — insisti.
— Por que você não compra um bom livro de psicologia?
— Thyrza Grey diz que já atingiu o âmago desta ciência.
— Thyrza Grey! — remendou Corrigan, com desprezo. — Como uma solteirona do interior pretende entender problemas psicológicos tão profundos?
— Ela diz que entende.
— E eu digo que é besteira.
— É a reação típica das pessoas que não querem mudar suas teorias preconcebidas.
— Quer dizer que você engoliu toda aquela xaropada?
— Não é bem isso — retruquei. — Quero saber se existe alguma teoria cientifica baseada nesta história.
— Teoria científica!
— Está bem, está bem. Só estava querendo saber.
— Daqui a pouco você vai dizer que ela é a dona da Caixa.
— Dona da Caixa?
— Uma dessas invencionices tipo Nostradamus. Tem gente que acredita em qualquer coisa.
— Pelo menos diga como vai indo a lista de nomes.
— Meu pessoal tem trabalhado nisso, mas não é fácil. Tipo do serviço rotineiro que leva tempo. Não é fácil acharmos uma pessoa só pelo sobrenome.
— Examinemos a questão por outro ângulo. Num período relativamente curto... de um ano e meio para cá, por exemplo... cada um desses sobrenomes apareceu num atestado de óbito, não é mesmo?
Corrigan olhou para mim espantado.
— Não sei aonde quer chegar, mas tem razão.
— Esses nomes, portanto, têm em comum somente a morte.
— O que não quer dizer muita coisa, Mark. Você sabe quantas pessoas morrem diariamente? Além do mais, alguns nomes da tal lista são bastante comuns...
— Delafontaine — disse eu. — Mary Delafontaine. Não é um nome muito comum. Morreu quinta-feira passada.
— Como sabe? Leu no jornal?
— Uma amiga dela me contou.
— Não morreu de nada suspeito, segundo soube. Para dizer a verdade a causa mortis de pessoa alguma dessa lista é suspeita. Não se trata de acidentes e sim de mortes naturais: pneumonias, hemorragias cerebrais, tumores, um caso de poliomielite... como vê, nada suspeito.
— Não é acidental, nem envenenamento. Uma doença que leva à morte. Exatamente como Thyrza Grey promete ser capaz de matar.
— Você acha possível que essa mulher possa causar pneumonia numa pessoa que ela não conhece e que inclusive mora em outra cidade?
— Não disse isso. Ela é quem diz que é possível. Acho fantástico e gostaria de acreditar que fosse mentira. Mas existem fatos estranhos, como a menção do Cavalo Amarelo, relacionados em conexão com o afastamento de pessoas indesejáveis. Nas redondezas vive um homem que foi reconhecido como o suspeito que seguiu o padre Gorman na noite do crime quando foi revelado ao padre um caso de “grande maldade”. Não acha muita coincidência?
— Mas, segundo você, esse suspeito não pode ser Venables, uma vez que este senhor é paralítico.
— Quem sabe não é uma paralisia falsa?
— Não. Os membros não estariam atrofiados.
— Por esse lado não poderemos prosseguir — suspirei. — Pena! Se existe uma organização que se especializa na “remoção” de pessoas, Venables seria o cabeça. É um homem riquíssimo... mas eu gostaria de saber como ficou tão rico. — Fiquei uns instantes calado, formulando meu raciocínio.
— Essas pessoas que morreram desta ou daquela doença deixaram outras que lucraram com sua morte?
— Sempre alguém lucra com a morte de uma pessoa. Nesses casos, porém, não houve nada que nos parecesse suspeito.
— Sei.
— Lady Hesketh-Dubois, como você sabe, deixou uma herança de 50.000 libras para um sobrinho e uma sobrinha. Ele vive no Canadá, e ela no Norte da Inglaterra. É verdade que ambos necessitavam do dinheiro. Thomasina Tuckerton era herdeira de uma grande fortuna; caso morresse, antes de completar vinte e um anos, o dinheiro reverteria a sua madrasta que me pareceu ser uma criatura honesta. No caso da Sra. Delafontaine a herança foi para uma prima que mora em Quênia.
— Todos conspicuamente ausentes — comentei, com amargura.
Corrigan fuzilou-me com os olhos.
— Um tal de Sanford, que empacotou também, deixou uma esposa muito mais jovem que já casou outra vez. O falecido não queria dar-lhe o divórcio. Sydney Harmondsworth, que faleceu de uma hemorragia cerebral, estava sendo procurado pela policia: suspeita de chantagem. Creio que vários figurões da política ficaram satisfeitos com seu desaparecimento.
— Você está insinuando que todas essas mortes não foram tão casuais?
Corrigan sorriu.
— Não esqueça que meu nome é Corrigan e também está na lista. Os Corrigan que morreram nestas três semanas não trouxeram benefícios para pessoa alguma.
— Então quem sabe você não é o Corrigan que eles querem?
Tome cuidado.
— Obrigado. Espero que a Bruxa-Mor não me mate de úlcera no duodeno ou de gripe espanhola. Não sou tão ingênuo assim!
— Ouça, Jim, quero investigar esta história de Thyrza Grey. Posso contar com sua ajuda?
— Não. Não compreendo um cara inteligente como você embarcar numa xaropada dessas!
Suspirei.
— Você não podia usar outra palavra? Já cansei desta...
— Besteirada, se prefere.
— Não gostei.
— Teimoso, hein?
— Alguém tem que ser teimoso nesta história.